Em busca do “como fazer?”

Por Rodrigo Choinski

Temos um déficit teórico, como afirma Slavoj Zizek, ou um déficit organizacional, como afirma José Paulo Netto?

Acho que ambos estão certos e errados. Temos nos preocupado em estudar cada vez mais detalhadamente as contradições do capital, interpretado suas relações, temos um cabedal teórico de base invejável, só para citar alguns, temos vasta obra de Marx, Lukács, Gramsci, Lenin, Rosa Luxemburgo, e vamos colocar Mészáros aqui, e uma série de desdobramentos destas teorias sendo produzidos todos os anos. O lukacsiano José Paulo Netto está certo, não temos um déficit teórico, precisamos colocar a teoria em prática. Por outro lado temos uma série de movimentos e ativismo, vemos milhares senão milhões de pessoas em manifestações mundo afora, não há uma causa que não tenha movimentos organizados em torno, e, apesar disto tudo, depois das reuniões, depois das manifestações, depois do ativismo, resta-nos o mesmo velho mundo da prevalência do capital e das classes dominantes, Zizek está certo, muito, se não a maior parte do que fazemos é pseudoativismo, em especial aquele que se move lado a lado com as mensagens vindas da publicidade – do tipo salve o mundo reciclando, enquanto é a indústria e não o consumo final que produz a maior parte dos resíduos.

A pergunta é, “qual é a natureza do déficit organizacional?” de que fala José Paulo Netto, e “qual é a natureza do déficit teórico?” de Zizek.

Paremos por um minuto para observar no início da manhã, nas metrópoles, milhares de pessoas deixando apressadas suas casas em direção ao trabalho, todas elas vendendo 8 horas de suas 16 horas acordados (metade de sua vida), sem contar o que perdem no trânsito, para que? Como disse o personagem antológico de Clube da Luta, Tyler Durden, trabalhar em empregos que odeiam para comprar merdas que não precisam. Todas elas sabem que algo está errado – a necessidade de “fazer algo” que gera o pseudoativismo de Zizek, nasce desta percepção – mas não estão mobilizadas para mudar. Por que? Esta é a pergunta que qualquer militante deve fazer, e antes de fazer genericamente, fazê-la a si mesmo “Por que não estou realmente mobilizado?” ou “Estou realmente mobilizado?” ou ainda “O que é estar realmente mobilizado”. No fim, onde precisamos chegar é “O que me mobilizaria?” e ainda “O que mobilizaria a população, ou pelo menos parte significativa dela?”. Quem tem essa resposta está errado. Não se tem essa resposta, sua dimensão está tão emaranhada no conceito de práxis que não se pode tê-la, é preciso demonstra-la, teórica e praticamente.

Não haverá esperança contra as 40 horas semanais que dedicamos religiosamente ao sistema* se não nos mobilizarmos em massa contra o sistema. Nosso déficit é teórico, a medida que não temos acúmulo científico sobre como e porque as pessoas se engajam, e como e porque se engajariam em atividade que não tivesse o sufixo “pseudo” a acompanhando. As “estratégias” e “táticas” têm sido todas construídas em cima de dogmas e tradições contestáveis, que ou não despertam os interesses das massas ou não trazem resultado algum. Nosso déficit é organizacional porque nossos métodos não são mediações em realidade, são heranças do passado, desligadas da vida cotidiana das pessoas, ou são derivações formais e mecânicas de teorias. Precisamos de articulações institucionais e de investir estudo no “como fazer” mais do que no “que fazer”. Precisamos dar menos crédito aos nossos mestres e doutores da academia – preocupado com sua produtividade viciada e seu formalismo doentio – e tentar buscar entender os processos de mobilização social e sua necessária articulação institucional, sem a qual não pode haver qualquer acúmulo. Cada ação deve ser passível de articulação institucional e teórica. Cada militante deve ser um pesquisador a investigar o porquê das pessoas ainda não terem percebido o que ele percebeu, e se sentirem motivadas como ele se sente para agir em cima das contradições do sistema, não para achar desculpas, mas para achar respostas e tentar trazer mais e mais pessoas para as lutas.

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