Fatalismo neoliberal e uma luz débil, mas que se fará forte: Itacoara.

por Venâncio Guerrero

Podemos pensar o neoliberalismo como desvalorizações massivas de tudo. É como se fosse à desvalorização da luta de classes do século XX, isto é, a narrativa do fim da história teve uma materialidade em redefinir toda interpretação do limite da política. Se o século XX foi o século em se colocou com mais força a possibilidade de revoluções, a caída do muro teve uma conotação de que era “fora da realidade” qualquer tentativa de mudar a realidade.

Aqui o argumento liberal de que há leis transhistóricas que governam a economia nunca pareceu tão forte. Pois, se a economia social democrata acredita que poderia fazer reformas profundas que pudessem levar a uma transformação socioeconômica, os atuais sociais democratas estão longe de acreditar em reformas.

O argumento da terceira via é fundamentalmente esta ideia: uma conotação em que as transformações não são possíveis e a única coisa possível na economia é adaptar-se mais e mais às leis econômicas para que se possa sacar melhor proveito, talvez interpretando melhor estas leis. É realmente incrível que em pleno século onde parece não haver limites para ultrapassar as leis físicas, criamos leis sociais e econômicas mais instransponíveis. Até mesmo a interpretação de economistas marxistas na atualidade parece redundar – quando muito -na prática, em um liberalismo que incorpora o keynesianismo.

Antineoliberalismo como fim da história

O argumento lulo-petista tem muito desta conotação de entrar no moderno do mundo do fim da história. Os argumentos essenciais se baseiam em uma “não há alternativa” da Margaret Thatcher, reinterpretando é claro estas leis econômicas, aqui o não “há alternativa” é parte do antineoliberalismo.

É algo realmente incrível como uma categoria dialética da negação se torna na mera estática afirmativa de uma lei transhistórica. Pois o antineoliberalismo é essencialmente a ideia de que o neoliberalismo é  parte de leis econômicas, então no máximo é possível reformá-lo, de o superá-lo com calma, de aplicar alguns programas de redistribuição do produto feito por uma economia que mantém regras de funcionamento mais perversas – fruto da ação humana diga-se de passagem – do ponto de vista da relação capital- trabalho e destas com relação ao funcionamento dos serviços públicos.

 Ora, neste sentido o keynesianismo é também parte de uma lei. Pois, os ciclos aparecem como algo controlável pela injeção de dinheiro em uma economia autoregulada. Assim, o neodesenvolvimentismo se faz como uma faceta da narrativa do fim da história articulada por ex-socialistas que foram levados pelo tsunami da desvalorização massiva de toda perspectiva socialista do século XX.

Aqui por tanto é possível entender, por exemplo, os argumentos da governabilidade tão posto e evidenciado em cada palavra de um petista da base, quase uma mantra divulgado como vírus em redes sociais. Uma lobotomia produto da mídia petista: “Há uma institucionalidade corrupta se queremos governar jogamos em suas regras”, “Não foi feito a revolução, logo temos de jogar com as regras do capitalismo”, “Nosso governo é um governo em disputa, portanto é normal que buscamos manter a estabilidade econômica”, “O pacto social conservador é parte da nossa disputa de uma sociedade conservadora”, “Não é possível fazer uma revolução por decreto, então avançamos passo por passo”, “Como seria um governo alternativo: romper com a ordem e deixar o país cair em desordem, sendo que nossa sociedade é conservadora?”

Nossas leis econômicas têm leis históricas e culturais instransponíveis.

 Ora, o Brasil é tomado como conservador e a história de patrimonialismo e de setores políticos oligarcas estão dadas como leis transhistóricas. Então se há um governo municipal do PT que faz um pacto com um sistema de transporte monopólico em manter o aumento à passagem, é lido como necessário para manter a governabilidade, pois é um grupo – muitas vezes de famílias que levam anos como setores oligarcas – que está entranhado na cultura? Ora se é isto, não é possível qualquer tipo de mudança nos problemas estruturais do Brasil, um sistema de transporte sem qualidade é parte dos problemas que buscamos mudar!

Para mim as coisas não são nada transhistóricas. Se há uma leitura consequente do Marx, é que as leis econômicas e sociais são históricas e mudam com esta mesma história. Por conta da ação humana há distintas formas de capitalismo que mudaram ao longo da história do capitalismo! Aqui a transformação para outro sistema – fora do capitalismo – é que cada vez mais possível.

Há possibilidades, não que seja um fatalismo histórico, porém podem ser feitas várias coisas. Como há distintas políticas do capital mesmo deste capitalismo com padrão financeirizado e liberalizado pós-caída do muro de Berlim, como o PT nos ensinou, também há vários tipos de políticas anticapitalistas que podem gerar outra sociedade, ao mesmo tempo, que traz conquistas reais para “o hoje da classe trabalhadora”.

Itacoara: uma experiência anticapitalista

Bem como, há experiências reais neste sentido, muitas, porém quero citar uma pequena que me parece emblemática: Ainda que tenhamos uma brutal narrativa do fim da história que contamina toda a esquerda brasileira e também aos da Oposição de Esquerda – que às vezes buscam atalhos, repetindo os erros dos petistas em buscar alianças com a pequena oligarquia – há uma pequena prefeitura no Rio de Janeiro, onde o fim da história é combatido com força e energia.

 Lá é possível fazer algo diferente, coisas para a classe trabalhadora, pequenas reformas em um município. Porém como uma experiência coletiva em que os trabalhadores decidem sobre coisas políticas tem como realidade estratégica uma luta geral pela revolução!

 Com esta política, O Prefeito de Itacoara, Gelsimar, do PSOL, se chocou com a cultura da preguiça política e da ineficiência mal- intencionada da câmara de vereadores. Ele não aceitou como dado que somos assim e o sistema é assim. Ele está brigando e chamando o povo para a briga.

Ainda que não haja um desfecho, a batalha do povo de Itacoara nos ensina que é possível sim mudar, ora são somente meia dúzias de pessoas que agora o impedem de comprar remédios e pagar médicos, sendo que dobrou a estrutura de saúde do município! Se há dinheiro e vontade, há um entrave, é só fazer! E, o povo de Itacoara o fará, pois somente o povo organizado faz história e cultura.

 

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