Estado de sítio na Guatemala, você também pode ajudar a freá-lo.

Por Venâncio Guerrero.

Tradução de Igor Andreo

1º de maio, enquanto no mundo todo se celebra as conquistas históricas dos trabalhadores, o governo guatemalteco do General Otto Pérez Molina declara: “Estado de sítio” e invade com seu exército a comunidade de Santa María de Xalapán da comunidade indígena Xinka-Xalapan (1). Aqui se evidencia a verdade do Estado: não se respeita os trabalhadores, seus direitos e sua vida, principalmente quanto ao que se refere aos povos originários de seu país. Para eles a classe história que produz os alimentos da cidade da Guatemala, não merece viver, não merece possuir suas terras, merecem apenas violência e massacre. Repetindo o filme em outras partes do país, o Governo herdeiro dos massacres e genocídios da sangrenta guerra que terminou em 1996, volta a repetir a política de negação sistemática de todos os direitos de seu povo. Mas por quê? Qual é a razão?

Para ser mais claro, pois esses absurdos a vida devem ser repetidos para que apareçam em sua verdade crua: na Guatemala, uma comunidade com em torno de 50 mil pessoas foi invadida pelo exército de seu país, com a justificativa de que há insegurança pública, isto é, os indígenas não querem uma mineradora de ouro em sua comunidade, uma vez que isto lhes impossibilitará a produção de alimentos para a cidade da Guatemala, ademais de serem os proprietários dessas terras desde o período colonial (1).

A política do Estado guatemalteco para o progresso é a seguinte: vender todas suas terras, desapropriar terras indígenas e, caso necessário, exterminá-los. A Guerra se repete, mas agora somente com um ator armado: o governo.

Estive em território Xinka-Xalapan do dia 7 de setembro de 2009 até janeiro de 2010. Convivi com os indígenas, buscando apoiá-los em sua luta com meus precários conhecimentos de economista. Todavia, como sempre tende a acontecer, eles me ensinaram mais do que eu a eles. Ensinaram-me a lutar ainda que todas as dificuldades do mundo imponham-se, desde a fome crônica (2), machismo extremo, violência de todos os tipos, precariedades de toda ordem de infraestrutura, migração que traz dinheiro, porém leva seus filhos, água que um dia chegava e outro não. Entretanto, o pior de tudo: eles viviam com uma espada que pairava sobre a cabeça de todos: a presença do narcotráfico que queria roubar suas terras para produzir ouro (3), ou seja, a mineradora que podia arruinar suas terras.

Os Xinxa-xalapanes são uma comunidade autônoma, possuem seu governo indígena herdado das corporações espanholas, que por não conseguirem impor-se completamente, aceitaram a organização comunitária indígena, em troca de que esta apresentasse um formato semelhante ao seu, ou seja, com mayordomos (4) e tudo isso. Contudo, essa foi a forma como lograram manterem-se como organização política e social independente.   

Essa mesma comunidade, como muitas outras comunidades indígenas, teve que trabalhar para outros, ou seja, a famosa lei da vagabundagem (5), que os obrigava a trabalhar para fazendeiros liberais para não serem presos, sendo que trabalhar em suas próprias terras não contava. Isto fez com que seu território fosse trabalhado em menos intensidade, isto é, não era possível melhorar a produtividade de suas próprias terras (6), uma vez que eram obrigados a trabalhar para outros. Ainda assim, forram desterrados. A primeira lei de terras da Guatemala (7) lhes retirou a terça parte das terras que possuíam. Em seguida passaram pelo conflito armado que identifica como equivalentes simétricos indígenas e comunistas.

 No entanto, mesmo lhes tomando tudo, lhes impondo trabalhos forçados, eles sobreviveram como Xinxas, com memória histórica e com governo autônomo. Mas agora que foi confirmado que há ouro em suas terras, querem tirar-lhes dali ou exterminá-los de uma vez.

Conheci outras comunidades indígenas da Guatemala com problemas iguais. Indígenas que trabalham muito e são ameaçados de desterro por narcotraficantes, empresas mineradoras ou são vítimas de outros megaprojetos. Com a chegada de Otto Pérez Molina isto piorou e o indígena novamente é visto como sinônimo de barbárie, de homens e mulheres em estágio selvagem e contrário ao progresso.

Mais que em qualquer lugar, na Guatemala essa falsa ideia da vida social possui enorme força material, onde um genocida elitista venceu as eleições presidenciais. Poder-se-ia fazer uma pesquisa das vendas de televisores e os votos antipopulares e provavelmente os estatísticos encontrariam alta correlação estatística. Mesmo com a Guatemala sendo um dos países mais pobres da América Latina e do mundo, com altas taxas de violência, de desemprego, de analfabetismo e muito mais, o governo segue afirmando que a culpa é dos direitos humanos que protegem o atraso. Contudo, os Direitos Humanos nunca venceram na Guatemala e isto é um dos fatores que mantém seu povo pobre. Nesse sentido, a relação causa e efeito é encoberta por uma propaganda de afirma que os territórios indígenas geram atraso, ao invés de apontar que é a falta de terras que causa o “atraso”.

Isso tem forjado entre os setores urbanos, formados por uma maioria de trabalhados pobres que possuem aparelhos celulares, mas têm dificuldades para comprar carnes e tortilhas suficientes para todo o mês, a visão de que o indígena é sinônimo de atraso, sendo que é a falta de apoio ao setor agrário indígena que gera a falta de alimentos e o consequente “atraso”.

Nesse discurso, não se evidencia o verdadeiro resultado da exploração mineradora, isto é: a contaminação da terra, uma vez que o ouro é levado e nada fica para população. Nesse sentido, a política de Otto Pérez Molina é de um tipo de liberalismo de armas, no qual “nós garantimos a livre circulação e produção das empresas estrangeiras, narcotraficantes e todos os demais, e para isto exterminamos quem estiver em nossa frente”, enquanto a televisão, os periódicos e a falta de conhecimentos básicos de interpretação histórica e de texto garantem a propaganda que logra  mascarar o óbvio de pobreza e miséria.

Todavia os indígenas não se calam. Formam metade da população, mas agora necessitam de seu apoio, pois serão massacrados. E quanto a nós? E você? Acredita também que os indígenas são a barbárie e devem morrer? Pois no contexto da Guatemala isto não é exagero. Pesquise um pouco sobre a história guatemalteca e descobrirá que o generalíssimo não está brincando. O que você fará? A Guatemala pode estar longe de sua casa, mas o mundo estreitou-se muito e o sangue que lá cairá poderá sujar sua consciência. O mundo está cheio de casos assim, mas caso consigamos divulgar, sensibilizar e fazer com que muitas outras pessoas vejam isso será possível frear, não corrigir, mas frear os instintos assassinos de Otto Pérez Molina.

O que podemos fazer?

Divulgar essa nota e os textos que publicamos nas referências, principlamente os comunidcados de Xalapanes;

Assinar cartas e documentos em apoio aos Xinxas-xalapanes;

Entrar em contato com algum jornalista de seu país e pedir para divulgar o caso.

Também não lhe custará nada publicar em seu facebook ao menos um texto – e circular informação é importante!

Referencias.

(1) O governo também declarou Estado de Sítio  en Mataquescuintla, na capital de Jalapa, Casillas e San Rafael Las Flores, Santa Rosa. Comunidades mestiças e em jalapa xinkas, além de ter declarado Estado de Sitio faz um ano Santa Cruz de Barrillas, também no dia 1 de mayo, este artigo se focará na comunidade Xinka Xalapan, por meu conhecimento da comunidade.

 (2) Em Setembro de 2009, o então presidente da Guatemala, Álvaro Colom, declarou estado de calamidade pública, por causa da crise de fome, que afetou mais de 54 mil famílias, habitantes do corredor seco (El Progreso, Zacapa, Chiquimula, Jalapa, Jutiapa, Santa Rosa e Baja Verapaz, no qual morreu mais de 25 crianças, Além disto, houve outras 350 mil pessoas, habitantes da região, em zona de risco. confira Guatemala declara el “estado de calamidad pública” por hambre, por agencias Guatemala, 09/09/2009. http://www.diariodenavarra.es/20090909/internacional/el-hambre-mata-guatemala-25-ninos.html?not=2009090909055902&idnot=2009090909055902&dia=20090909&seccion=internacional&seccion2=internacional&chnl=30

(3) Em 2008, a crise econômica fez explodir o preço do ouro e a febre de ouro em América Latina. Esta zona guarda debaixo de si, não só fome, mas também ouro. Mario Strada, traficante quase dono de metade da cidade, política e ex-ministro do meio ambiente, vem tentando desde então explorar esta região, com uma resistência histórica dos indígenas que por meio do seu governo autônomo vem convocando diversas mobilizações, de até 10.000 pessoas, não conseguiram. Aqui culmina o Estado de Sítio. 

(4) Mayordomos são os líderes da corporação espanhola, a comunidade, entre outras funções da estrutura hierarquica corporativa hispanica.

(5) ley de Jornaleros y de La Vagancia de 1829, para un debate sobre a ley e sua influência na origem do Estado guatemalteco etnocentrico ver: Dorotea Antonia Gómez Grijalva. A etnia e o gênero na construção do Estado-Nação guatemalteco. Campinas, SP: [s.n.], 2007.

(6) Fazendeiros que se localizavam nas melhores terras, muitas vezes na costa, quando vivi com os XInkas, a família que me abrigou, em determinadas épocas, como entre junho e julho, no entresafra do café (principal produto comercializado pela comunidade), trabalhavam em terras da costa, o senhor S. trabalhava em uma fazenda de um espanhol.

 (7) Entre 1885 e 1892 se impulsou a legalización de terras na Guatemala, convocando aos proprietários que registrassem suas terras, como esta convocatória não chegou aos indígenas, somente os brancos registravam terras indígenas como sendo deles, ver: http://americalatina.landcoalition.org/sites/default/files/capitulo_guatemala007.pdf

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