Qual o poder das redes sociais?

Por Rodrigo Choinski

Sempre recebi com um certo ceticismo os relatos de que as redes sociais haviam permitido as grandes manifestações populares no exterior. Apesar disso, sempre imaginei que elas tinham sido um fator importante nestas mobilizações. Agora o Brasil se inflama e pude constatar que essas redes têm muito mais importância do eu imaginava, aparecendo como canal de comunicação entre centenas de milhares de brasileiros que saem às ruas e de milhões que acompanham estes movimentos. Mas quais são as características, potencialidades e limites de tal forma de comunicação?

A publicidade e organização mínima dos atos são as grandes armas destas redes. Pela Internet atinge-se milhões de pessoas rapidamente, divulgam-se os horários e os locais dos protestos e os motivos da reunião. Estes “motivos” não têm nada a ver com algo como “uma pauta unificada”. Grupos, movimentos organizados e, mesmo, indivíduos, vão adicionando novos motivos, assuntos, temas dos mais diversos e assim temas vão emergindo para “ganhar às ruas”. Este “debate”, como tudo que envolve opiniões e posições nas redes sociais, se dá à base de argumentos diretos que podem variar de um simplismo que beira a infantilidade até uma opinião sintética bem elaborada. De forma alguma este processo é horizontal.

Tudo isto vai se ancorando em uma rede de blogs e depois em sites e portais mais profissionalizados, que são importantes como fonte de documentação, pois guardam textos completos, como notícias, artigos, entre outros, além de vídeos, imagens, charges, etc. Com isto a definição no campo do significado vai ganhando atores mais poderosos e articulados, que vão alimentando a discussão nas redes. Isto quebra um tanto a horizontalidade, pois interesses organizados têm o poder de influir mais no debate. Mas não para por aí.

Tal construção e disputa de significados é afetada fortemente quando entram em cena os gigantes da comunicação.

Num primeiro momento os pesos pesados da mídia mantiveram-se contra as manifestações, denunciando-as como um todo de “vândalos” e “pessoas violentas”, buscando dar suporte ideológico à repressão policial e ao status quo. Não funcionou. As pessoas responderam rechaçando tal posição e para isto foi importante as décadas de denúncias contra as manipulações e o monopólio das comunicações no Brasil – em especial da televisão, oligopólio controlado por 6 famílias, e com um peso brutal da Rede Globo de Televisão, da família Marinho. Não a toa este sentimento continua presente nos protestos, que hostilizam os profissionais que se identificam como trabalhadores dessas redes de tevê, e como demonstraram as depredações de alguns de seus veículos, além de slogans e cartazes nas ruas e denúncias nas redes sociais.

A posição era insustentável. Ocorreu uma mudança súbita, e até cômica, do posicionamento destes meios de comunicação frente aos protestos, reforçada pela forte repressão em SP que atingiu parte da imprensa. Passaram de uma hora para outra a apoiarem os manifestantes e o seu direito democrático de estarem nas ruas. Ao mesmo tempo entraram com força e de forma estratégica na discussão, tanto na Internet, como diretamente na casa de milhões de seus telespectadores. O que levou as ruas a se encherem ainda mais e a ideias que eram até então marginais, pelo menos substantivamente, ganharem corpo – em especial podemos listar, o apoio aos policiais, com a ideia de que apenas vândalos enfrentam a polícia, confundindo resistência e vandalismo e a ideia de que qualquer partido presente na manifestação era em razão de mero oportunismo eleitoral Isso levou pessoas a hostilizarem partidos que estavam desde o início nas manifestações, inclusive alguns que nem participam de eleições, caso do PCR.

A partir daí o cenário inicial da disputa de significados nas redes sociais esteve mais ou menos fechado. As redes continuaram com sua função básica, para que servem muito bem, de dar publicidade e organizar minimamente os protestos. Já a disputa de significados continuaram com um mar de opiniões, com suas ancoragens em blogs, sites e portais, agora com os grandes portais relacionados às empresas que monopolizam o rádio e a tevê no Brasil, e com sua opinião emanando uniformemente para dentro do debate diretamente da televisão na sala das pessoas.

Finalmente, a resistência a esta interferência vai se realizando pela reorganização daqueles que já a vêm combatendo durante décadas, empurrados a se manifestar nas redes sociais, além de pessoas que, saindo em massa às ruas veem a olho nu que algumas coisas não fazem sentido e a repressão não é contra algum tipo de vandalismo. Tal resistência aparece com mensagens mais articuladas e sintéticas, ao mesmo tempo que chegam as primeiras reflexões sobre os processos que estão se desenrolando e o posicionamento e organização daqueles que defendem uma agenda progressiva e já tem experiência de rua.

A impressão que me dá é que devemos explorar melhor as redes sociais, mas sem esquecer os seus limites, que são simplesmente, impossibilidade de uma produção constante e sustentável de conteúdos de qualidade profissional e dificuldade de produção de propostas articuladas. A produção nas redes sociais é artesanal e pode tanto ser articulada, como aparecer como meros chavões ou falácias, lugares comuns e coisas genéricas – nas redes sociais o que há são informações básicas e uma disputa livre de significados, que são ancoradas em produções profissionais e podem ser manipuladas pelos gigantes da mídia. 

Sem propostas articuladas, sustentáveis e que afetem de forma substantiva os problemas que pretendem resolver, as manifestações e qualquer outro tipo de forma de mobilização não poderá sequer alcançar alguma vitória estrutural duradoura. E se as redes sociais podem ajudar a organizar e dar publicidade a tentativas de formação de tais propostas, elas são extremamente limitadas em sua elaboração. Sem contar a dificuldade em produzir relatos do que está acontecendo nos protestos de forma profissional, constante e isenta. O que faz com que os grandes monopólios de comunicação tornem-se mais poderosos e possam vender o “vandalismo” das ruas e a “necessária” “reação” policial, mesmo enquanto apoiadores das manifestações.

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