Sobre o corporativismo

Por Vinicius de Oliveira

Estava lá, deitado semi-nu. Fazendo esforço pra levantar as pálpebras, aquele cheiro intragável que dava vontade de vomitar, tinha sido ele mesmo o causador desse martírio? Não adianta reflexões profundas nesse momento, logo ele que sempre foi uma homem que adorava filosofar. A filosofia era perigosa, suja, subversiva. Atingiu o canto do pequeno cubículo, nenhuma luz penetrava, mal podia enxergar seus pés, à essa altura era bom mesmo,ver-se podia causar mais desgosto. Mas ele sabia muito bem porque estava ai, e isso lhe dava força, estava ali por todos, e não por si mesmo. Era a causa, o compromisso com a coletividade explorada, com o oprimido, com a classe trabalhadora, mas ouvia passos, era agora! A energia encontrou suas pernas, moveu-se ficou em posição defensiva no canto do cubículo. Tinha algo estranho, faz mais de 186 pensamentos que não ouvia gritos. Nossa, nunca teve tanto tempo sem a visita deles. Os covardes cães do sistema sempre chegavam fazendo barulho, anunciavam sua chegada. Ele sabia que estava ali à mais de 100 dias, pescou isso de um dos guardas, que clamou que lhe entregasse os comparsas. Comparsas, uma ova! São companheiros, nossa causa nos unifica e nos fortalece, jamais os entregaria. Mais um pensamento e nada. Nenhum barulho! Nossa! o pensamento começa a gritar muito alto na cabeça. Melhor falar sozinho, baixinho é interessante se ouvir, nem lembrava mais de sua voz direito, sempre rouca de tanto gritar e xingar. É verdade, a única parte melancolicamente deliciosa era poder xingá-los, a mente humana é muito criativa quando quer ofender. Barulho! Nada de falar, eles pensam que armamos planos de fugas, mas todas as vezes que falo ninguém escuta, ninguém jamais respondeu. Silêncio! Passos…foi-se!
700 pensamentos, como eu sei? Arranco um pêlo da barba á cada 100. Não pára de crescer mesmo. Sinto os 7 na mão. Barulho! Vários passos, são eles! Finalmente, quer dizer, estão abrindo a porta, são eles. Me carregam até a sala de sempre. Vejo ao fundo da porta do final do corredor, o belo rosto da sargenta, consigo forças pra sorrir. Ela sorri de volta.
A mesma cadeira de sempre, o mesmo odor corriqueiro daquele lugar, não tinha outro suor ou marca de sangue, parecia até que estava abandonado.
O algoz olha para minha cara e sorri, tão calados hoje. Sem xingamentos. Não resisto, rio com porque não me resta muitos sentimentos e pergunto:
O que foi essa ausência tanto tempo? O Brasil ganhou a copa?
Não,decidimos não trabalhar esses dias.-responde o algoz
Porque?
Paramos de trabalhar, porque estávamos sem receber à 2 meses e queríamos aumento de salário
A zuada da corda puxando…
E vc comunista, foi preso fazendo o que mesmo?
GREVE.

*Vinícius Oliveira- é estudante de comunicação social e faz a arte circense de construir Barricadas pra revolucionar um mundo onde o monopólio do riso é a desgraça da nossa classe.

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