Um sonho, um bebê e o manifesto contra “Odeie seu Ódio”

Por Paulo Spina
            Hoje tive um sonho! Sonho sonho, dormindo mesmo! Muito diferente dos habituais. E fiz relações com várias coisas. Primeiro ainda dormindo, pois é incrível que a gente não apenas sonha, mas também pensa durante o sonho. E depois quando acordado, lembrando de conversas do dia anterior, do livro que estou lendo muito envolvido “Os irmãos Karamazov” e, ainda, uma reportagem que assisti na TV ainda agora.
            O sonho como a maioria deles era um tanto confuso:
            Lembro-me que meus pequenos estavam nele em muitos momentos. Mas a parte que mais me impressionou foi quando de uma forma repentina fui parar em um lago muito bonito e ali rapidamente alguém falou da importância dos partos naturais que acontecem na água. E numa rapidez que nem no cinema poderia ser reproduzida, estava eu na água ajudando uma mulher desconhecida a ter seu bebê. Lembro com uma riqueza de detalhes e sensações: a água fria, a minha mão puxando a cabecinha do bebê com todo cuidado, o vento que eu sentia no rosto. E o bebe nasceu! E me lembro de ter abraçado e amado aquele bebe! E disse: – bem vindo a este mundo maravilhoso! E no mesmo momento pensei várias coisas simultâneas: quanto frio este bebe deve estar sentindo, saiu da barriga quentinha, quanta novidade para ele, será que também não vai ser assim quando morrermos?
            Acordado, lembrando e já desistindo de dar uma explicação lógica pensei sobre vários assuntos:
            Mundo maravilhoso? Sim, mas apenas em sua potencia de ser! Mas não é assim que deveríamos receber nossos pequenos? Acreditando que o mundo é, ou pelo menos, pode ser maravilhoso? E uma pequena vida nas mãos, com literalmente a vida inteira pela frente não é algo que nos deveria fazer levantar e lutar para que este pequeno possa ser tudo que ele realmente queira ser? E também lutar para que seja verdade sobre o mundo ser maravilhoso? Ah, mas como fiquei triste quando, tomando café, liguei a TV e a noticia era de mais não sei quantas mortes em São Paulo durante a madrugada. Que revolta que sinto com isso! E a mãe na entrevista falando calmamente que agora “Só Deus para ajudá-la com esta tristeza”. Nada contra Deus, mas eu sinto ÓDIO de ver tanto desprezo com a vida humana! Ódio que me faz lutar para mudar! Chega de “Odeie seu ódio” frase que se espalhou pela cidade! Vamos odiar sim! Odiar o mundo não ser maravilhoso! Odiar esse racismo que mata os pobres e negros da periferia! Odiar a sociedade machista que destrói sentimentos! Só com esse primeiro sentimento de ódio, de revolta, é que nos levantaremos para lutar e para construir outro mundo, para fazer revolução!
            Ah como eu fiquei com saudades dos meus pequenos e de tentar, pelo menos por um momento, esconder as coisas que odeio e mostrar somente as maravilhas para eles! Mas só consigo fazer isto brevemente, pois sei também que para eles serem um dia pessoas que não vão se acomodar, preciso mostrar o quanto este mundo é injusto. Outro dia fomos numa festa. Uma festa no acampamento do MTST. Lá eles viram maravilhas do mundo: a solidariedade entre as pessoas, a simplicidade verdadeira! Mas também puderam enxergar pessoas que dia a dia sentem na pele o quanto o mundo não é maravilhoso e sabem que “quando morar é um privilégio ocupar é um direito” e lutam para mudar a realidade. Preciso ensinar que liberdade nem sempre é felicidade.
            E aqui lembrei de Dostoiésvski, do personagem Ivan Karamazov e seu poema em forma de prosa “O grande inquisidor”. Aqui apenas um pequeno trecho:
            “Não existe nada mais sedutor para o homem que sua liberdade de consciência, mas tampouco existe nada mais angustiante”.
            Escolhi a angustia. Diz Lacan que a angustia é o afeto que não mente. Somente no meu sonho e em um breve momento pensei no depois da morte. Escolhi, assim como acho que faz um bebe na barriga, não pensar nisto! Para mim não importa se existe ou não existe algo. Pois assim minha indignação e meu ódio não têm consolo e sei que todos os meus dias serão para lutar por esta vida, lutar por liberdade!

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