Porque o PSOL deve fazer Movimento Popular?

Chrysantho Sholl Figueiredo

1 – Uma nova fase para o PSOL.

Nosso partido nasce de uma difícil conjuntura da esquerda brasileira: o petismo no poder. Neste cenário, o Partido Socialismo e Liberdade nascia com o objetivo de apresentar uma alternativa para elementos à esquerda do PT que não estavam dispostos a dividir espaço com a nova situação política. Na época, acreditávamos que o PT estava em franco processo de degeneração. Até aí tudo bem… o problema é que acreditávamos que com ele, viria a incapacidade de os quadros petistas gerirem o capitalismo brasileiro. Confiando nesta hipótese, prepararíamos o terreno para que os elementos mais a esquerda do PT, em meio a uma crise institucional inevitável, encontrassem seu lugar de luta no PSOL. Infelizmente, o governo Lula foi um sucesso, e a presidenta Dilma tem se revelado um sucesso de popularidade ainda maior.

O relativo sucesso eleitoral de Heloísa Helena em 2006 contribuiu para ofuscar a realidade. Demorou um tempo até que o PSOL percebesse seu verdadeiro tamanho. Demorou também para perceber que o petismo era máquina mais inteligente do que pensávamos. Demorou também para criarmos figuras públicas genuinamente “psolistas”. É importante lembrar que figuras como Heloísa Helena ou Chico Alencar, sem questionar a importância que tiveram para a consolidação do Partido, não deixavam de rememorar a ala esquerda do Petismo, representando este PSOL que era ao mesmo tempo, ex-PT. E assim, somente 6 anos mais tarde, começa o PSOL a crescer com ritmo e cara próprias. Pela primeira vez surgem figuras públicas como o deputado Marcelo Freixo, com sua entusiasmante campanha à prefeitura do Rio de Janeiro, sem citar outras figuras regionais menores, porém amplamente reconhecidas.

Está claro, portanto, que o PSOL inicia uma nova fase: hoje, somos menores do que esperávamos ser a 6 anos atrás, é verdade. Mas estamos agora iniciando um percurso próprio que abre grandes possibilidades futuras de atuação. Afinal, por mais inteligente que seja a máquina petista, nada é eterno sob o capitalismo. Logo chegará o dia em que o PSOL será chamado a ocupar importantes posições na política nacional.

2 – Uma nova fase para a esquerda brasileira.

Existem duas tristes, porém importantes lições a serem tiradas dos episódios de revoluções traídas. A primeira é de que nada garante a vitória sem contradições de uma revolução. Aliás, tanto é assim que derrota pode vir até mesmo com a vitória. Não é exatamente disto que se trata a traição revolucionária? Um processo autêntico de organização das massas populares e forças progressistas confrontam o poder, vencem e, no dia seguinte, começam a atuar contra seus próprios princípios: um típico caso de derrota na vitória.

Entretanto, esta é apenas a primeira e mais evidente lição de uma traição revolucionária. A outra lição, a mais difícil de ser percebida porém, é que por mais bárbara que seja a traição revolcuionária (incluindo os casos extremos de Stalin a Deng Xiaopin, passando por Pol-Pot) ela jamais se equipara à situação governante da direita. Uma revolução traída é uma revolução traída. Isto é: por maior que seja a traição, ela jamais retorna à situação pré-revolucionária, pura e simplesmente. No caso de uma traição revolucionária, sempre haveremos de encontrar sinais e indícios de seu impulso original, genuinamente revolucionário. Estes sinais são traços da fidelidade à Causa inscritos na própria realidade da situação, e que a burocracia traidora tenta invisibilizar a todo momento.

É por isso que, por exemplo, a polícia secreta da extinta Alemanha Oriental (República Democrática da Alemanha) encontrava muito mais dificuldade de mapear os dissidentes nos bairros populares do que a Alemanha Nazista. O regime de Hitler contava com muito mais delatores entre as camadas comuns da população do que o regime de Erick Honecker. Neste caso, a população se acobertava mutuamente e o companheirismo era generalizado entre as camadas mais simples da população alemã: sinal evidente de que a retórica socialista (por mais farsesca que fosse) gerava efeitosreais sobre o povo – afinal, toda ideologia gera efeitos reais. A esquerda no poder (mesmo em sua versão degenerada) faz diferença.

Analogamente, algo semelhante acontece com o petismo no poder (por mais que não se trate de um caso propriamente revolucionário). É evidente que o Partido dos Trabalhadores se encontra em um caminho degenerativo irremediável, um bom exemplo são as alianças locais oportunistas com DEM e PSDB. Entretanto, seu discurso de igualdade social e apoio aos movimentos sociais em favor dos trabalhadores, por mais farsesco que seja, gera efeitos reais na população brasileira e as eleições de 2012 foram um indício deste efeito. O crescimento inegável de partidos da chamada “oposição de esquerda ao PT” como PSOL e PSTU com inúmeros vereadores eleitos e muito bem colocados não deve ser visto somente como indignação com os rumos do PT. É a indignação canalizada à esquerda e isto não é desprezível num país onde as forças reacionárias reinam há tantos anos.

Paradoxalmente, ao mesmo tempo em que o Lulismo foi indispensável à abertura do Brasil para o Grande Capital, se configurando num belo modelo de gestão burocrática do capitalismo com um discurso progressista, ele também é responsável pelo crescimento de sua oposição ainda mais progressista. Efeito material da conquista de lugares centrais de poder pelo discurso de esquerda. Se nós da oposição de esquerda formos suficientemente atentos, poderemos nos aproveitar deste paradoxo da realpolitik de esquerda para fortalecer o Comunismo e sua fidelidade à revolução.

3 – A Crise por-vir.

É evidente que ainda estamos vendo o crescimento do petismo e seus correligionários em escala muito maior do que o crescimento da esquerda comunista. Ainda assim, devemos ter em mente que o crescimento nacional encabeçado pelo petismo, tem seus limites, por maiores que sejam suas habilidades. Primeiramente porque estamos cada vez mais na rebarba da China: nossa posição só pode ser sustentada como “Vanguarda” do capitalismo global enquanto se desenvolvem os ideais da reforma Deng com seu investimento pesadíssimo em infra-estrutura e a política deliberada de causar deflação global no mercado consumidor. O Socialismo de Mercado, para os brasileiros, permanece um ideal agradável, porém impossível de ser copiado. A qualquer vacilo da economia chinesa, seremos os primeiros candidatos à bancarrota.

Além disso, há outro sinal de uma crise no horizonte do crescimento brasileiro. Todos se lembram que 2010 foi o ano que o Brasil fechou seu crescimento perto da casa dos 8%. Na época, o ministro Guido Mantega chegou a afirmar que um crescimento assim só perdia para… a China! Não é necessário muita formação materialista para saber que o ápice do sucesso econômico vem sempre antes do ápice do sucesso político. E, por mais que a economia já não cresça tanto quanto em 2010, os sinais da crise continuarão imperceptíveis até que a popularidade dos governos Lula-Dilma comece também a decrescer.

Quando assistiremos a uma tal crise? No final do próximo mandato à presidente da república? Talvez no próximo? Fato é que a crise chegará (a não ser que o PT tenha fôlego para um novo milagre econômico) e provavelmente em menos de uma década. É para este episódio que nós do PSOL devemos estar preparados se quisermos realmente assistir a um Evento político revolucionário, improvável e excepcional como todas as revoluções.

4 – Sem movimento de massas, sem revolução!

Com a necessidade de atuar frente à futura crise do PT, vem a necessidade, também, de estabelecermos um programa revolucionário. Porém, de nada adianta debatermos longamente temas como a superação do PDP (Programa Democrático-Popular) se não realizarmos nós mesmos uma alternativa prática à burocracia petista. Diga-se de passagem, é exatamente este o momento que precisamos superar para dar continuidade ao crescimento do PSOL e da esquerda nesta nova fase da política nacional. Ainda não existe superação possível do programa democrático popular e, infelizmente, é difícil ser mais democrático-popular do que o PT.

A alternativa não é debater o programa revolucionário, mas realizá-lo. E como é que se realizam as revoluções? Com movimentos de massas.

É aqui que a questão revolucionária se reduz à seguinte pergunta: “quantos trabalhadores do povo conseguimos botar na rua?”. Claro, não podemos reduzir o problema a um cálculo meramente quantitativo. Paralelamente a “quantos trabalhadores” existe a questão de “Como mobilizá-los melhor”, “com que disciplina”, etc. Mas as questões qualitativas são depurações e aperfeiçoamentos da questão quantitativa: primeiro devemos mobilizá-los, depois mobilizá-los melhor!

E onde estão as massas? Diferentemente do contexto político do fim da ditadura militar, as massas não estão mais em grandes sindicatos, e por dois motivos: o primeiro é a constante burocratização dos grandes sindicatos e sua adesão à ordem. A segunda é que com as bombásticas políticas Tatcher-Reagan, ainda incipientes quando das mobilizações do ABC e da fundação do PT, os trabalhadores das camadas mais pobres da população são contratados por empresas terceirizadas que, não raramente, proibem sua sindicalização.

E de fato os movimentos que mais cresceram dos anos 80 para cá, não são sindicais mais populares, fato do qual o MST é somente um exemplo, mas poderíamos listar inúmeros movimentos populares, urbanos e rurais, que se tornaram verdadeiros protagonistas das políticas de esquerda no Brasil e no mundo.

E sequer seria preciso dizer que o Partido, por si só, não pode ser revolucionário se não tem inserção nos movimentos de massas. Curiosamente é isto que tem nos ensinado as experiências socialistas do século XX, da Revolução Bolchevique à Revolução Cultural. O Partido Bolchevique, por exemplo, se tornou realmente revolucionário graças a sua política de formação de quadros dirigentes da classe trabalhadora em grandes movimentos de massas: das Dumas mais progressistas até o Soviets mais famosos como o de Petrogrado organizado por Trotski. Mas não faltaram outros movimentos de massas nos quais os quadros bolcheviques se inseriram para realizar a mobilização da classe trabalhadora: a Cavalaria Vermelha de Budiênin, a Guarda Vermelha, etc. Na China, o PC Chinês não teria sido nada sem o Exército Vermelho, comandado entre outros pelo grande estrategista Zhou Enlai, o segundo maior quadro do PC. E o caso extremo é o da Revolução Cubana, onde o Partido Comunista só passa a existir após a tomada do poder, sendo o Evento Revolucionário organizado pelo Movimento 28 de Julho, movimento popular de grande inserção nas populações campesinas da ilha caribenha.

É por isso que, se o PSOL quer cumprir o papel para o qual será chamado, forçando uma vitória da esquerda revolucionária no Brasil, deve ter inserção nos movimentos de massas. Para que isto ocorra, entretanto, devemos evitar dois desvios básicos: o cupulismo, isto é, a tentativa de ganhar apoio das cúpulas do movimento sem o trabalho de base junto às mobilizações; e o disputismo, a idéia de que a mobilização deve antes passar por uma concepção bem formada a ser disputada em instâncias do partido ou do movimento.

a) O cupulismo redunda sempre em fracasso porque as massas não aceitam ser dirigidas por aqueles com quem não convivem, por isso o trabalho de base é necessário. Aliás, como diria um desses quadros revolucionários do século XX: “Ficar longe do povo é uma forma de ficar contra o povo!”.

b) O disputismo, por outro lado, é um desvio porque: 1 – em última análise leva ao dificultismo, uma vez que nunca um movimento nasce de uma concepção prévia, ao contrário, a concepção de movimento vem sempre a reboque do movimento mesmo. Esperar pela concepção bem acabada, é dificultar a realização da revolução; 2 – a ideia de disputa política, se levada às últimas consequências, isto é, à fomulação segundo a qual “política = disputa” impossibilita a verdadeira essência das revoluções socialistas, a ideia segundo a qual “política = criação”. Por isso o PSOL deve ter quadros que se insiram nos movimentos populares ou até mesmo criem movimentos populares quando a inserção é difícil ou improvável. A criatividade é um elemento indispensável para a estratégia popular e revolucionária.

Uma terceira ressalva ao disputismo é que ele esconde que a Política, no caso das revoluções socialistas, é uma questão de Verdade. E diferentemente das opiniões, que formam os elementos mais importantes das políticas eleitoralistas da democracia da burguesa, Verdades não são disputáveis. Verdades são apenas aceitas ou negadas. Por isso o axioma “Sem movimento de massas, sem revolução” não se presta a disputas ou opiniões contrárias em instâncias partidárias ou nas cúpulas dos movimentos… se presta apenas à realização prática.

Curitiba, 7 de novembro de 2012.

Porque o PSOL deve fazer

Movimento Popular?

Chrysantho Sholl Figueiredo 

1 – Uma nova fase para o PSOL.

Nosso partido nasce de uma difícil conjuntura da esquerda brasileira: o petismo no poder. Neste cenário, o Partido Socialismo e Liberdade nascia com o objetivo de apresentar uma alternativa para elementos à esquerda do PT que não estavam dispostos a dividir espaço com a nova situação política. Na época, acreditávamos que o PT estava em franco processo de degeneração. Até aí tudo bem… o problema é que acreditávamos que com ele, viria a incapacidade de os quadros petistas gerirem o capitalismo brasileiro. Confiando nesta hipótese, prepararíamos o terreno para que os elementos mais a esquerda do PT, em meio a uma crise institucional inevitável, encontrassem seu lugar de luta no PSOL. Infelizmente, o governo Lula foi um sucesso, e a presidenta Dilma tem se revelado um sucesso de popularidade ainda maior.

O relativo sucesso eleitoral de Heloísa Helena em 2006 contribuiu para ofuscar a realidade. Demorou um tempo até que o PSOL percebesse seu verdadeiro tamanho. Demorou também para perceber que o petismo era máquina mais inteligente do que pensávamos. Demorou também para criarmos figuras públicas genuinamente “psolistas”. É importante lembrar que figuras como Heloísa Helena ou Chico Alencar, sem questionar a importância que tiveram para a consolidação do Partido, não deixavam de rememorar a ala esquerda do Petismo, representando este PSOL que era ao mesmo tempo, ex-PT. E assim, somente 6 anos mais tarde, começa o PSOL a crescer com ritmo e cara próprias. Pela primeira vez surgem figuras públicas como o deputado Marcelo Freixo, com sua entusiasmante campanha à prefeitura do Rio de Janeiro, sem citar outras figuras regionais menores, porém amplamente reconhecidas.

Está claro, portanto, que o PSOL inicia uma nova fase: hoje, somos menores do que esperávamos ser a 6 anos atrás, é verdade. Mas estamos agora iniciando um percurso próprio que abre grandes possibilidades futuras de atuação. Afinal, por mais inteligente que seja a máquina petista, nada é eterno sob o capitalismo. Logo chegará o dia em que o PSOL será chamado a ocupar importantes posições na política nacional.

 

2 – Uma nova fase para a esquerda brasileira.

Existem duas tristes, porém importantes lições a serem tiradas dos episódios de revoluções traídas. A primeira é de que nada garante a vitória sem contradições de uma revolução. Aliás, tanto é assim que derrota pode vir até mesmo com a vitória. Não é exatamente disto que se trata a traição revolucionária? Um processo autêntico de organização das massas populares e forças progressistas confrontam o poder, vencem e, no dia seguinte, começam a atuar contra seus próprios princípios: um típico caso de derrota na vitória.

Entretanto, esta é apenas a primeira e mais evidente lição de uma traição revolucionária. A outra lição, a mais difícil de ser percebida porém, é que por mais bárbara que seja a traição revolucionária (incluindo os casos extremos de Stalin a Deng Xiaopin, passando por Pol-Pot) ela jamais se equipara à situação governante da direita. Uma revolução traída é uma revolução traída. Isto é: por maior que seja a traição, ela jamais retorna à situação pré-revolucionária, pura e simplesmente. No caso de uma traição revolucionária, sempre haveremos de encontrar sinais e indícios de seu impulso original, genuinamente revolucionário. Estes sinais são traços da fidelidade à Causa inscritos na própria realidade da situação, e que a burocracia traidora tenta invisibilizar a todo momento.

É por isso que, por exemplo, a polícia secreta da extinta Alemanha Oriental (República Democrática da Alemanha) encontrava muito mais dificuldade de mapear os dissidentes nos bairros populares do que a Alemanha Nazista. O regime de Hitler contava com muito mais delatores entre as camadas comuns da população do que o regime de Erick Honecker. Neste caso, a população se acobertava mutuamente e o companheirismo era generalizado entre as camadas mais simples da população alemã: sinal evidente de que a retórica socialista (por mais farsesca que fosse) gerava efeitos reais sobre o povo – afinal, toda ideologia gera efeitos reais. A esquerda no poder (mesmo em sua versão degenerada) faz diferença.

Analogamente, algo semelhante acontece com o petismo no poder (por mais que não se trate de um caso propriamente revolucionário). É evidente que o Partido dos Trabalhadores se encontra em um caminho degenerativo irremediável, um bom exemplo são as alianças locais oportunistas com DEM e PSDB. Entretanto, seu discurso de igualdade social e apoio aos movimentos sociais em favor dos trabalhadores, por mais farsesco que seja, gera efeitos reais na população brasileira e as eleições de 2012 foram um indício deste efeito. O crescimento inegável de partidos da chamada “oposição de esquerda ao PT” como PSOL e PSTU com inúmeros vereadores eleitos e muito bem colocados não deve ser visto somente como indignação com os rumos do PT. É a indignação canalizada à esquerda e isto não é desprezível num país onde as forças reacionárias reinam há tantos anos.

Paradoxalmente, ao mesmo tempo em que o Lulismo foi indispensável à abertura do Brasil para o Grande Capital, se configurando num belo modelo de gestão burocrática do capitalismo com um discurso progressista, ele também é responsável pelo crescimento de sua oposição ainda mais progressista. Efeito material da conquista de lugares centrais de poder pelo discurso de esquerda. Se nós da oposição de esquerda formos suficientemente atentos, poderemos nos aproveitar deste paradoxo da realpolitik de esquerda para fortalecer o Comunismo e sua fidelidade à revolução.

 

3 – A Crise por-vir.

É evidente que ainda estamos vendo o crescimento do petismo e seus correligionários em escala muito maior do que o crescimento da esquerda comunista. Ainda assim, devemos ter em mente que o crescimento nacional encabeçado pelo petismo, tem seus limites, por maiores que sejam suas habilidades. Primeiramente porque estamos cada vez mais na rebarba da China: nossa posição só pode ser sustentada como “Vanguarda” do capitalismo global enquanto se desenvolvem os ideais da reforma Deng com seu investimento pesadíssimo em infra-estrutura e a política deliberada de causar deflação global no mercado consumidor. O Socialismo de Mercado, para os brasileiros, permanece um ideal agradável, porém impossível de ser copiado. A qualquer vacilo da economia chinesa, seremos os primeiros candidatos à bancarrota.

Além disso, há outro sinal de uma crise no horizonte do crescimento brasileiro. Todos se lembram que 2010 foi o ano que o Brasil fechou seu crescimento perto da casa dos 8%. Na época, o ministro Guido Mantega chegou a afirmar que um crescimento assim só perdia para… a China! Não é necessário muita formação materialista para saber que o ápice do sucesso econômico vem sempre antes do ápice do sucesso político. E, por mais que a economia já não cresça tanto quanto em 2010, os sinais da crise continuarão imperceptíveis até que a popularidade dos governos Lula-Dilma comece também a decrescer.

Quando assistiremos a uma tal crise? No final do próximo mandato à presidente da república? Talvez no próximo? Fato é que a crise chegará (a não ser que o PT tenha fôlego para um novo milagre econômico) e provavelmente em menos de uma década. É para este episódio que nós do PSOL devemos estar preparados se quisermos realmente assistir a um Evento político revolucionário, improvável e excepcional como todas as revoluções.

4 – Sem movimento de massas, sem revolução!

Com a necessidade de atuar frente à futura crise do PT, vem a necessidade, também, de estabelecermos um programa revolucionário. Porém, de nada adianta debatermos longamente temas como a superação do PDP (Programa Democrático-Popular) se não realizarmos nós mesmos uma alternativa prática à burocracia petista. Diga-se de passagem, é exatamente este o momento que precisamos superar para dar continuidade ao crescimento do PSOL e da esquerda nesta nova fase da política nacional. Ainda não existe superação possível do programa democrático popular e, infelizmente, é difícil ser mais democrático-popular do que o PT.

A alternativa não é debater o programa revolucionário, mas realizá-lo. E como é que se realizam as revoluções? Com movimentos de massas.

É aqui que a questão revolucionária se reduz à seguinte pergunta: “quantos trabalhadores do povo conseguimos botar na rua?”. Claro, não podemos reduzir o problema a um cálculo meramente quantitativo. Paralelamente a “quantos trabalhadores” existe a questão de “Como mobilizá-los melhor”, “com que disciplina”, etc. Mas as questões qualitativas são depurações e aperfeiçoamentos da questão quantitativa: primeiro devemos mobilizá-los, depois mobilizá-los melhor!

E onde estão as massas? Diferentemente do contexto político do fim da ditadura militar, as massas não estão mais em grandes sindicatos, e por dois motivos: o primeiro é a constante burocratização dos grandes sindicatos e sua adesão à ordem. A segunda é que com as bombásticas políticas Tatcher-Reagan, ainda incipientes quando das mobilizações do ABC e da fundação do PT, os trabalhadores das camadas mais pobres da população são contratados por empresas terceirizadas que, não raramente, proíbem sua sindicalização.

E de fato os movimentos que mais cresceram dos anos 80 para cá, não são sindicais mais populares, fato do qual o MST é somente um exemplo, mas poderíamos listar inúmeros movimentos populares, urbanos e rurais, que se tornaram verdadeiros protagonistas das políticas de esquerda no Brasil e no mundo.

E sequer seria preciso dizer que o Partido, por si só, não pode ser revolucionário se não tem inserção nos movimentos de massas. Curiosamente é isto que tem nos ensinado as experiências socialistas do século XX, da Revolução Bolchevique à Revolução Cultural. O Partido Bolchevique, por exemplo, se tornou realmente revolucionário graças a sua política de formação de quadros dirigentes da classe trabalhadora em grandes movimentos de massas: das Dumas mais progressistas até o Soviets mais famosos como o de Petrogrado organizado por Trotski. Mas não faltaram outros movimentos de massas nos quais os quadros bolcheviques se inseriram para realizar a mobilização da classe trabalhadora: a Cavalaria Vermelha de Budiênin, a Guarda Vermelha, etc. Na China, o PC Chinês não teria sido nada sem o Exército Vermelho, comandado entre outros pelo grande estrategista Zhou Enlai, o segundo maior quadro do PC. E o caso extremo é o da Revolução Cubana, onde o Partido Comunista só passa a existir após a tomada do poder, sendo o Evento Revolucionário organizado pelo Movimento 28 de Julho, movimento popular de grande inserção nas populações campesinas da ilha caribenha.

É por isso que, se o PSOL quer cumprir o papel para o qual será chamado, forçando uma vitória da esquerda revolucionária no Brasil, deve ter inserção nos movimentos de massas. Para que isto ocorra, entretanto, devemos evitar dois desvios básicos: o cupulismo, isto é, a tentativa de ganhar apoio das cúpulas do movimento sem o trabalho de base junto às mobilizações; e o disputismo, a ideia de que a mobilização deve antes passar por uma concepção bem formada a ser disputada em instâncias do partido ou do movimento.

a) O cupulismo redunda sempre em fracasso porque as massas não aceitam ser dirigidas por aqueles com quem não convivem, por isso o trabalho de base é necessário. Aliás, como diria um desses quadros revolucionários do século XX: “Ficar longe do povo é uma forma de ficar contra o povo!”.

b) O disputismo, por outro lado, é um desvio porque: 1 – em última análise leva ao dificultismo, uma vez que nunca um movimento nasce de uma concepção prévia, ao contrário, a concepção de movimento vem sempre a reboque do movimento mesmo. Esperar pela concepção bem acabada, é dificultar a realização da revolução; 2 – a ideia de disputa política, se levada às últimas consequências, isto é, à formulação segundo a qual “política = disputa” impossibilita a verdadeira essência das revoluções socialistas, a ideia segundo a qual “política = criação”. Por isso o PSOL deve ter quadros que se insiram nos movimentos populares ou até mesmo criem movimentos populares quando a inserção é difícil ou improvável. A criatividade é um elemento indispensável para a estratégia popular e revolucionária.

 Uma terceira ressalva ao disputismo é que ele esconde que a Política, no caso das revoluções socialistas, é uma questão de Verdade. E diferentemente das opiniões, que formam os elementos mais importantes das políticas eleitoralistas da democracia da burguesa, Verdades não são disputáveis. Verdades são apenas aceitas ou negadas. Por isso o axioma “Sem movimento de massas, sem revolução” não se presta a disputas ou opiniões contrárias em instâncias partidárias ou nas cúpulas dos movimentos… se presta apenas à realização prática.

Curitiba, 7 de novembro de 2012.

 

 

 

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