Questões táticas

Por Fernando Marcelino  

A questão mais importante da tática, assim como da estratégia, é o poder político. Sem exercer o poder político é melhor fazer um clube de debates sobre o problema dos outros. A questão, então, reside em abordar concretamente a luta por esse poder, em fazer com que as grandes massas do povo, no processo de luta de classes, se aproximem cada vez mais da compreensão de que precisam de um poder oposto ao da burguesia. A tática varia conforme as circunstâncias ou momentos da luta de classes, mas ela não pode perder de vista, de modo algum, a questão do poder político. Se passarmos muitas reuniões debatendo questões diversas desta estamos caminhando na estrada errada e seremos apenas comentadores dos processos reais da luta de classes. Vale lembrar também que a luta pelo poder não é uma sopa de letrinhas, onde nos diferenciamos por formalidades do que se entende pela prática alheia. 

Em resumo, o objetivo da tática consiste em preparar as classes revolucionárias para atuar como uma força material revolucionária, quando se criar uma situação revolucionária. Esse é o foco. Quando dizemos que determinadas classes são revolucionárias é porque em determinados momentos seus interesses materiais empurram objetivamente a revolução social. A análise da situação concreta indica exatamente quais são seus interesses e que objetivos estratégicos e históricos lhe são atribuídos. Para alcançar a realização de tais objetivos, porém, é necessário verificar seu grau real de luta, de consciência, de experiência e de organização.

Tomentos a nova classe trabalhadora brasileira – também chamada de subproletariado. Ela é uma classe revolucionária. Suas condições de existência, a exploração a que é submetida, a opressão política que a burguesia exerce sobre ela – tudo isso a conduz a lutar contra a burguesia e, mais cedo ou mais tarde, a enfrentá-la revolucionáriamente. 

Os empregos do subproletariado são muito variados: telemarketing, feirantes, pequenos empreendedores, autônomos, trabalhadores da construção civil, caixas de supermercado, motoboys, secretariado, serviços de reparo em geral, parte do funcionalismo público, pequenos comerciantes, trabalhadores em domicílio etc. Em suma, são empregos altamente flexíveis e irregulares, por mais que grande parte sejam empregos formais. Alguns têm dupla jornada de trabalho e outros tantos são trabalhadores completamente informais. Enfim, o subproletariado é composto por uma camada social altamente heterogênea em termos de valores, crenças políticas, religiosas e comportamentos. Todos lutam para pagar suas contas e costumam morar nas periferias das grandes cidades. Muitas vezes seu acesso a formas de mínimas de auto-organização e ao espaço público se dá por meio de igrejas evangélicas e neopentecostais.

O grosso do subproletariado emergente associa-se as características gerais das classes populares – não uma “classe média”. Em grande medida, o segmento das classes populares em emergência apresenta-se despolitizado, individualista e aparentemente racional à medida que busca estabelecer a sociabilidade capitalista. A forte expansão do conjunto das ocupações de salário de base pertencentes ao setor terciário e da construção civil e indústria extrativa favoreceu a maior rápida incorporação dos trabalhadores na base da pirâmide social. Com isso, uma parcela considerável da força de trabalho conseguiu superar a condição de pobreza, transitando para o nível inferir da estrutura ocupacional de baixa remuneração. Do total de 21 milhões de postos de trabalho criados na primeira década do século XXI, 94,8% foram com rendimentos de até 1,5 salário mínimo mensal. Em suma, ocorreu o avanço das ocupações na base da pirâmide social brasileira com a expansão do emprego assalariado com carteira assinada. A cada dez empregos de base criados, sete foram empregos formais. Metade do total dos postos de trabalho criados ocorreu de maneira regional, focado nas regiões Nordeste, Norte e Centro-Oeste, ao contrário dos anos 1980, quando as regiões Sudeste e Sul responderam pela maioria do total da ocupação para trabalhadores de base.

Os trabalhadores do subproletariado respondem atualmente pela metade do total das ocupações no Brasil, 75% são assalariados, do quais dois de cada três possuem carteira assinada. Portanto, é claro que o subproletariado durante o período recente ampliou sua dimensão e tornou-se protagonista de um importante movimento de mobilização da estrutura social brasileira que faz parte da reconfiguração de parte significativa da classe trabalhadora. O subproletariado possui uma trajetória de ascensão por meio do trabalho duro, com fé em Deus para suportar a dor de viver, ter força de vontade e conseguir vencer os obstáculos que aprecem pela frente. Seus integrantes possuem uma narrativa sem tempo linear, previsível ou estável. Sua reprodução se constitui como um desafio permanente. Seu risco não é de proletarização, pois sua condição já é proletarizada, produto de trabalho duro todos os dias. Não é uma condição que se alcançou e se tem medo de decadência, mas uma condição que deve ser buscada em todo momento da vida. Para o subproletariado a estabilidade econômica é algo extremamente valorizado, pois é o caminho da ascensão social.

 

No entanto, examinando sua situação concreta, no momento, o que se nota?

 

Em geral, uma grande dispersão das lutas dessa nova classe trabalhadora, além de se manter, em grande parte, nos limites da luta econômica. O movimento sindical ainda não encontrou o caminho para realizar uma poderosa ação unificada e alcançar autonomia em relação ao Estado. Sua política contra o poder da burguesia ainda é limitada e dispersa e grande parte de suas massas se mantém apático ante aos problemas políticos de sua classe. É uma fração da classe trabalhadora emergente no Brasil, diferente daquela do ABC no final dos anos 1970, vivendo um processo de recomposição, ainda com pouca experiência de luta, mas que ainda não mostrou sua potencialidade.

 A ausência percebida de movimentos sociais em geral, identificados por instituições tradicionais como associações de moradores ou de bairros, partidos políticos, entidades estudantis e sindicais, reforça o caráter predominantemente mercadológico que busca domesticar e aliar as possibilidades de, pela política, aprofundar as transformações sociais neste início do século XXI.

Por hora a grande massa da nova classe trabalhadora é, pois atrasada do ponto de vista de sua consciência de classe. Não tem sequer clareza de quem são seus inimigos. Ao contrário, está sob a influencia ideológico e política justamente desses inimigos. Sua organização também não é sólida. 

Não há dúvidas que o subproletariado ainda é muito conservador, mas também por culpa do déficit organizativo da esquerda e do bombardeio do monopólio dos meios de comunicação. Essa realidade impede que projetos “socialistas” sejam aceitos facilmente, por mais que já participe de um novo ciclo de lutas das classes populares, como no caso de Jirau. É verdade que, por hora, essa vasta fração de classe luta de maneira prioritária por ascender ao mundo do trabalho formal em regime capitalista, com todos os defeitos que ele possui – já que tem estado historicamente dele excluída. Mas essa não é toda a verdade. Apenas se esquerda organizar o subproletariado será possível influir decisivamente na luta de classes quando o modelo de “redução da pobreza com a manutenção da ordem” se esgotar ou for bloqueada. Devemos nos focar na organização do subproletariado para se integrar ao proletariado pela luta de classes para encontrar seus interesses comuns e fortalecer as bandeiras históricas da classe trabalhadora. O desafio do proletariado brasileiro, portanto, é estabelecer uma aliança com o subproletariado organizando-o, por mais difícil que seja cumprir esta tarefa.

No capitalismo brasileiro contemporâneo, o “subproletariado” é a força potencialmente revolucionária, sendo preciso que esta força se transforme em ação organizada e articulada com as demais forças das massas populares. Voltamos a reiterar: o maior desafio dos revolucionários hoje no Brasil é a organização do subproletariado. É muito provável que no ascenso de massas o subproletariado irá deter um papel decisivo, podendo atuar junto ao projeto popular e impulsionar a revolução brasileira. Mas não existem atalhos. Esse é um trabalho de maratona, mas será este trabalho que determinará o triunfo ou fracasso da revolução brasileira.

Construir uma revolução exige a tarefa de avançar cada vez mais na organização da classe trabalhadora, o que significa acumular força para contribuir na criação de uma situação revolucionária e ser capaz de aproveitá-la quando ela surgir. O nível de organização, de força acumulada, dos dominados é um fator fundamental para determinar a vitória ou derrota de uma revolução. Não haverá revolução no Brasil sem que, em primeiro lugar, haja uma retomada luta de massas, da luta política e da luta ideológica. Sem luta de massas e sem fortes organizações do subproletariado, não apenas torna-se pouco provável que ocorra uma crise de dominação como torna-se praticamente impossível transformar esta crise de dominação numa situação revolucionária. Enfim, sem a organização do subproletariado será muito difícil uma retomada da luta de massas contra o capitalismo. E sem esta organização será impossível – caso aconteça uma nova onda de mobilizações – transformar estas lutas em ponto de apoio para uma alternativa democrática, popular e socialista no Brasil. Em suma, sem a participação do subproletariado é impossível transformar a sociedade de maneira profunda e em favor do próprio povo. A mensagem é clara: a sociedade não se muda sem mexer com o subproletariado. Portanto, estamos diante do crescimento da classe trabalhadora, em fábricas, comércios e serviços. E são esses trabalhadores, e não a classe média, que constituem mais de 60% da população brasileira.

Apesar de não ser um mundo com glamour, o desafio revolucionário hoje é trabalhar na base do subproletariado, vivenciando e contribuindo para sistematizar suas pequenas experiências de luta, elevando sua consciência de classe. Esse processo não é imediato. É uma missão estratégica, de longo prazo, orientando essas classes no momento que decidirem lutar. Devemos urgentemente reorganizar a esquerda sob este marco, pois ela se encontra muitas vezes alheia a tal processo, sem saber como tratar adequadamente estas transformações. A organização deve colocar o subproletariado em movimento como um setor da classe trabalhadora, fazê-la agir e pensar como parte substancial da classe trabalhadora bem como encontrar seu destino na luta política.

Um primeiro passo neste sentido seria entender que diante da enorme dificuldade em organizar sindicalmente o subproletariado, o espaço em que milhões destes trabalhadores no Brasil tem se organizado e lutado é o território, em especial na periferia e nas favelas das grandes cidades. A politização destes territórios é parte integrante do processo de politização do subproletariado. A revolução brasileira depende da organização das massas nas periferias dos grandes centros urbanos. A maioria da população está nas periferias das grandes cidades de forma desorganizada e ainda não existe uma referência mobilizadora na qual todas as forças possam depositar a sua esperança e avançar na luta de classes. Para isso a esquerda precisa ser capaz de inovar nas formas organizativas combinando as lutas de classes com a integração das lutas territoriais, onde as populações habitam e constituem grandes contingentes das massas do subproletariado. As lutas territoriais se referem especificamente àqueles locais nos quais as massas populares vivem e disputam a sobrevivência e o controle do território que habitam, enquanto aguardam melhores condições para desencadear ações ofensivas de enfrentamento e, com isso, derrotar as forças dominantes. Na atual dinâmica da luta de classes, o local das verdadeiras lutas contra a ordem social não é no campo ou na selva, mas na periferia, o território da nova classe trabalhadora. É por isso que desenvolver formas mínimas de auto-organização nas periferias é nosso desafio mais urgente. 

 

Para nós, se queremos nos tonar uma corrente de esquerda séria, temos que se empenhar, muito mais seriamente do que temos feito, para que a classe de trabalhadores assalariados em formação ganhe consciência do processo de exploração a que está submetida e passe a lutar por seus direitos, sejam os econômicos e sociais, sejam os políticos, a única forma de lhe dar consistência e força socialmente ativa na sociedade brasileira. Estes trabalhadores que fazem parte do exército industrial de reserva das favelas e periferias urbanas vão aprender a lutar em condições de democracia e de combate contra as tentativas de criminalização dos movimentos sociais, podendo emergir como atores que contribuam decisivamente para as mudanças que transformem o capitalismo em outro tipo de sociedade. Da mesma forma que a classe operária que surgiu no ABC naqueles anos, a nova classe trabalhadora da atualidade terá que aprender, com a própria vivência, o que é a exploração capitalista e como lutar contra ela. 

 Por isso que a nossa tarefa principal é a preparação da nova classe trabalhadora para poder enfrentar a burguesia com êxito quando ocorrer uma situação revolucionária. Essa preparação consiste pela educação na própria luta, uma educação revolucionária que consiste, basicamente, em aprender coma própria experiência.      As formas de luta utilizados não são “inventados” pelos teóricos. O papel dos “teóricos” ou setores conscientes consiste em aprender as formas de luta concreta que surgem da prática da massa, em sistematizá-los e generalizá-los, dando a essa mesma massa consciência da que esta realizando. Nesse sentido, é fundamental aprender com a massa.

A dinâmica de aprendizado e desenvolvimento das massas é dispersa e diferenciada, em virtude de suas próprias condições de trabalho e de vida. Além disso, disperso e diferenciado é também seu conhecimento sobre a realidade econômica, social, cultural e política, na qual essas massas estão inseridas. Afora o fato de possuírem baixa instrução escolar, elas são ainda bombardeadas intensamente por informações que, em geral, procuram mistificar e embaralhar a realidade.

Nessas condições, a escola de aprendizado das massas, onde quer que estejam, num chão de fábrica, numa ocupação urbana, numa vila rural, ou em qualquer outro tipo de coletividade, só pode ser a prática da luta, seja pela sobrevivência, seja pela conquista de direitos. É na luta que elas descobrem seus próprios problemas, ou os aspectos negativos de sua existência. É na luta que elas começam negando aqueles aspectos negativos, como passo necessário para aprender a apresentar propostas positivas e ganhar coragem para lutar e vencer.

É na luta de negação dos aspectos negativos de sua vida, seja a pouca comida do dia-a-dia, o pouco teto para se proteger, a pouca ou nenhuma terra para plantar, o baixo salário para fazer frente aos custos da vida etc. etc., que as massas apreendem a realidade. Mesmo que essa apreensão ainda seja parcial, e um início de busca de soluções, essa é sua dinâmica “normal” de aprendizado.

Desse modo, nenhuma forma de luta pode ser rechaçada em princípio. O critério básico para considerar válida uma forma de luta consiste em verificar se ela é produto da prática das massas e se ela tem um caráter de massa. No caso afirmativo, qualquer forma de luta é válida. O desprezo às formas de luta que correspondam ainda ao nível de consciência e organização da massa é o mesmo que isolar-se dessa massa e criar condições, pelos próprios erros, para ser profundamente golpeado pelo inimigo. Não é por acaso que, mesmo estando presentes, há lideres e militantes que não conseguem ser reconhecidos como dirigentes. Tentaram impor objetivos e formas de luta mais avançados, ou mais atrasados, por incapacidade de captar as razões e limites a que as massas haviam chegado em seu aprendizado “normal”. Os líderes e militantes que possuem consciência das contradições da realidade, como a luta entre as classes e a luta pelo poder, têm importância tanto na organização e decisão, quanto na avaliação da luta, de modo a elevar o aprendizado e a mobilização. Mas, se não levarem em conta o nível real de aprendizado das massas, certamente cometerão erros que os distanciarão dessas massas.

Nosso desafio é claro: atuar, através de seus membros, em todas as organizações onde haja massa com o intuito de elevar a consciência política delas, assim como seu nível de luta e organização. Desenvolvendo sua atividade OBRIGATORIAMENTE onde estão as massas, nós só conseguirem conquistar simpatia, a adesão e apoio dessas massas se agirmos com modéstia, tenacidade, perseverança e paciência. É nesta luta que os trabalhadores ganham consciência e desenvolvem suas habilidades organizativas e políticas. Se não for por este meio, quando se tornar mais claro os delineamentos da luta de classes e emergir uma generalização da luta de massas, restará apenas o papel dos espectadores debatendo traições em reuniões de “direção” para esconder seu isolamento elitista.

 

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