A venda da Sombra.

Por Venancio Guerrero: 

Conto que faz parte do livro: Quando a Chuva Chega. 

De fato, foi numa cidade que já perdemos o nome. Já tinha vendido tudo e faltava qual? A sombra de uma árvore não existente.  Por que a venderíamos? Já não nos resta mais nada, vendemos nossa moral, nossas mulheres, nossos cachorros, nossos homens, agora temos de vender esta sombra. Que disparate. Que disparate. Já vendemos nossa palavra. Por que não podemos vender?

Sonhos são vendáveis. É fácil. Entra lá na propaganda de refrigerante. Já. Já. Óbvio que não envelhecem. É por isto que se pode vender. Melhor! Quase não há custo. Uma máquina de fazer dinheiro! Sim, de fato, de fato, os sonhos são vendáveis e lucrativos.

Qual a razão de vender esta maldita sombra de uma memória. Olhe que a memória se esgota. Era de uma árvore que já não existe, pois foi vendida. Qual a razão para ser tudo vendido? Não, não há mais esta necessidade. Antes havia, mas era pura justificativa. Agora, que conseguimos nosso objetivo, não necessitamos mais justificar, portanto não há mais razão.

Mas, poxa, vender a sombra, já foi tudo vendido. Queria tanto recordar a sombra da Arvore mais frondosa do mundo. Não preciso mais disto. Para quê? Não há razão para dizer esta palavra: frondosa. Isto é para propaganda. Agora já não preciso disto.

Voltando ao objetivo real. Ainda há objetivos? Há sim! Pois, senão os donos da metodologia ficam bravos, estes sempre vão existir, mesmo que só formalmente.

Enfim, sem tergiversar. Está ficando emocionante: Absurdo, vender coisas que já não existem. Os sonhos são imateriais, porém existem, na verdade é a única coisa que ainda existe e se pode vender.

Mas, enfim, enfim. Se quiser, eu vendo. Era mais para você ficar achando que não, criar expectativas, amo isto. Estou querendo que você compre mais caro, mas sei que não valemos nada mesmo, pois vendemos tudo e te venderemos a sombra por quanto quiser. 

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