Porque o sectarismo é um oportunismo?

Por Fernando Marcelino
LASECTAP
A partir de uma visão principista sobre a realidade histórico-social e da avaliação voluntarista sobre a “gestação iminente de uma crise revolucionária” no planeta, tem-se exacerbado o sectarismo entre as esquerdas. Tudo é feito para demarcar posições. Na sua leitura simplista, toda fraqueza do movimento socialista é culpa da “traição das direções”, dos reformistas e centristas. Sua presunção doentia superestima a atual correlação de forças no país. Afinal, porque estas correntes não explicam porque as entidades que dirigem ainda não começaram uma ofensiva dos trabalhadores para servir de exemplo de combatividade e representatividade?
Essa parte da esquerda costuma ser cercada de inimigos por todos os lados, julga que a história resulta de sua vontade, enche a boca de categorias teóricas e procura não misturar-se com pobretariado. Acham que podem chegar a qualquer momento e propor soluções próprias para momentos de grande tensão, acreditando que as massas os seguirão, dependendo apenas de capacidade de convencimento. Recusam-se a partir do nível real de aprendizado delas participando do processo real, às vezes lento, de luta e descoberta de problemas e soluções.
Para eles, tudo depende dos setores mais avançados, dos líderes, partidos e governos “ajudarem” os setores mais atrasados a avançarem, interferindo em seu nível de conscientização, organização e luta. E, quando líderes, partidos ou governos não agem sobre as massas como pretendem, isso representa uma traição. Ficam mais ligados nas disputas entre as cúpulas e desprezam o trabalho de criar raízes fortes com as camadas populares, através de organizações de base capazes de acompanhar e participar do dia-a-dia de luta daquelas camadas. Desconsideram que só o povo pobre e trabalhador, massivamente mobilizado, faz revoluções, independentemente de haver ou não partidos revolucionários em seu seio. E esse povo só se joga no movimento da revolução quando não pretende mais viver como até então e sente a coragem que não tem mais nada a perder. Estes sinais só conseguem ser percebidos por quem está entranhado na vida do dia a dia do povo.
Este sectarismo na verdade é uma forma de oportunismo, pois preferem abandonar a luta concreta para ganhar as massas usando como pretexto as “burocracias” que impedem sua “ação revolucionária”. Esta conduta política revela um desejo de ganhar as massas com manobras organizativas – e aqui os exemplos são incontáveis. É o desespero do tudo ou nada. Não percebem que o auto-isolamento das massas equivale a uma traição à revolução.
Na verdade procuram dentro de seu grupismo “heroico” a satisfação de todos os dias e a oportunidade de reconhecimento público. O que vale é o glamour do “auto-reconhecimento” como lutadores sociais, mesmo sem discernimento da luta de classes e da necessidade de fortalecer atitudes e posições científico-políticas, para uma longa e difícil batalha de formação de lideranças conscientes e militâncias esclarecidas.
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