Brasil: as leituras do lado de lá e de cá

Temos tempo de plantação, de organização, para depois, pensarmos como organizar, após a colheita, a distribuição das demandas do povo rumo ao projeto popular para o Brasil

24/06/2013

Roberta Traspadini,

 

É interessante analisarmos, a partir do que se transmite nos canais de TV e nos jornais internacionais, a visão das nossas manifestações. Dos EUA, passando pela América Latina, a percepção do senso comum hegemônico é superior ao sentido crítico social.

1. A mídia de lá

A projeção das imagens das manifestações pelos detentores estadunidenses dos satélites que transmitem as cenas através da intencionalidade de suas antenas foi a de um País levantado, como resultado da desigualdade social presente.

Esquecem de dizer que a desigualdade não é o resultado do modelo de desenvolvimento brasileiro por si só. O acirramento dos conflitos sociais é inerente ao modelo de sociedade fundado e organizado historicamente pelo capital, cuja liderança continua sendo das empresas e do Estado militar estadunidense.

Esquecem de dizer que o capital estadunidense atuante em território brasileiro é protagonista do modelo de desenvolvimento desigual e, quanto mais ele cresce expropriando terras, espoliando pessoas e especulando com os territórios, mais acentuadas ficam as históricas mazelas sociais do País.

Esquecem de dizer que o desenvolvimento das redes sociais, mediado pelos grandes lucros que o capital estadunidense organiza, além de espiar todos os conteúdos socializados, utiliza dita informação para dar continuidade ao seu jogo de manipulação orquestrada desde cima.

Mas dizem muitas coisas, constroem imagens, distorcem fatos, reforçam atos. O poder midiático estadunidense centra fogo nas ideias de criminalização das lutas, despolitização partidária da juventude e da tendência criminosa da participação dos sujeitos estereotipados por ela como vândalos-arruaceiros-baderneiros.

A mídia do lado de lá, ao norte, não só denuncia desde suas perspectivas de poder o que está ocorrendo do lado de cá, quanto anuncia sua forma e seu conteúdo de manipulação a ser reproduzido pela mídia subordinada, dependente e fotocopiadora original, do lado de cá. Com a escusa dos jogos, reproduz sua onipotente leitura hegemônica de mundo.

2. Mais ao sul:

No panorama midiático latino-americano progressista, como Cuba, Venezuela, Bolívia e Equador, a leitura é de expectativa sobre o que poderá vir a ser. Mais do que o significado imediato do fato, estes Estados e suas mídias alternativas, estão relatando se é possível, ou não, a partir destas manifestações, o Governo brasileiro optar por um projeto de sociedade com um perfil diferenciado do até então realizado. Sabem eles que as tensões tanto de fora, quanto de dentro, são para as mudanças que liberem o acesso do capital transnacional sobre o trabalho nacional. Mas aguardam ansiosos que nasça algo novo dos conflitos entre Estado e sociedade, quiçá não no Estado atual, mas sim no porvir político institucional.

Os olhos da mídia latina, esperançosos e ansiosos, tentam à luz dos acontecimentos atuais, ler nas entrelinhas das manifestações massivas e populares, se outro projeto nacional é possível, o que conduziria a uma diferenciada relação política do Brasil com os processos de integração latino-americanos. Mais ALBA, menos MERCOSUL, zero ALCA.

Os jornais latinos veem os jovens como um dos mais afetados no curto, médio e longo prazo e associam dita condição à lógica geral e particular de reprodução do poder do capital (inter)nacional sobre o trabalho, os territórios, as vidas no âmbito continental.

Há nestes países uma torcida para que os levantes abram alas para novos projetos de poder, com acento para o popular.

3. A mídia de cá

Vergonhosamente a poderosa mídia de cá, reforça seu ódio de classe e expõe sua leitura de típica porta-voz da burguesia nacional. Além de reproduz os fatos como mensageira da mídia de lá, reitera que o processo atual da juventude questiona a identidade, a classe, os partidos. Também demarca o estereotipado do criminoso jovem brasileiro: arruaceiro-baderneiro-vândalo. Palavras ostensivamente repetidas ao longo dos noticiários com recordes de bilheterias. Os levantes foram transformados no grande tema da copa das confederações. O futebol e as ruas se misturaram numa combinação simplista entre os fatos e os mitos do levante popular da juventude, rumo a outro Brasil necessário e possível. A opção deste grupo, é pela continuidade da desordem, com crescimento da retomada do poder pela direita.

4. O que temos?

Temos uma diversidade em movimento. Uma escola fundamental de múltiplas e imediatas aprendizagens. Temos gente na rua, jovens na luta, povos aos gritos, manifestando que ainda há esperança. Temos a possibilidade de ler as bandeiras, das mais específicas às mais amplas, de colocar em movimento a unidade popular e de traçarmos, para frente, pautas unificadas que reivindiquem mudanças e revolucionem as estruturas atuais. Temos tempo de plantação, de organização, para depois, pensarmos como organizar, após a colheita, a distribuição das demandas do povo rumo ao projeto popular para o Brasil.

Roberta Traspadini é professora da UFVJM e da ENFF.

Fonte do artigo: http://www.brasildefato.com.br/node/13335#.Uci47ciZhpk.facebook

Anúncios