Qual gigante acordou?

por Lucas Ferreira Cabreira

Após a onda de protestos que tem se seguido há aproximadamente duas semanas, é possível observar diversas peculiaridades. Dentre elas, interessante se notar como a reivindicação inicial, a causa em si, parece não ter sido a principal “detonadora” do descontentamento que tirou muitas pessoas de casa. Embora as redes sociais tenham tido um papel também relevante neste processo, percebe-se que o momento em que grandes canais midiáticos saíram do discurso genérico da repressão policial à “baderna”, passando a focar no exagero da repressão policial, foi crucial para que o movimento saltasse à proporções muito maiores do que ele mesmo houvesse previsto. Genuinamente, o Movimento Passe Livre se posicionou firmemente, desde o inicio, em sua tática de lutar pela redução da tarifa por ora. Entretanto, fruto de um florescimento espontâneo, externo ao próprio movimento, viu-se crescer exponencialmente o número de pessoas nas ruas de todo o Brasil e uma banalização da causa (que se tornou ao mesmo tempo muitas, e paradoxalmente, nenhuma). O “apartidarismo” conservador e raso, as expressões violentas de fascismo e as reiteradas expressões de violência “gratuita” à prédios públicos, agencias bancárias, lojas, etc. também deram uma tonalidade específica destes movimentos.

  Apesar de todas as especificidades, uma coisa ficou muito patente nas manifestações, de modo geral, apesar de absurdos como os cartazes pelo fim da exploração da classe média: denotou-se um profundo descontentamento na sociedade civil que me causou certo espanto.

  Aparentemente, o Brasil tem passado por um momento de expansão econômica. Isto se reflete, sobretudo, num programa governamental voltado a estimular o consumo, seja às classes médias, seja em relação aos “de baixo”. A melhoria nas condições de vida, sobretudo, pelo aumento do consumo possibilitado pelo crescimento da oferta de crédito tem servido como transformação ideológica das classes baixas em genérica “pobreza”, se operacionalizando inclusão social por meio do consumo. O prof. Marcelo Ridenti, em entrevista à Chico de Oliveira, simplificou a ideia: “Se você olha da perspectiva dos de baixo, da empregada doméstica, por exemplo, ela tem celular hoje, compra televisão de plasma à prestação. Para alguns, tem a luz elétrica que não chegava. Ou seja, conversando como você conversava com as empregadas domésticas há 40 ou 50 anos atrás, as de hoje também gostam do Lula”.

   Todavia, o aumento do poder de consumo tem seus poréns. Simplesmente porque se pensar em inclusão social pelo mero viés do consumo não garante nada mais do que um pouco mais de… consumo. Embora pareça uma tautologia ingênua, traz como consequências uma ascensão social aparente, por meio do endividamento em creditos baratos, ao passo que as desigualdades sociais se mantém. Inclusões a curto prazo. Depois vem a dívida, e realidade de não poder consumir mais.

  Aliás, Marcio Pochmann demonstrou que a classe média, de fato, não aumentou na última década no Brasil, e sim, a base. Promoveu-se ao longo da década de 2000, uma série de mudanças políticas e econômicas que resultou em uma expansão de empregos de baixa renda que absorveu boa parte dos desempregados gerados pelo momento neoliberal anterior. No primeiro decênio do século XXI, se observou um crescimento dos postos de trabalho 22% maior que a década de 1970, e 44% ao que se verificou nas décadas de 1980 e 1990. Destes postos de trabalho criados recentemente, 95% deles correspondem à faixa de até 1,5 salário mínimo, numa média de 2 milhões de vagas abertas ao ano para o segmento de trabalhadores de base. Ao mesmo tempo, os segmentos ocupados por trabalhadores com remuneração acima de 3 salários mínimos caiu em uma média de quase 400 mil vagas a menos por ano ao longo do decênio passado[1].

  Somos a sétima economia do mundo, com o homem que já foi o sétimo mais rico do mundo, ao passo que 47% dos assalariados brasileiros no ano de 2009 ganhavam até 1,5 salário mínimo, e 24,9% de 1,5 à 3 salários mínimos[2]. São fortes indícios de que não estamos diante de um crescimento econômico acompanhado de um desenvolvimento social. Ao revés, demonstra-se que boa parte da população tem melhores condições de vida atualmente, em geral, mas muito pouco perto do aumento de concentração de renda entre estes e os que estão no topo deste período.

  Estamos vivendo um momento paradoxal (pelo menos aparentemente): uma ascendência econômica no plano mundial, e, perante isso, demonstrações de profundo dissenso na sociedade civil, o que nos dá um sinal de que existe algo de podre no meio deste desenvolvimento brasileiro. Se está verdadeiramente ocorrendo; se, para citar o exemplo dado por Ridenti, a classe baixa está conseguindo comprar Tv de plasma à prestação (coisa que não conseguiria em tempos passados), de onde vem tanto descontentamento?

  Embora não pense que tenha sido este o motivo central que gerou o rápido e imenso crescimento das manifestações, penso que os primeiros efeitos colaterais deste modelo de desenvolvimento que o Brasil tem adotado se fizeram presentes. Assim penso, sobretudo, pela crescente onde de violência que se seguiram às manifestações quando adentraram em sua fase de espontaneidade. Um descontentamento muito semelhante ao que Zygmunt Bauman observou na Inglaterra: o motim dos “excluídos do consumo”. Segundo observou o sociólogo polonês, “Qualquer que seja a explicação dada por esses meninos e meninas para a mídia, o fato é que queimar e saquear lojas não é uma tentativa de mudar a realidade social. Eles não se rebelaram contra o consumismo, e sim fizeram uma tentativa atabalhoada de se juntar ao processo. Esses distúrbios não foram planejados ou integrados, como se especulou no início. Tratou-se de uma explosão de frustração acumulada. Muito mais um porquê que um para quê.

  Talvez devêssemos observar essas manifestações espontâneas que cresceram a partir do movimento pela redução da tarifa da passagem de ônibus como as possíveis consequencias de uma opção pelo crescimento econômico desprovida de compromissos com evolução social. A ilusão consumerista se esvai com o tempo, as contradições novamente se desnudam e se percebe, por exemplo, que a situação de comprar TV de plasma não muda a realidade do transporte público. Talvez tenham razão, sim, os que levantaram o cartaz “não é apenas os 20 centavos”.

  Como os próprios representantes do Passe Livre disseram no programa Roda Viva, o movimento tem consciência que o fim de toda essa organização não é apenas pela volta aos 3 reais. Eles tem a acertada percepção de que esse aumento não senão a ponta precária da cadeia, que reflete uma sociedade profundamente baseada na contração de renda, que polariza ainda mais os estratos sociais de base e topo. O passe livre só é possível numa agenda de transformação social. “(…) dentro do movimento tem pessoas que se identificam com diversas ideologias, tem pessoas que não assumem nenhum tipo de ideologia, mas é um movimento que busca uma transformação radical da sociedade”.

  Portanto, penso que não esses movimentos em si, mas sim, o descontentamento que se evidenciou, a profunda insatisfação – inclusive da própria classe média, que visivelmente compôs a maioria do movimento – que se demonstrou existir entre os brasileiros dão conta de que todo esse crescimento que vem se construindo nos últimos anos não tem sido suficiente. Talvez seja um alerta para essa sociedade que tem visto no aumento do consumo um “desenvolvimento” verdadeiro, sem perceber sua virtualidade, a consequente polarização das classes sociais e a concentração de renda. Quiçá, um alerta para os movimentos sociais, para se atentem às contradições que tem crescido na sociedade, cujo potencial emancipatório prescinde de novas formas de articulação, para que não se tenha um crescimento de marchas meramente espontaneas (evitando-se fascismoss oportunistas e banalização de reivindicações) nem um processo de anulação ou influencia, no movimento, pela conservadora mídia hegemônica. Aparentemente, quem começou a “acordar” são os gigantes abismos sociais que ainda persistem nesta ex-sexta economia mundial.

Fonte: http://lucaspepito.blogspot.com.br/2013/06/qual-gigante-acordou.html

 


[1] POCHMANN, Marcio. Nova Classe Média? O trabalho na base da pirâmide social brasileira. São Paulo: Boitempo, 2012, p. 19, Figura 1.6.

[2] Id., p. 28, Figura 2.2.

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