lendo a crise cambial

Por Venancio Guerrero.

Esta crise cambial me faz recordar de algo que aprendi com o professor Paul Singer, nem foi tanto presencialmente, pois nunca o conheci, e sim, nas minhas leituras rebeldes da faculdade, pois enquanto todos eram obrigados a ler os livros textos ortodoxos e excomungar os heterodoxos e marxistas ao campo do místico da economia, eu me rebelava e os lia. Ora, agora parece que estes também caminharam para certa ortodoxia, não tanto o Paul Singer, que deixou o marxismo para entrar na economia solidária e fechar os olhos à ortodoxia dos altos comandos.

Enfim, vamos deixar de lado o presente ingrato para pensar às glórias do passado, lendo um livrinho do Paul Singer[1], ele explica de forma mui didática, menos como uma ideia inovadora, e sim como exposição sintética de uma metodologia marxiana sobre a especulação da taxa de câmbio.

Naquele momento o inimigo era o Fernando Henrique Cardoso e o texto se focava na crise de câmbio de 1998[2]. Paul Singer explicava a natureza da crise cambial e foi onde entendi –, anos mais tarde – uma face da natureza financeirizada do capital[3].

 Nos anos 1990, as expectativas geradas modelo de FHC[4] traziam dinheiro internacional para nossa economia e valorizava nossa moeda, porém em 1998 a crise veio, o real desvalorizou e nossa economia ficou abalada. Para entender esta crise, quero usar algumas imagens de autoria própria para expor o que li neste livro.   

Supomos um alemão, executivo da Bayer, que ganhou com a zona do Euro e com a abertura comercial brasileira, conseguiu vender remédios para a Grécia e Agrotóxicos para o Brasil, logo sua empresa teve alta lucratividade, e ele ganhou bônus em demasia como bom “CEO”, como fez escola de administração em Havard, sabe que tem de investir este dinheiro, logo liga para seu operador em Wall Street e ele diz: “o Brasil é um país emergente, sua economia está sólida e não tem inflação, a taxa de câmbio está valorizando, portanto você compra real barato e depois vende caro”.

Ninguém aceita o marco alemão no Brasil, ele compra dólares e logo, reais. Imaginamos uma taxa de câmbio de R$ 1,80/U$1,00 e que o executivo alemão tenha um total de U$ 100.000,00 dólares em capital disponibilizado para especulação, portanto ele compra R$ 180.000,00 reais e com este dinheiro compra ações da Vale do Rio Doce – recém-privatizada a preço de banana.

Como ele ofertou U$ 100.000,00 dólares às casas de cambio, então entra dólar na economia. Logo os operadores de Wall Street aconselharam os demais investidores no mesmo sentido, e dessa forma chegam mais dólares à economia.  Neste sentido, se há muita oferta de algo, esta coisa aparece em excesso e cai seu preço. Por outro lado, como todos estão procurando nossa moeda, e, portanto, há um aumento de seu preço.

Lembram-se que o FHC, no primeiro dia de mandato, contratou uma dívida externa com o FMI, ora, mais dólares na economia e assim o real fica mais caro, ou seja, valoriza e o dólar fica barato e desvaloriza. Digamos que o real passa de R$ 1,80/U$ 1,00 a R$ 1,40/U$ 1,00, isto significa que com menos reais consigo comprar mais dólares.

Logo os cenários mudam: explode uma crise na Rússia, o capitalismo não salvou os ex-socialistas do leste europeu, portanto o rublo vai caindo pelas tabelas; a economia brasileira não é tão sólida como pensavam, pois há recessão, denúncia de corrupção nas privatizações, etc.

Ainda para piorar o cenário, o executivo da Bayer, seguindo os conselhos de seu ex-colega da faculdade, o operador de Wall Street, também tinha dinheiro na Rússia, pois diversifica seus investimentos.

Desta forma, ele se desespera e liga para seu colega, também desesperado, “que fazemos?” “Tira dinheiro do Brasil e assim você recupera suas perdas, pois se a tempestade está na Rússia, vai chegar ao Brasil, faça rápido, pois todos farão isto”.

 O executivo da Bayer vende ações da vale, sendo que valorizaram 11%, portanto, ele consegue um capital de R$ 200.000,00 reais e como ele foi rápido, consegue uma taxa de cambio ainda de R$ 1,40/U$ 1,00. Ele compra quantos dólares?

Como em torno de U$ 143 mil dólares! Lembram que seu capital era de U$ 100.000,00 dólares? Então, ele consegue um lucro de U$ 43.000,00 dólares com a valorização do real e das ações da vale. Uma taxa de lucro de 43%! Sem ao menos se mover de casa, somente em ligações e transferências bancárias, Dinheiro fez Dinheiro (D – D’), U$ 100 mil dólares produziram U$ 143 mil dólares, sem passar pelas etapas da acumulação. Mas este dinheiro não deve vir de algum lugar?

Sim, mas vamos por partes. Primeiro pensamos as consequências deste movimento: a taxa de cambio desvaloriza e o governo aumenta a taxa de juros para evitar a fuga, além de tomar empréstimos com o FMI para frear a desvalorização do real.

Ora, a desvalorização encarece as importações e aumenta as exportações, se o governo não tem capacidade de planificação e aumentar a oferta interna, vai ter pressão inflacionária, pois imagina comigo, para produzir um kg de feijão, usamos agrotóxico importado da Bayer, logo o feijão fica caro, pois os custos da importação ficaram mais caros[5]. E, por outro lado, a soja fica barata para os estrangeiros, logo os fazendeiros tiram de seus planos à produção de feijão e ocupam terras para produzir soja. Os juros altos e a dívida pressionam a saída de capital, pois este dinheiro volta para seu país de origem, pressionando ainda mais demanda por dólares. Ora, esta foi à síntese do governo FHC: desemprego em massa, inflação aumentando em 2002, quebras e juros estratosféricos. Para concluir a tragédia do neoliberalismo brasileiro, voltamos a pergunta: qual a origem do lucro do nosso executivo da Bayer? É mágica?

O dólar que o Banco Central e os bancos têm, é originário do dinheiro de exportação, dos empréstimos internacionais e de outros especuladores. Logo, a exportação é resultado de um trabalho, a soja representa trabalho dos operários agrícolas, as máquinas representam um trabalho passado de pessoas que as construíram. Os empréstimos proveem de um trabalho passado feito por estrangeiros, os juros são pagos por meio da arrecadação de impostos, e estes são pagos pelo trabalho do brasileiro.

Por fim, há especuladores de classe média, que perdem neste jogo, pois são os que ficam para trás, então eles repassam o dinheiro ao especulador, como em um jogo de roleta, mas este dinheiro representou um trabalho, logo se o executivo da Bayer perdeu, ele perdeu o bônus que ganhou com o trabalho dos alemães e dos seus trabalhadores no mundo todo.

Esta é a síntese: a especulação pode arrasar nossa produção, criar inflação, bem como seu lucro é produzido por uma espoliação sobre o trabalho nacional.

Aí, vocês afirmam: o governo Lula não teve juros altos como o FHC, pagou a dívida externa, geramos emprego, tivemos balança comercial superavitária, ora superamos o neoliberalismo[6], não? Ora, no que tange a especulação com a taxa de câmbio, o movimento se manteve, porém a crise demorou em explodir, pois o governo conseguiu ser mais habilidoso em produzir valor, aumentando a lucratividade do nosso executivo da Bayer, sem quebrar o país até o momento onde a bolha também explodiu.

Em síntese e, grosso modo, Lula conseguiu convencer aos investidores internacionais que o Brasil era um importante lugar de negócio, que ele conseguiria estabilizar a economia mais que FHC. Habilidoso operário, mais que um intelectual pouco perspicaz.

Neste sentido a especulação continuou, ainda que tenha um sustento mais real que a do FHC, qual seja, uma política externa agressiva, e uma boa parceria com os negócios da China, alguns elementos de políticas internas de consumo, a copa do mundo, olimpíadas, dentre outros, valorizaram o real em plena crise. Em agosto de 2009, o ano em que o Brasil teria uma pequena recessão e o mundo um recessão forte, o dólar valorizou e saiu da casa dos R$  2,20 para chegar à de R$ 1,70.

Enfim, a bolha está explodindo, e as imagens mais acabadas semana são: Eike caindo pelas tabelas, corte de impostos baixam ações da Petrobrás, contexto de diminuição do crescimento do PIB, e de protestos nacionais.

Para finalizar, imaginemos um investidor da China, executivo da Sony, que comprou reais com uma taxa de R$ 1,80, logo ele retira seus investimentos das empresas fictícias de Eike, da Vale e da Petrobrás, desvalorizam estas ações, criando um desespero dos investidores aqui, que também retiram e vão embora do país, desvalorizando o real. Enfim, o resultado é igual que a do FHC, o período de tempo para acontecer é maior, porém o estrago também, dado uma dependência das políticas públicas em relação aos impostos e reservas gerados pela economia real, logo sua queda esfumaça o dinheiro público dos programas sociais. Assim, voltamos ao status de desempregados, pobres e subdesenvolvidos, tudo não tinha passado de uma ilusão. Parece que esta suposição não está longe de acontecer.

 


[1] SINGER, P. O Brasil na crise, perigos e oportunidades. São Paulo: Editora Contexto, 1999

[2] Minha leitura foi em 2003, quando o câmbio estava estável e o mundo iria viver uma euforia de crescimento até 2008.

[3] A fórmula D-D’ de Marx, que expressa o movimento do dinheiro que faz dinheiro sem passar pela acumulação de capital, porém demando-a, ora não há dinheiro sem equivalente real, e o equivalente é o trabalho contido em uma mercadoria.

[4] Para quem não se lembra até antes de desta época, nós já éramos emergentes e o Plano Real parecia resolver todos nossos problemas, jogando para escanteio o PT e a esquerda.

[5]  Suponhamos uma taxa de R$ 2,00/ U$ 1,00 e um litro de agrotóxico custando como U$ 100,00 dólares, antes, valia em reais, R$ 140 e passa com a nova taxa de cambio para R$ 200,00!

[6] Já disse aqui outra vez, que para mim este governo não é o mesmo do FHC, pois isto usei a ideia de neodesenvolvimentismo, porém há uma base comum entre dois modelos, qual seja, a financeirização da economia. Mas como a esquerda se encantou com o neoliberalismo como representação do mal, e o desenvolvimentismo como representação do bem, existe resistência com este nome.  Enfim, não importa, pois é um debate que não pode cair no nominalismo, talvez haja mais convergência no conteúdo da caracterização, porém eu acho que é mais correto diferenciar a política, do contexto desta política. O primeiro representa a estratégia, discurso, correlação específica entre diversas classes, e o segundo a forma predominante do capital reproduzir-se. Aqui não podemos cair no conto de que há oposição essencial entre capital industrial e o capital portador de juros. Tanto a política do lulismo como a do neoliberalismo puro são pró-capitalismo e hegemonizados pelo padrão financeiro de acumulação mundial, porém a fazem de forma distintas, no primeiro há de fato avanços sociais (menores do que a socialdemocracia), porém atreladas ao modelo e como o capital se expressa em diversas contradições, o crescimento gera o decrescimento, ora se o modelo cai, cai os avanços sociais. Sobre a relação entre capital portador de juros e capital industrial, Harvey comenta: “A circulação do capital portador de juros não produz valor diretamente, porém ajuda a coordenar a produção de mais-valia”, (p. 334, in: Limites do Capital, Fondo de Cultura Econômica, Ciudad de México, 1984 – tradução própria)

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