A Virada Cultural e a elitização da rua

 

Por bernardopilotto

Primeiramente, gostaria de dizer que sou um ativo participante de eventos como Virada Cultural. Em 2010, 2011 e 2012, estive em quase todos os shows, de Almir Sater a Zeca Baleiro, de Paulinho da Viola a Jair Rodrigues e Emilio Santiago. Portanto, o debate que proponho neste texto está longe de ser algo apenas teórico ou trazido por alguém que está “no sofá”, vendo a Virada de longe. Bem ao contrário, o debate vem através de uma experiência pessoal vivida no dia 10 de novembro, primeiro dia da Virada Cultural 2012.

Recentemente, saímos de um processo eleitoral onde o PSOL apresentou candidatos a vereadores e a prefeito em Curitiba. Neste período, alugamos como Comitê de Campanha a Casa Amarela, que fica bem no centro histórico da cidade, no Largo da Ordem. E, como reiteramos diversas vezes durante a campanha, o PSOL é um partido que não recebe dinheiro de empresas e, portanto, faz auto-financiamento, tanto de suas campanhas quanto de suas atividades cotidianas. Após a campanha, nosso Diretório Municipal decidiu por manter a Casa Amarela como sede permanente do partido, o que impõe a toda a militância partidária e apoiadores uma campanha financeira permanente para manutenção da Casa Amarela.

Dentro desse espírito, fomos para um dos palcos da Virada Cultural vender refrigerantes e cerveja com o intuito de arrecadar uma quantia de dinheiro que pudesse ajudar no pagamento de nosso aluguel.

Cheguei as 13h30 no Palco Riachuelo e tudo corria bem, até que por volta das 17h00 fui abordado, de maneira ríspida, por dois fiscais da Prefeitura, que alegavam que eu estava “irregular”. Argumentei que não havia nada que dissesse que a venda de cervejas era proibida no local e que não havia como mostrar se eu estava vendendo ou consumindo. Esse argumento era importante, visto que muitas pessoas estavam com isopores ou caixas térmicas para consumo de bebidas durante os shows da Virada Cultural.

Os fiscais não deram bola para minha argumentação, mandaram uma pessoa que estava próxima “calar a boca” e tentaram carregar o isopor. Para minha sorte, ele estava bastante pesado e então eles foram chamar reforço. Depois de alguns minutos e diante da ameaça eminente de perder a “mercadoria” que ainda tinha no isopor, comecei, com ajuda de outros colegas, a carregar o isopor para fora do local do show, tentando evitar o pior.

Eis que no meio do caminho fui abordado novamente pelos fiscais, dessa vez em maior número, uns 8, e por mais 4 policiais militares (1 cabo e 3 soldados). Muita gritaria, grosseria (especialmente por parte dos fiscais) e xingamento, até que os PM’s reconheceram que não havia como provar que eu estava vendendo cerveja e que a mercadoria não deveria ser apreendida. Fui embora da Virada enquanto vendedor de cerveja e voltei mais tarde, para aproveitar outros shows.

Todos esses fatos trouxeram muitas reflexões: 1) A Prefeitura acha que num evento de duração de mais de 24 horas, repleto de shows, não há consumo de cerveja?; 2) Qual o critério para determinar se o isopor é para venda ou para consumo próprio? 3) A Prefeitura quer o bônus de dar shows de graça na rua sem o ônus de fazer shows na rua?

 

Como já afirmei em outro texto, a Prefeitura de Curitiba (e o Governo do Estado também, visto que hoje são ocupados pelo mesmíssimo grupo) são ineficientes na organização de eventos de rua até do ponto de vista do mercado e do capital. Na maior parte das cidades, os governos entenderam que eventos de rua podem ser muito lucrativos.

No Rio de Janeiro, por exemplo, a Prefeitura só permite blocos de rua que sejam cadastrados e só permite que os ambulantes sejam vendedores da cerveja Antarctica a determinado preço, visto que esta cervejaria é a patrocinadora do carnaval de rua. Neste contexto, seria compreensível que a Prefeitura removesse os ambulantes da rua, embora isso também tenha um caráter higienista. Já a Prefeitura de Curitiba prefere fingir que não haverão ambulantes e que não haverá consumo de cerveja. A fiscalização reclama de irregularidade, mas não houve nenhum momento ou chance para que pessoas que quisessem “ganhar um extra” ou mesmo ter uma “renda eventual” se cadastrassem como ambulantes. Nem do ponto de vista do mercado (associação com uma grande cervejaria) nem do ponto de vista das pessoas (liberdade para venda de bebidas) houve alguma ação da Prefeitura, que se limitou a reprimir os trabalhadores e apreender sua mercadoria.

Pior ainda é que tal repressão foi feita sem critério ou, ainda pior, com o preconceito como critério. No Palco Riachuelo haviam muitas pessoas com seus isopores, alguns grandes, outros pequenos. Também haviam muitas pessoas vendendo, a maior parte dela com compartimentos pequenos, para facilitar “a fuga” no caso de chegar a fiscalização. E qual era o critério para distinguir venda e consumo, se o tamanho do isopor não podia ser considerado? Para aqueles que estavam na praça, o critério parecia ser o da roupa, se de marca ou não, da cor da pele, dos olhos, etc.

E nisto chegamos finalmente ao título do texto. A Prefeitura quer fazer um evento gratuito, nas praças das cidades, ao ar livre, aparentemente sem querer o “ônus” de ter gente “pobre, feia e da periferia” nas atividades. Um evento gratuito mas para a classe média, aquela que já “consome”, mesmo que eventualmente, os shows que são apresentados na Virada Cultural. Por isso que a Virada é muito mal divulgada (nos ônibus, por exemplo, são divulgados eventos de todo o tipo. Mas a Virada não), a tarifa especial de ônibus de R$1,00 não é extendida para o sábado da Virada, o ônibus madrugueiro (entre meia-noite e 5h30) continua apenas de hora em hora e restrito a alguns pontos da cidade, entre outros mecanismos de “divulgação sem divulgar”, de “participação popular sem povo”. A Virada Cultural acaba sendo uma política pública isolada de todas as outras do município, dificultando o acesso para a maior parte da população, que não se vê incluída ou convidada para as atividades.

Também podemos debater a programação. Avalio que em 2012 foram feitos acertos importantes: encaixe de show de bandas locais entre artistas nacionalmente conhecidos (caso do show do Trio Quintina, que ficou localizado entre o show do Zeca Baleiro e do Arnaldo Antunes) e, a exemplo de outros anos, apresentações comuns entre artistas nacionais e atrações locais, como a apresentação de Zeca Baleiro com a Orquestra a base de cordas, a apresentação de Emilio Santiago com a Orquestra a base de sopro e Oswaldinho do Acordeon com a Orquestra Sinfônica. O público também precisa entender isso, visto que no show de Emilio Santiago com a Orquestra a base de sopro foram ouvidas pequenas vaias pelo fato da Orquestra ter tocado duas músicas próprias e uma homenagem a Altamiro Carrilho antes da entrada do cantor Emilio Santiago.

Mas também a programação e merece críticas e precisa ser melhor esclarecida. Por exemplo, o Trio Quintina e a dupla Kleiton & Kledir apresentaram espetáculos voltados ao público infantil, em bom horário para que pais e mães levassem seus filhos e filhas. Mas esse ponto não foi divulgada. No Palco Conexões (Boca Maldita), o show chamava-se “Orquestra a base de sopro & Emilio Santiago” e isso deixava indicios de que também a Orquestra ia ter um espaço próprio no show.

E para 2013?

Muita expectativa cerca a Virada Cultural de 2013. Tanto por ser a quarta edição, tanto porque a Prefeitura de Gustavo Fruet poderá mostrar se é de fato uma novidade ou não. A Prefeitura organizará a Virada de maneira democrática, com sugestões da classe artística e do público usuário, incorporando aí bandeiras trazidas pelo PT nos anos 1980 ou seguirá o mesmo modelo antidemocrático e higienista da prefeitura de Eduardo Paes (da coalização PMDB/PT/PCdoB) no Rio de Janeiro?

http://www.bernardopilotto.com.br/2012/11/21/a-virada-cultural-e-a-elitizacao-da-rua/

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