“O trabalho dignifica o homem”

por Gilson Moura Henrique Júnior *

A lógica do trabalho dignificador se não é uma recente modalidade de discurso não passeia pelas ruas e praças brasileiras há muito mais tempo antes de a emancipação dos escravos, formalizada em 1888, ganhasse o garrancho imperial para se tornar uma realidade palpável.

O trabalho como eixo dignificador é fruto da necessidade ideológica de sustentar a transformação do trabalho escravo, pautado pela vivência de trabalho exclusivo, continuo e com pouca ou nenhuma garantia de tempo livre, conceito inclusive quase alienígena no Brasil do século XIX, em um trabalho produtivo e construtor de uma nação, digno, dignificador, pautado pela transformação da indolência em produtiva produção de uma riqueza que ornava com galhardia o sorriso da elite dirigente.

O trabalho passa a dignificar o homem após ser um abjeto instrumento que sustentava a herança da nobreza ibérica europeia avessa ao trabalho, eixo de ações ideologicamente construído para ser executado por serviçais ou escravos, e que tinham-no como meio de manchar sua condição de nobre.

O trabalho desenobrecia o nobre ibérico e era parte das funções da patuleia, da base da sociedade, seja ela livre ou escrava.

No Brasil escravista o trabalho trouxe consigo a herança de sua identificação como meio de subalternidade e por isso a posse de escravos era um meio de distinção social clássico, sendo objeto de desejo das mais diversas classes a obtenção de um escravo para ou trabalhar externamente garantindo melhora na renda ou nos serviços domésticos, os mais indignos entre os diversos tipos do indigno trabalho.

A partir do processo emancipador dos cativos pela escravidão moderna, sustentadora do capitalismo nascente e parte da acumulação primitiva do capital que grassou mundo afora otimista e pleno da confiança de um sistema em ebulição criadora, o trabalho tende a ser discutido pelas elites dirigentes como algo que deveria ser alvo de profunda valorização diante do medo da massa ex-escrava tornar-se “vadia” e parte de um perigo que já era atribuído à sua condição de negros e passaria a acompanhar também a condição de pobres.

A partir da proibição de fato do tráfico negreiro em 1850, e com o avanço tanto das alforrias quanto das pressões que derma na abolição da escravidão em 1888, era comum nas instâncias legislativas do estado imperial a discussão sobre o valor que o trabalho tinha como emancipador da alma humana e criador da dignidade tornava-se não só comum, como um imperativo que tinha como companheiras as discussões sobre a migração do controle senhorial dos cativos para o controle estatal dos libertos e sobre a classificação das classes sociais entre cordatas e perigosos, adjetivo último que ligou-se quase imediatamente às classes populares, ditas “baixas” e cuja composição coincidentemente e ironicamente era majoritariamente de negros e negras.

Para efeito da comprovação da necessidade de valorização do trabalho os exemplos dos escravos como atingidos e educados no abjeto trabalho forçado era levantado, nem sempre com uma coerência racional digna de nota, como prova que o trabalho livre era necessário para que a marca deseducadora e selvagem da servidão forçada não os torna-se eternamente alvo da indignidade da deformação do caráter pelo chicote.

O trabalho assim alcança o valor de dignificador a partir da diferenciação entre o trabalho escravo, abjeto, e o trabalho livre, parte da construção do homem digno, do homem de bem. Claro que em nenhum momento discute-se ai que parte importante dos debatedores nas instâncias legislativas do império e posteriormente da república nascente fazia parte da elite dirigente economicamente formada por defensores do tráfico de escravos e sócios da enorme lucratividade que dele advinha até sua interrupção levar os valores nele investidos na direção do investimento em terras e nas lavouras de café. Nestas instâncias a história adquiria uma interessante fluidez nos discursos.

O novo, recente, cheirando a tinta fresca, trabalho livre, tinha de ter elementos de valorização que não tornasse uma ética de vinculação pelos recém libertos do trabalho ao que se constituiu como modo de pensar das elites, como seu ethos particular: O trabalho é indigno e só deve ser executado pelas classes mais baixas da sociedade. Era preciso reverter isso de forma rápida e rígida. O trabalho deveria ser visto como dignificador, seja pela repetição ad infinitum do discurso,seja pela força da proibição da vadiagem, criminalizada legalmente já nos primeiros anos pré-abolição da escravidão.

Neste processo se inventa a tradição do trabalho dignificador que era o meio de salvação das classes perigosas de sua condição de um risco para a sociedade e também uma forma de construção de uma possibilidade ideológica do enriquecimento. Possibilidade essa que jamais continha quaisquer menções às barreiras visíveis e invisíveis que a condição de classe e de fenótipo, ou marca, erguiam para os não-brancos e não-ricos que habitavam, e habitam, Pindorama.

“O trabalho dignifica o homem” torna-se assim um adágio, um dizer, uma forma de pensar que optou por ignorar o trabalho que indignava o homem cativo e que só foi visto como abjeto nos últimos noventa anos de sua existência. Só passou a indignar uma sociedade erguida a partir de um alicerce formado pelos ombros negros, pelo trabalho negro, no fim de sua existência.

Referências bibliográficas:

  • CHALOUB, Sidney. Trabalho, lar e botequim. Editora da Unicamp
  • CHALOUB, Sidney. Visões da Liberdade: uma história das últimas décadas da escravidão na Corte. Cia das Letras
  • CHALOUB, Sidney.  Cidade Febril:  cortiços e epidemias na Corte Imperial. Cia das Letras

* Gilson Moura Henrique Júnior é historiador

 fonte: http://www.bancariosrjes.org.br/novo/informativos/index.php?id=3317

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