Conto: A Máscara.

Por Venancio Guerrero

Você tem medo, nós temos medo. É realmente incrível a dor do medo, a dor da prisão, mas é uma prisão consciente? Quem em sã consciência se tortura e se prende pelo medo. Olhe para lá, olhe bem, e veja o que eu vejo, são pessoas caminhando numa escala infinita de tortura retilínea, ora a uniformidade está nas formas em que eles se ignoram quando querem olhar-se e abraçar-se, pois são eminentemente solitários, ou talvez nas dores que se infligem, ou talvez quando se autoimpõe um mundo só deles.

É difícil ver o medo, o desespero, e a tortura, todas elas se misturam em muitas coisas. Hipóteses podem nos dizer. Se quisermos olhar neste deserto de fragmentos de pesadelos, podemos olhar e supor que olhamos caras com capuzes de vídeos de seus próprios pecados. Calma, calma, explico, explicamos, ou você nos explica?

Não se faça de valentão comigo. Calma lá. Vamos, quando o vagabundo caminhava em meio ao lodo, encontra uma mulher e ela lhe dá guarita, pois o vê como substituto perfeito do seu cachorro. Logo, este vagabundo vira um nada e volta ao mundo obscuro, onde lhe dão folhas para escrever, será ele, o responsável por fazer este mundo uma tortura completa? Ora bolas, se vinga da mulher que o via como cachorro, ou dos que os prenderam na cama para escrever, ou mesmo ele é o espírito da tortura e do caos que nos enganou este tempo todo? Maldição. Entramos em histórias que não nos compete, aquele M!

Voltamos ao capuz, este capuz é um dispositivo, você só o vê por fora, é acionado por dentro, logo quem o veste e suas visões exatas e detalhadas se tornam indescritíveis para um observador externo. Olha lá ele vindo com isto de observação externa outra vez, maldita relatividade geral que acabou com nossas verdades, quem precisa de verdade se podemos viver de tortura e de desespero? O referente é o medo geral que nos infligimos a nós mesmos, esta dor desesperante em não conseguir realizar nada do que queremos.

Que queremos? Paz? Assim dizem as músicas, os murais, as fotos e o argumento de alguém em algum lugar rosado onde o amor muda tudo e muda nosso ódiotedio contra todos. Eles buscam paz, sim, paz, paz, pacificamente pacificante, mentirosos, mentem que buscam paz, vocês buscam paz e amam a guerra, todos querem brigar e brigar. Eles falam em amor, porém é amor para eles mesmos.

Por isto mesmo que esta máscara é genial, pois é um exercício de sacrifício e autoextinção do Eu, é o respirar num ar rarefeito, em certo sentido é a máxima expressão do Eu como centro do universo, pois é um Eu despedaçado, sem ar, sem vontade de continuar ante um mundo homogêneo de outros mascarados, porém é só você com você mesmo, na tua solidão eterna de trombar com outros solitários.

Realmente podemos ver o que é real por meio da máscara, pois a verdade é que somos nós olhando para nós mesmos e isto não tem erro. Ora bolas, pois não buscamos a verdade em nós mesmos? O espelho não diz a verdade sobre nossa beleza. A máscara é isto tudo, assim ela mostra nossa tortura cotidiana, nossa autossuficiência em sermos covardes e esquecer-se de tudo, desonestidade por preguiça, tortura por vontade própria, medo por vontade dos nossos deuses cotidianos.

Sim, somos um prato perfeito para os vermes da solidão e do desespero, grandes vermes do inferno do corpo enterrado a sete palmos de uma esperança que morreu há milênios, somos parte destes vermes e podres podremente viveremos a eternidade de desilusões. Mas voltamos a Máscara! Ela é… Não, não, cachorro e mulher e vagabundo e folhas podres. Não, não, maldita tortura circular. A Máscara, máscara, máscara. Más-ca-ra. Mascaaraaaaaaaaaa… Voltamos para ela então…

Conto que integra o livro Quando a Chuva Chega, parte 4, urbe feita pedaços. 

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