Rolezinho: Causando contra nosso racismo.

 roles

Por Venâncio Guerrero

Um garoto – auxiliar de pedreiro e estudante de escola pública que tem fãs – convida os amigos e enche de gente o shopping center. Eles se divertem, cantam e cometem excessos de alegria. Às vezes nos enfadamos com os gritos, isto depende de quem são estes jovens, se forem nossos filhos ou sobrinhos nos vamos alegrar com a felicidade da molecada, mesmo com uma pequena contrariedade. Porém, a história fica diferente se dizemos que são outros jovens e os vemos estampados no jornal, “menores vandalizam shopping center e causam distúrbios”. Como não os conhecemos e vemos polícia e um monte de meninas e meninas que nos causam medo, a primeira coisa que vem: “vagabundos”.

Esta semana a “opinião pública” voltou a tremer frente aos fenômenos sociais que não consegue entender. Olhar o povo querendo viver e ser feliz e coletivamente reclamar isto parece à pretensa opinião pública e aos milhões de comentários de pretensos donos da moral e dos bons costumes, nada mais que vagabundagem e um ataque à civilização.

A ideia de vagabundo e sua psicose racista

A imagem mais forte deste fenômeno social é a do “vagabundo” que encobre um velho problema cultural: a da nossa mentalidade escravocrata e adultocêntrica. Estes dois conceitos se expressam na forma em que o brasileiro se expressa em relação aos jovens pobres e negros: gosta de achar que um menino ou menina da periferia não pode estar exercendo seu direito à diversão, pois ele deve estar trabalhando, se for o filho do governador, ninguém se importa, acha tudo bonito, agora se é filho do trabalhador e negro, deve estar trabalhando para gente, senão o faz, ele é taxado de vagabundo. É uma subjetividade que envolve um duplo ranço histórico, pois envolve um preconceito contra o negro e contra o jovem, resultando em uma psicologia psicótica do medo e da agressividade, que se expressa na violência policial, apenas cumpridora dos anseios nacionais.

Sim, nacional, pois a pátria Brasil envolve esta cultura que nos remete ao escravocrata patriarcal que deve domar os jovens negros, vivente no cotidiano das piadas e das considerações morais. Como todo bom preconceito, uma visão não apenas distorcida da realidade, também uma mentira que reconstrói significados, pois como mostra a matéria da folha, os líderes destes movimentos, estudam e trabalham.[1]

Um velho problema social

A essência deste debate está no racismo – mesmo que haja uma negação esquizofrênica em dizer que somos todos iguais e por isto temos o direito de humilhar um negro em piadas sem graça. O novo é a ocupação de um shopping center como espaço de convívio por parte de jovens da periferia. Dado que os brancos de classe média já o fazem há tempos. Pois desde quando o neoliberalismo inaugurou milhões destes centros comerciais com nome em inglês como opção de trabalho e de socialização, eles se tornaram um espaço em que a juventude busca exercer sua diversão coletiva e urbana. Assim, a vital socialização – como importante momento de desenvolvimento humano – se faz a partir de um espaço público dominado e centralizado pela mercadoria.

O crescimento econômico do Lulismo trouxe a possibilidade de que muitos da periferia pudessem, ainda com precariedade, pagando no cartão de crédito, usando dinheiro contado, entrar no shopping center, trazendo suas referências culturais, tal como o funk. A juventude branca e de classe média sempre o fez, também em coletivo e também com algazarra, quem não está acostumado a escutar brincadeiras e músicas e paquera em praças de alimentação, porém antes eram mocinhas e mocinhos rosados, por isto agradável a opinião pública.

Agora se evidencia o conflito marcante entre um modelo que inclui pelo mercado, porém ainda permanece culturalmente atrasado, com sua cultura antiperiferia, antinegra e antijuventude e mantém a dinâmica de estreitar os espaços públicos de convivência aos espaços privados de caráter público. O apartheid brasileiro rompeu os muros da piada e chegou aos olhos do sistema, os centros de circulação de mercadorias.

A boa Nova

Por outro lado, este conflito inflamado pela nossa violência projetada na polícia – reflexo do brasileiro escravocrata, patriarcal e adultocêntrico – está estimulando novas reflexões do movimento social e há um saldo positivo de fusão das esquerdas radicais com o a periferia jovem e negra. Como diz o Edemilson Paraná[2], “não nos cabe – como não cabia em junho – retirar desses jovens o protagonismo de sua auto-organização e auto-expressão”, onde, “O momento pede compressão e diálogo para uma ação mais unificada e eficaz possível. Tal diálogo é e será bom para ambas as partes, sobretudo para uma esquerda organizada disposta a se renovar e oxigenar seu conteúdo, prática e estética de denúncia política e mobilização social”.

Para mim esta ideia é essencial de atos conjuntos, que em vez de impor nosso formato de organização, possam beber da perspectiva destes jovens. Aqui implica um processo, onde primeiro há simpatia, logo conversas e valorização do novo, o que nos pode oxigenar em vários sentidos, ainda com conflitos internos nossos e dos moços e moças.  

Também estamos aprendendo que mudanças econômicas não podem ser feitas sem mudanças culturais, que devemos levar em conta doutrinas de choques culturais, “do causar”, se eles têm medo da gente, vamos lá e gritamos, mostramos nosso corpo. Isto pode causar rejeição no primeiro momento, porém o debate vem à tona e a sensibilização – que cria contextos políticas de mudança – pode vir em seguida.

Temos de pressionar que estes choques culturais se tornem políticas públicas e se materializem em espaços reais e próprios de expressão e diversão da juventude. Aqui é efetivar o direito a brincar, um direito fundamental do ECA e da Convenção Internacional do Direito da Criança. Ora bolas, é um direito ao desenvolvimento como ser pleno, é conseguir transformar a realidade em brincadeira, consolidando uma sociedade mais inventiva. A socialização, o jogo, a música em espaços como o shopping center é uma brincadeira. Ainda que seja um centro comercial, este espaço não pode segregar a brincadeira de jovens negros, pois não o faz com os brancos. Porém, não é o ideal, mas não cabe a nós dizer que não devem estar lá e sim brigar por espaços coletivos que exerçam este papel da juventude.

Aqui é um dupla linha, evidenciar o direito de estes jovens irem ao shopping center e “causar” contra o preconceito da nossa velha sociedade carcomida pelo nosso racismo patriarcal. Fazer coro com os meninos e meninas, como já vem sendo feito.  Causar pelo choque cultural, levantando a voz desta boa nova que é o protagonismo desta juventude. Aqui a velha esquerda pode conseguir oxigenar e vencer nossos velhos problemas.

 

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