O levante popular: crônica de uma crise anunciada

revo futb

Por Venâncio Guerrero

Quando o Poder está em dúvida, é porque está com medo, ora, quem eles são: “Baderneiros ou paladinos da democracia?”, são Punks ou Playboys? Eles se indignam com o 90% de apoio ao vivo, ora quem sabe faz ao vivo, e o movimento também o faz. Há muitas contradições neste movimento, pois é isto que representa o povo na rua, porém, quero discutir neste artigo que representa um ponto de inflexão importante na conjuntura brasileira e reflete os fatores que antecedem a crise econômica.

Este artigo reflete percepções minhas e por isto vou usar a primeira pessoa, não é uma posição prepotente, do “olha, eu já falei”, nem querer dar linha no movimento. Como o que está acontecendo reflete estudos (individuais e coletivos) anteriores e uma militância e me sinto partícipe, por isto tenho capacidade de opinar. Este artigo reflete um pouco a necessidade de responsabilizar-me pelas colocações, evitando o fetiche da terceira pessoa, que não resolve nenhum problema acadêmico, apenas esconde posições diante de uma pretensa cientificidade. O texto buscou ser mais direto e para isto joguei às reflexões teóricas para às referências.

Olhar estreito

Não passaram nem um mês e a história do levante demonstrou uma incrível incoerência do discurso oficial. Aqui falo do poder estabelecido entre PT e PSDB e a mídia como expressão mais acabada deste poder.

A mídia e o PSDB-DEM foram das acusações aos elogios, tentativa de atribuir um representante ao movimento, Punks e PSOL. Logo isolar a participação de partidos, quando elogiavam o movimento.  No começo apareciam manchetes como: “Estudantes vândalos agridem policiais”, agora podemos ler, “O Gigante acordou”. Arnaldo Jabor teve de pedir desculpas e Datena achou que havia perguntando errado, mas no final teve de reconhecer, “a voz do povo é a voz de Deus”. Ora a televisão deve temer que uma hora, nós os matamos ao desligar nossos aparatos.

Pela parte do PT – no poder e nas redes sociais – saiu acusando o movimento de vândalo, bradando contra o absurdo por quebrar as coisas, os chamou de irrealistas, pois “é natural que a passagem esteja cara em todo o Brasil”. Logo veio o medo do golpe, tentando mascarar problemas de seu governo, evidenciado somente os casos isolados de presença da direita no movimento. Agora Lula afirma que o movimento deve levar o governo à esquerda, os mais experientes tentam acalmar a histeria da base, evitando o derretimento da referência popular do petismo, por fim, Dilma reage ante o clamor das ruas. 

Uma hipótese para o movimento: Crise do modelo antecipada

Assim, os dois polos deste consenso tentam esvaziar a Política do movimento: A direita clássica com seu aparato comunicacional quer demarcar a questão da corrupção e o governo melhorar o modelo com novos programas sociais. Desta forma, tentam encobrir o caráter total das reivindicações e a crise do modelo.

Porém o levante popular não parece ser iludido pelas expressões débeis do consenso econômico, pois expressam ainda que de forma contraditória e parcial, a crise do modelo neodesenvolvimentista. Aqui não é a explosão de suas contradições gerais, é a antecipação de seu esgotamento.

O neodesenvolvimento representa a síntese contraditória entre o financeirização neoliberal do governo FHC e o keynesianismo dos governos militares (1), neste sentido o governo intervêm prioritariamente por meio de empréstimos ao setor privado e criação de bolhas especulativas (bolha dos emergentes e bolha da copa do mundo). Este modelo cria inflação e atrai maior capital especulativo como forma de frear a crise, porém não impedindo de fato o arrefecimento da acumulação, somente criando mais contradições (aumento do custo de vida e recessão), esgotamento dos recursos fiscais, explosão urbana e esgarçamento dos serviços públicos (2).

Os projetos e programas do governo sintetizam-se basicamente em disponibilizar dinheiro público ao capital. O PAC, o Programa Minha Casa e Minha Vida, o Belo Monte, o Plano de Desenvolvimento Produtivo e Plano de Investimentos da Copa, se baseiam no capital como orientador dos investimentos, pois ele define como, para quem e o que se vai produzir. O governo dá base produtiva e financeira por meio da parceria público-privada e empresta dinheiro por meio BNDES, da CEF, do Banco do Brasil ou dos fundos de previdência. Este processo cria um mercado político que estimula o patrimonialismo e clientelismo próprio da estrutura política brasileira, com superfaturamento, licitação viciada entre outros.

Ora a economia política deste modelo não é a expressão somente economicista em términos de crescimento dos preços e arrefecimento da acumulação, mas também da frustração com as promessas não cumpridas e ataque popular contra o capital, porém que podem gerar ainda mais contradições, instabilidade econômica e aumento de ataque especulativo por parte do capital financeiro internacional (4).

A explosão primeira foi gerada pelos setores que mais perderam com o modelo do governo Lula, os setores com ensino superior da classe trabalhadora, que com a precarização geral do trabalho e das profissões, tiveram caídas no rendimento médio. Logo, os setores mais precarizados entraram no movimento, pois o crescimento de seu poder de compra, não é acompanhado de novas demandas sociais (5).

Acúmulo de forças, a importância da luta de resistência

Minha hipótese é: este movimento se trata de um grande influxo na luta de classes brasileira, em outros momentos fiz alusão sobre a possibilidade de um pequeno influxo nas eleições de 2012 (6) . Este contexto expressa o esgotamento do modelo (7) e um sentimento de insatisfação muito grande. Porém dependeu de vários fatores subjetivos para explodir e não somente do elemento espontâneo econômico. Ora, para mim tem dois fatores fundamentais para isto: a insistência da esquerda militante em recordar as contradições ainda no crescimento e o caldo que se foi criando por questões específicas de luta.

Há anos se faz protestos e manifestações contra o aumento da passagem. O Movimento do Passe Livre começou em 2003 no Fórum Social Mundial (8). Mas o fato é que sempre conseguiu juntar no máximo de 1.000 a 10.000 pessoas, dependendo do tamanho da cidade. Em Florianópolis, Salvador e Londrina tiveram casos explosivos, porém caindo conforme o tempo passou. Entretanto, minha hipótese é que este movimento foi o estopim, pois ainda que fossem ignorados sistematicamente, criavam uma referência.

Também há outros fatores que contribuíram no acúmulo de forças (8), desde a greve geral dos funcionários públicos, da luta contra o massacre dos indígenas, até o “fora Feliciano”, que foi criando mais caldo para que o movimento explodisse. Logo os crimes da copa e o absurdo de gastos públicos, enquanto o custo de vida está aumentando e os serviços continuam precários.

A gota caiu e a caixa de pandora foi aberta, a redução das passagens em algumas cidades do Brasil, principalmente no Rio e em São Paulo, criou uma sensação de que é possível ganhar nas ruas –  o que se tornou palco do movimento. Logo veio o recuo do governo (municipais, estaduais e, nacional) de pautas específicas, o pronunciamento de Dilma, a movimentação da câmara para aprovar passe-livre, estas ações ficam no imaginário popular como: “sim é possível, porém só o fazemos quando há movimento, pois não nos interessa fazer algo para o povo”.

Mas esta caixa de pandora traz muitos fantasmas, principalmente o imaginário do povo que os partidos desunificam. É um setor da população que não tem costume de ir às ruas, pelo menos desde as Diretas Já – com um último respiro em 1992 – e  tem na cabeça que o universal é a bandeira do Brasil e, o vermelho é o PT, o partido que criou toda esta insatisfação junto com o PSDB. O consenso econômico caiu e agora o povo vai contra os elaboradores deste consenso.

Contradições do levante e o caráter subjetivo

A cultura partidária no Brasil é muito ruim e foi altamente esvaziada durante a redemocratização, era natural que os poderosos dissessem: “não dá para fazer, pois é uma questão técnica”, “não reclame da dívida e do superávit, pois são questões técnicas”. Por outro lado, falsas promessas, discursos vazios, o oligopolização da política e o esvaziamento do PT como ferramenta de militância – ainda que contenham militantes –, também criou um caldo de um antipartidarismo perigoso.

O elemento espontâneo deve ser entendido no seu caráter contraditório e explosivo. As pessoas não falam em anticapitalismo, tampouco em socialismo, o processo de transformação é feito na prática.

Isto não é negar a importância do caráter subjetivo, a dimensão política está presente em propostas claras e concretas que deem uma forma radical ao anseio do povo. Assim, é na prática que o povo entende a necessidade de um movimento anticapitalista que traga vitórias concretas e avance para criar um contexto de ruptura, ou seja, é um processo e não uma simples mecânica de povo-revolução.

O conteúdo das nossas bandeiras deve ser exposto e a síntese (socialista, anticapitalista, revolucionária) uma conclusão num processo de dialogo. Ora, não vamos elevar a consciência de ninguém e sim formar junto e na luta um processo de percepção (9) de que as mudanças podem ser feitas com um modelo de ruptura em relação ao capital e com controle popular das forças econômicas.

Também é necessário entender que explosões sociais violentas viram refluxos, este processo cria novos quadros e amadurece a classe trabalhadora, assim a subjetividade individualista, lócus da política de inserção de mercado, dá lugar à ideia de que “juntos podemos conseguir vitórias sociais”. Este processo cria um contexto muito favorável à esquerda radical, tanto da energia social que se faz mais sensível às convocatórias de rua, quanto à possibilidade de escutar nossas propostas. Aqui os Partidos de Esquerda podem ser o elo estável do movimento popular.

Agora os extremos crescem e a política de centro evidencia seu caráter covarde, por isto é importante instrumentos de lutas sociais que avancem na reorganização da esquerda, espaços eleitorais amplos e programas concretos para o Brasil. Logo, para a unidade é fundamental um projeto alternativo ao petista, superando a gravitação da esquerda em torno ao lulismo. Pois do outro lado, o extremo também cresce e o povo pode não perdoar nossos vacilações históricas, assim encontrar novos e velhos inimigos como seus aliados.

Referências

 (1) O pensamento dos militares é mais próximo a este governo que os chamados populistas, João Goulart e Getúlio Vargas, ainda que tenham uma semelhança no  messianismo do lulismo e da cooptação dos sindicatos, do ponto de vista econômico é parecido (não igual) à ditadura, pois tem uma relação mais íntima com o capital nacional e internacional. Porém, diferente dos dois modelos anteriores, não é uma integração vertical entre capital e Estado, é horizontal, tendo como protagonismo o capital (industrial, agrícola e comercial) de natureza financeirizada.

 (2) Estopim da crise, o transporte público em São Paulo é a expressão mais acabada do desenvolvimentismo, que aumenta a população economicamente ativa e diminui desemprego, porém aumenta a demanda sobre todos os serviços públicos, pois há mais população urbana e com isto mais pessoas demandando ônibus, escola, saúde. Ainda nesta lógica, um desempregado não usa transporte público com a mesma intensidade dum empregado, o que aumenta a superlotação do ônibus/metro e inflação dos lucros das empresas de ônibus – com isto maior poder de chantagem do capital em relação ao trabalho, expressa no aumento anual da passagem de ônibus. Por outro lado, os programas sociais que vinculam dinheiro público com a obrigatoriedade de levar seus filhos à escola também aumentam a demanda de educação. Uma maior quantidade de trabalhadores implicam mais doenças, principalmente das mentais por conta da superexploração e do assédio moral. Como o modelo implica repassar os custos desta infraestrutura social aos trabalhadores e não garantem direitos, nem controle sobre o poder unilateral do capital, gera contradição entre um crescimento do poder de compra com deterioração das condições de vida dos trabalhadores. 

(3) O caso Eike Batista está sendo a expressão mais acabada do neodesenvolvimentismo: parceria com um capitalista, crescimento do seu patrimônio com capital estatal e internacional. Como havia um excedente de capital externo por conta da crise de 2008, inflacionou os lucros das empresas de Eike. Por outro lado, estas empresas resultaram em pura ficção financeira, não geravam nem produção, nem nada. Logo a bolha explode quando os capitais internacionais pressentem o desespero, tiram dinheiro de suas ações e compram dólar. A isto se soma toda a incerteza quanto à emergência do Brasil, aumentando o desespero financeiro, o real se desvaloriza, e a bolsa de valores cai fortemente. O governo poderá ainda gastar dinheiro com Eike Batista, prejudicando o orçamento público e os gastos sociais, o que resulta em mais pressão por “responsabilidade fiscal”, o exame fez uma interessante matéria: http://revistaepoca.globo.com/vida/noticia/2013/05/pobre-eike-batista.html

(4) A juventude representa o primeiro estopim, pois é um setor que visualiza frustração futura, pois estão formando-se para ganhar pouco, a expressão contra os transportes, representa a deterioração da qualidade de vida. Por outro lado é um equivoco chamar a classe trabalhadora com ensino superior e renda de R$ 2.000 e R$ 4.000 de classe média, ora também trabalham e não controlam o processo produtivo, apenas executam funções ainda que seja trabalho informacional. Ainda acreditar que por ganharem este dinheiro, não podem manifestar-se, é um contrassenso, sendo que em São Paulo para alugar uma casa na Zona Leste, custa em média R$ 1.000,00. Por fim, não aceitar que há um aumento da participação dos setores que ganharam com o governo, é ignorar alguns dados, segundo o Datafolha 6% da população participou das manifestações e 75% apoia as manifestações, sendo que a avaliação do governo caiu para 30%. A pergunta está: não há mais classe trabalhadora no Brasil, ela é minoria da população? Quem faz as coisas? Quem manda? São somente 25%, o resto é classe média e ricos? Esta matéria exemplifica a primeira parte deste argumento: http://economia.estadao.com.br/noticias/economia-geral,salario-medio-de-quem-estudou-mais-de-12-anos-cai-8-em-uma-decada-,157968,0.htm, e uma pesquisa do IBGE, resultado do censo  2010, também é esclarecedora do Brasil Real. Não dá para dizer que o aumento do salário real é uma política consistente de direito sociais, pois é resultado do crescimento econômico e uma crise pode arrasar esta inserção pelo mercado.

(6) https://antesdatempestade.wordpress.com/2012/11/18/o-brasil-e-a-politica-sinais-contraditorios/

(7) Desde 2009, quando a crise no Brasil deu lugar a euforia da emergência dos BRIC, estive escrevendo que fazia parte de uma bolha no capitalismo mundial, isto é, que haveria uma crise própria do modelo brasileiro, expressando às contradições da crise financeira de 2008. A crise iria expressar primeiro como inflação, logo como desemprego, acho que vivemos no primeiro momento e o segundo se expressará em 2014, pós-copa do mundo. Outro elemento que se faz presente, e já alertávamos era o arrefecimento do crescimento da China, ora uma crise de superprodução, dado 20 anos de crescimento ininterrupto, não tardaria a acontecer, devido às contradições entre crescimento, produtividade e lucratividade, que podemos esclarecer em textos posteriores. Sobre os textos anteriores: http://www.correiocidadania.com.br/index.php?option=com_content&view=article&id=3408:economia180609&catid=26:economia&Itemid=58

http://www.correiocidadania.com.br/index.php?option=com_content&view=article&id=5323:economia211210&catid=26:economia&Itemid=58 https://antesdatempestade.wordpress.com/2012/01/24/classe-c-endividamento-e-desaceleracao-do-crescimento/

(7) Sempre foram uma coesão de diferentes partidos de esquerda (PSOL, PSTU, PCB, entre outros correntes da esquerda radical) movimentos e militantes independentes, dependendo do lugar, onde não havia prefeitura petista, os partidos governistas entravam (PT, PCdoB) no movimento.

(8) Aqui é entender que há várias consciências, e a ideologia dominante permeia o imaginário social, apresentado como vontade da maioria, o interesse da minoria, óbvio que é o falseamento da realidade. Porém, a consciência proletária é permeada por vários momentos, desinformação e cultura de resistência, necessidade de tranquilidade econômica e promoção profissional, medos e individualismo, ora isto significa que não há santos, nem ignorantes completos, há pessoas imersas em um contexto de classe social, que visualizam seu inimigo na luta, e há os militantes oriundos desta classe social, porém que se afastam dela, e devem voltar e fazer-se com ela. O elemento cultural e a nação é mais complicado, e a ideia: “baixem esta bandeira fascista”, “deixe de ver o jogo seu alienado” é bem ruim, devemos entender que a política não é fazer sermão de paróquia. O texto de Artur Monte Cardoso e Felipe Monte Cardoso reflete uma posição acertada neste sentido: http://primeirodemaio.org/as-lutas-atuais-no-brasil-a-questao-nacional-e-o-socialismo/

 (9) Para os teóricos da correlação de forças, qual é a melhor forma de acumular forças? Moderar com a direita e conseguir avanços sociais, mesmo a custa de retrocessos econômicos, no limite avanços que dependem do capital para existir; ou construir na luta, referências sociais e políticas, onde podemos conseguir vitórias parciais, construindo cada vez uma independência política ante a burguesia e avanços econômicos e sociais concretos, visando a ruptura?

 

Anúncios