Lição das Ruas (II)

por Venâncio Guerrero 

Olha lá gente que bonito, as coisas cresceram, de dez mil para cem mil, depois um milhão, e foi crescendo até seis milhões! Dos grandes aos pequeninos, a energia social explodiu com a convocação dos meninos e meninas que antes gritavam, mas ninguém chegava, e agora chegaram para trazer boas novas. Sim. Sim. dez anos de movimentos do passe livre e só agora vieram e trouxeram novas gerações de lutadores, e oxigenando às velhas!

Ah, eu falo e afirmo ainda que a PM reduza, eu falo e afirmo e olho pelos amigos que estão lá e estão também aqui e em todos os mundos gritando pelo Brasil, de brasileiros brigando nas ruas por um novo Brasil, que é muita gente, e nem tudo pode ser classe média, conceitinho mais vagabundo, serve mais desqualificar que explicar qualquer coisa.

E muitos estão em seus trabalhos ou em afazeres impossíveis de deixar para outro dia, apoiando e apoiando… Já li por aí que tem 70% de apoio, até o jornalista vulgar e chato teve de admitir que “o povo já não aguenta mais” ser manipulado por ti, pelas tuas grosserias, por tuas afirmações ignorantes, ainda que você saiba muito, vais dizer a ignorância geral para alimentar e alimentar o ódio e a intolerância.

Mas o povo também trouxe um pouco de seus preconceitos, deste preconceito feito regra pelo jornalista grosseiro. Eles trouxeram a educação na ditadura militar, educação na escravidão, educação na ignorância e na brutalidade de um sistema violento que educa no cassetete. Enfim ele vem com seu jeito taxativo de considerar as pessoas, o mundo e as relações sociais, pois ele é bombardeado todos os dias com esta forma de ver as coisas, é a fofoca do jornal, é a fofoca da novela, é a forma descontextualizada de olhar um fato, é discutir a política pela pessoa, é olhar para si e não para outro, é quando ele não deixa o lugar no ônibus para senhorazinha e fecha os olhos, é quando prefere achar que o aborto da sua prima é perdoável enquanto o dos outros é pecado, é na hora que ele olha para o menino negro e sente medo, que é medo dele mesmo reconhecer-se como igual, é quando o negro não quer saber-se negro, e se diz moreno, pois os outros criaram uma ideia equivocada desta cor e desta gente tão bonita.

Você não os queria? Não queria a massa ali com você? Ora eles chegaram com suas loucuras, com seus fantasmas da rede globo, dos filmes, da ditadura, da violência que sofreram em casa quando crianças, dos seus pais que também sofreram com seus outros avós, bisavós, da colônia, da violência da polícia.  E, agora? Se eles vieram assim, não há como mudar? Pois se eles são maioria da população, eles são os trabalhadores, o povo, e então? Logo a cultura popular é ruim por natureza? Logo a natureza humana é imutável? Logo todos nós estamos condenados a ter uma opinião preconceituosa e dar um tiro no pé para sempre? Que fazer? Gritam alguns: Conscientização! Pergunto: quem educa os educadores?

Ora, amigos e amigas, nós também temos preconceitos. Ora, vamos dar sermão e repetir a catequese que foi escola nesta América Latina? Metê-los todos em escolinhas de políticas e fazer com que sentem no milho até que recitem a teoria do valor de cor e salteado? Fazê-los santos para que entrem nas portas do socialismo? Nós? E Quem nos ira educar para que sejamos homens e mulheres novas, para que não pecamos e dividamos nosso computador com o amigo próximo? Para que não falamos mal do companheiro, para que não tenhamos ira, inveja, gula, para que não nos metamos com o amor do próximo! Quem nos impedirá de fazermos coisas impuras que nos impedem de ir à santa reunião de domingo!? Ora bolas camaradas! Atire a primeira pedra quem nunca pecou! Um dia disse um velho careca barbudo e revolucionário de um tempo de heróis: “Quero a revolução com os homens de hoje!”, eu diria: “com as mulheres também!”

A nossa escola é as ruas, nossa escola é dizer o que pensamos, é criar contextos de leituras históricas, econômicas, onde podamos socializar nossos aprendizados em espaço amplos. Pois, agora existe uma energia social liberada para que possamos opinar e mudar e olhar para nós mesmos, e nos mudarmos, e as outras pessoas também podem mudar e escutar-nos. Luta e organização e luta e trincheiras cavadas e agora é nosso momento de popularizar os livros, de escrever, de falar, de educar e ser educado. Ora o educador muda o educando, e o educando muda o educador que muda o mundo.

O povo vem com seus preconceitos e vem com suas histórias de luta e agora pode transformar em conhecimento sistematizado, pode criar nova cultura e nós podemos estudar juntos e criar mais coisas. Mas a trincheira é a rua! Depois dali podemos chamá-los para debates. A democracia se aprende no fazer de cada dia das ruas, dos debates públicos, das reuniões que discutem, escutam, “vamos lá 2 minutos”, “não fique enrolado, direto ao ponto”, “tempo, tempo, tempo”, “agora é outra companheira”. “Não. Não, assim com desqualificação não se consegue nada”. “Direto ao ponto, camarada”. “Nossa, eu não sabia isto que o companheiro está dizendo, vou ler para poder entender”.

  Ir lá de casa em casa e dizer vamos para a rua! Conquistar o mundo dos nossos sonhos, o mundo da igualdade entre produtores de vida, para isto conquistar os meios que produzem esta vida! Não será fácil e nunca foi! Porém é deste povo que virá nossa redenção e a nova sociedade que será construído no hoje, para livrar nossas correntes no amanhã!

texto anterior: https://antesdatempestade.wordpress.com/2013/07/06/licoes-das-ruas-i/

Anúncios