Vida de Ocupante- Mauro Trapezista

por Vinicius de Oliveira

Mauro era uma cara alto, magro,sempre com boné aba reta e aquela fala malandra agilizada. Nasceu na Terra Dura, quando ainda tinha uma pontezinha que ligava o bairro ao resto da cidade, nem luz de celular tinha naquela época, a luz que iluminava era a da cabeça.

Mauro trapezista ganhou seu apelido em uma pelada, fez um gol e se pendurou na trave, subiu em cima do travessão e começou a caminhar. Coisa de criança, metida a besta por derrotar todo mundo sem pedir próxima. Como bom trapezista oscilou entre a infãncia e a grana. entregava uns pacotinhos que os meninos mais velho da rua pedia pra uns conhecido de outra parte da cidade. Tirava uma grana e vacilava entre o dinheiro do pão da casa, o leite dos irmãos e a camisa de jogador de Basket ou aquele tênis de marca.

Mauro ficou na corda bamba quando conheceu a polícia militar, tava andando de skate, indo pro baba. Era suspeito, foi revistado 3 vezes, xingado 15 vezes, e teve sua mãe insultado dezenas de vezes. A polícia não achou bagulho algum, mas encontrou uma diversão. Mauro ia passar na pontezinha correndo com as pernas amarradas enquanto os policias atiravam na direção da perna dele. Não tinha trapezista que escapasse. Mauro caiu no córrego, entre as pedras, lascou a cabeça, quebrou a perna e jorrou muito, mas muito ódio. 

Atendido horas depois, o ódio tinha estancado, talvez isso manteve ele vivo, enquanto esperou 12 horas pra ser atendido na emergência do hospital público. Os brothers na volta do baba que levaram ele de bike até o hospital do outro lado da cidade. Ambulancia não passava lá. Mauro criou medo de altura depois do ocorrido.

Mauro Trapezista entendeu o recado, tinha que escolher um lado. Já era condenado por nascença, pela cor, pela palavra, pelo jingado e pelo estilo. Escolheu o crime! Virou narco-comerciante. E com dinheiro no bolso e mandinga na língua, não foi mais incomodado pela polícia. Ganhou o respeito dos irmãos.

Mauro perdeu o equilibrio de novo. Na mesma ponte da sua infância conheceu o amor. Rafaela, morena esperta e distante. Novinha, com uma bunda de perder o folego. Mauro queria sentir aquele trapézio das pernas. Mandou a fita de malastroso e a novinha dispensou.Dispensou, dispensou, até que num daquele shows, com a cerva na cabeça, os dois se atracou.

Mauro perdeu a linha, “tava vacilando” dizia os brothers. Atrasou a distribuição do bagulho aos outros brothers, resultado, vacilão na perifa não perde só a vez, as vezes perde a vida. Os inimigos descobriram e foram pra cima de Mauro. Pá, pou, pá, pou,pá,pou,pá… Resultado: 5 tiros. Por sorte nenhuma na cabeça! Por mais sorte ainda, Mauro foi de novo internado. Como num trapézio de uma montanha gelada e com muito vento, Mauro tava pendendo pra morte.

A morte também vacila, as vezes se adianta, as vezes se arrebita, e numa dessa esqueceu Mauro. Passou 7 meses em coma. O médico, que era de outra cidade já deixava o óbito pronto no final de semana, pra não precisar voltar pra assinar, só era preencher a data! Essa data ainda não ia ser preenchida nesse hospital.

Rafaela que não era vacilante, segurou a onda de Mauro, teve altas fights pros médicos não desligar as máquinas, pro hospital tava custando e não valia a pena. Eles argumentavam uma vida de um vagabundo pela de mães de família que passavam.

Disseram que ele não acordaria e Mauro se levantou. Diagnosticaram que ele não ia mais andar, e Mauro saiu correndo do hospital. Mas a fala dele nunca seria a mesma, alertou a medicina pública moderna, Mauro saiu cantando Brasil com P! Ao lado, Rafaela e a mãe com os irmãos.

Mauro decidiu pendurar-se no trapézio da vida ordinária. do Trabalhador honesto, tá certo, Rafaela e Edi Brown ajudaram um pouco na decisão.Edy Brown, seu muleque que tava chegando. Ficha limpa, não seria dificil. Arrumou oficio de pedreiro, e subiu logo na vida.

Anos passaram, Mauro trapezista conseguiu um trampo extra, na construção de um prédio, no solo claro. Mas no dia 4 de Julho de 2012, Mauro teve que subir por um colega,  lá no 18 andar, senão iam dar falta dele. Resultado: Mauro foi atravessa uma daqueles estruturas sem segurança que as construtoras colocam, e o barulho dos tiros e das risadas ecoou na cabeça. Mauro deslizou, ainda segurou num estrutra que parecia um trapézio, os amigos correram, mas não à tempo. A morte veio cobrar sua amnésia de anos passados.

Hoje, Rafaela equibra-se num trapézio da vida, morando em barraco luta pela sua casinha numa Ocupação por Terra e vida livre. A prefeitura pende,o sistema pende, a polícia pende, o governo prende, mas a solidariedade e coletividade faz ela se segurar. Por quanto tempo, ela ainda não sabe, mas como MAuro aprendeu que mesmo quando ainda tudo parece perdido, vale a pena se segurar.

 

*Sem correção ortográfica, nem emocional

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