O Homem de Bem

Um aviso.  

Eu fiz este conto em 2010 para compor um livro que se chamou “7 espíritos absurdos”, porém o livro ficou ruim e morreu. Mas este contou sobreviveu. Eu o pensei indo de bicicleta ao trabalho numa Curitiba fria. À época me questionei: é possível outro tipo de fascismo em que não seria o Estado, o Senhor da Ordem, porém às próprias pessoas controlando umas às outras. Um voluntarismo violento? O fascismo do começo do século XX, já continha esta base social. Porém, a minha questão talvez fosse que o social poderia ter um protagonismo sobre o político, estamos vivenciando um fascismo social?

Dá medo ver o que fizeram com o menino no Rio de Janeiro, a humilhação de desnudá-lo é muito semelhante ao que fizeram com os judeus na Alemanha de Hitler, com os socialistas no Chile de Pinochet. É uma forma de humilhação extrema, o desnudar-se é uma forma de animalização do outro. Será que os crimes que o menino pode ter cometido, justificativa esta violência? Agrava isto tudo a apologia da tal jornalista, cafona e brega como diz Jean Wyllys. Não vou falar o nome dela, pois me dá nojo. Estamos nos desumanizando rapidamente? Óbvio que já vimos este filme antes, mas o quanto há de novo?

Penso que a esquerda não pode ajoelhar-se ante este fascismo social, que pode contaminar nossa casa, qualquer um. Não podemos ficar com medo, pois é o que eles querem. Algumas vozes da ignorância não podem falar por todos, alguns hão de ser convencidos do contrário. Não perdemos. Talvez estejamos ganhando, pois é uma “reação” contra o fortalecimento das vozes de muitos revolucionários. Por isto se chamam “reacionários”, quando eles nos temem, partem para a reação através da violência estúpida, moral e física. Enfim, acho que este conto feito há quatro anos faz parte de um fantasma de nossa época. Publico aqui em partes para melhorar a leitura.

 

O Homem de Bem (parte I)

Por Venancio Guerrero

 2010 de uma Curitiba bem fria.

Ele andava no lado escuro da rua. A decisão marca o gingar do Homem, passos firmes e sem medo. O choque entre seu sapato e as pedras da rua canta aridez. Os becos da cidade invadiam o caminhar do Homem. De repente, seu caminho é interrompido por vozinhas que entram em meio ao ruído de seu passo estridente. Alguns pequenos olhos fitam o Homem. Matreiros, sádicos e perspicazes. O Homem termina o caminhar e recosta-se em si. Olha somente. Sem expressão de ódio, de carinho, de medo, de felicidade, nem de ironia. Somente sem expressão. Os pequenos olhinhos se faziam pessoas ferozes.

Pessoas-ratos que avançam sedentos sobre o Homem. Ele toma uma grande pedra e a atira sobre um destes olhinhos. O pequeno homem-rato cai com o impacto do projétil mineral atirado pelo Homem. Os amigos o acudiam. A grande mão do Homem acerta um soco na nuca de um dos amigos, que rola. O outro apenas olha assustado para o Homem, a boca abre e fecha na mesma velocidade, era a dor que sentia com a violência do Homem. Um dente voa ao solo.

Os pequenos homens ratos perdiam a peleja. Um deles se encontra sangrando deitado no chão. O outro desmaiado ao lado. E, o terceiro pedia clemência, pois leva muitos golpes no estômago, na boca, na perna e nas partes íntimas. O Homem saca uma faca e apunhala o clemente. Muitas facadas e sangue. Aproveita e repete o mesmo feito com os outros amigos. Muitos golpes e facadas. Um rio de sangue beija os três homens ratos mortos.

O Homem caminha com mãos ensanguentadas. Ruas iluminadas. Grande avenida. Carros corriam até seu objetivo determinado. Muita velocidade impunha ar de euforia. A lua acendia os corações, uma grande abobada de um intenso creme fogo.

Na grande avenida uma prostituta se aproxima do Homem e oferece seu corpo. Ele a olha com asco.

– Sua imunda nojenta! Por que vende teu corpo?.

 A mulher o ameaça com as mãos em riste. O Homem pega em suas frágeis mãos putas e a joga no solo. O Homem chuta o estômago da Prostituta. A Mulher tosse sangue. O Homem a fita com um sorriso pequeno, desenhando a cara de olhos tingidos do negro das sombras. Ele abaixa e pega os cabelos da Mulher.

– “Sua vagabunda!”.

 Enfia a mão no sexo da Prostituta. Tira sua pequena saía. Violência e violação entre dentes:

– Você não entende que é Pecado vender o corpo!

Ele levanta afobado, depois do gozo. Pega muitas pedras do chão e atira-as no corpo que chora. A Mulher em transe tem sua face dilacerada por meio dos sapatos do Homem, que os afunda à maquiagem ensanguentada.

Ainda era o começo da noite enluarada. O Homem olha seu relógio que marca 19h00min. Atravessa o parque bonito e chega ao seu bairro. Flores e brinquedos decoram a escura arquitetura cívica. Uma estátua aponta aos céus. Forte e esbelta. Uma saía a tiracolo. Os cabelos longos. A estátua iluminava o Futuro. O Homem olha a ordem impregnada naquela obra Humana e se emociona.

Ouve um murmúrio na praça aparentemente vazia. O bairro do Homem se nutre de poucas pessoas no dia de semana. Era um lugar limpo. Estranha o barulho que rompia o belo quadro. Ele olha no canto escuro do parque. Perto de uma árvore frondosa, um grande Pau-Brasil, habitam as sombras que emitiam os ruídos. Ele se acerca.

Os sons evidenciavam libido. O Homem olha atento ao casal que se encontra em corpos unidos. Dois humanos em chamas. Dois adolescentes. Seres de um mesmo sexo. Masculinidade em paixão. O Homem se assusta com a cena que quebra a rotina do parque bonito. A estátua estaria com vergonha daquela espécie de libido.

Em ato contínuo os dois jovens magros são divididos. Toma o colarinho do rapaz loiro e o atira para longe, correndo o acerta na cara com seu sapato de sangue prostituta. O menino moreno grita desesperadamente e também recebe golpes. Lágrimas rolam na cara do menino moreno.

-Morra como um Homem!

 Alguns tiros e dois corpos jazem no chão e o Homem caminha sorridentemente. Feliz por estar em meio às flores e ordem de seu bairro de pessoas cultas e medianas. Sabia dos males da Cidade. Mas havia muitos Pais de família que pensavam como Ele! Não tardariam a agir, seguindo seu senso de Justiça e Ordem.

Avista um grupo de jovens conversadores e sorridentes. Ele conhecia os Meninos. Quatro garotos que cresceram e agora são adolescentes. Aproxima para ter uma conversa amigável com os Meninos. Passar um pouco da sua velha sabedoria para aquelas crianças grandes. No caminho um cheiro de criminalidade tortura seu coração justiceiro e amistoso. A ira invade os olhos sábios do Homem. O ódio invade a lógica do Homem de Bem. Ele caminha lentamente. Os quatro Meninos sorriem com seus cigarros do pecado.  

-Quer tio?

– Meus Filhos! Que estão fazendo!? Que Fazem com a Moral de nosso mundo mediano. Uma vergonha! A desordem causada por este psicoativo planta o caos em Nosso Mundo. Vocês! Filhos de bons Pais! Por quê? Por quê? A fantasia não pode organizar nossa realidade. Esta excessiva alegria que vejo em seus rostos, não pode ser o norte de nosso Futuro. Queremos uma Ordem em que a Alegria deve ser tomada em doses homeopáticas. Os menores vândalos devem ser os que acumulam a acusação contra o mal das drogas. A única dependência que podemos aceitar é aquela legal em nossos programas de ursinhos e de auditório que povoam nossa imaginação de alegria permitida.

Os meninos riem do discurso do Homem de Bem. A ira ameaça a doçura de seus olhos. Um ódio do tamanho do seu coração bondoso. Os pecadores o faziam pecar. Porém, olha pacientemente para os Meninos e com um doce sorriso diz:

-Meus Filhos! Entendo suas atitudes impertinentes. São filhos da nossa Pátria Gentil, diferente dos menos favorecidos que nos importunam cotidianamente, aos quais entramos em uma guerra sangrenta e interminável. Mas vocês do mundo médio devem ser tolerados, suas tolices devem ser alimentadas conforme a conveniência.

– Amamos seus risinhos, suas caras rosadas, suas sangrias e atos revoltosos sem sentido. Acreditamos que devemos tolerar tudo isso, fazer grandes programas de entrevistas com seus testemunhos tolos. Aos infiéis a morte! Aos Filhos o carinho! Mas me escutem! Vocês devem cuidar da Higiene. Os Outros podem entrar e invadir nossos lares no comércio deste psicoativo feroz e assassino que cria risos, sono e imediatos pensamentos desorganizados.

– Quero que vocês estejam nesta empreitada comigo! Pela dependência servil e ordenada com todas as drogas da vida. Contra as drogas que incitam a fantasia. Podemos fazer cartazes com alguém de vocês. Para que vejam que a Droga mata nossos Filhos. Culparemos os filhos dos servos e construiremos mais estátuas de homens com bonitas saías, apontando o Futuro! Meus Filhos estejam comigo contra a Fantasia, pela ordem média geral da nação!

– O Tio quer experimentar?!

 O Menino Rosa dá uma gargalhada estridente e solta um bafo verde na cara do Homem de Bem. Todos os garotos são gatos risonhos. Os olhinhos pequeninos. As caras rosadas. Abraçam-se e dançam ao redor do Homem de Bem, chamando-o de Grande Xamã.

Ele mantinha a tez higiênica impecável. Os olhos rígidos. A alvura do rosto ríspido. A brancura e a força concentradas em um Homem que tinha como objetivo fazer o Bem e a Justiça. Ele resgataria as grandes escrituras que falam sobre Temor, Sacrifício e Disciplina. Não admitiria que os filhos do seu bairro, daquele colorido lugar azul e florido, modelo em essência, fosse invadido pela imoralidade dos Outros.  

Sangue poderia correr em nome desta causa? Desespero. Ira. Ódio. Calor. Paixão. Tudo entrava no coração do Homem de Bem. Ele deveria fazer o bem para os seus filhos. Não poderia causar danos aquele mundo da estátua de bonitas pernas. A ralé poderia sofrer sanções e torturas mais rígidas. Mas seus Filhos?

(continua em dia 13/02/2014) 

 

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