O MARX DE TERRY EAGLETON: NOTAS

Por: Romero Venâncio (Departamento de Filosofia – UFS)

Na primeira semana de setembro a revista Cartacapital em sua edição 713 trazia um artigo assinado por Vladimir Safatle intitulado: “Perda de hegemonia”. O filósofo defendia a seguinte tese: já se vão mais de duas décadas em que a esquerda perde a hegemonia no campo da cultura. A direita toma a dianteira na articulação da cultura e influencia amplos setores da juventude brasileira. O autor nos informa que não foi assim. Tivemos momentos na história do Brasil em que mesmo estando numa ditadura (o caso do pós-1964) as rédeas da cultura eram seguradas e garantidas pelas esquerdas. Na música, na literatura, no teatro, nas revistas, respiravam-se uma série de idéias marxistas. Após o “triunfo da onda neo-liberal” da década d e 90, as coisas começam a mudar. A crise das ideias de esquerda e o avanço de um discurso nitidamente de direita ganham mentes e corações e se tornam uma moda de plantão. Não resta dúvida qual a corrente de pensamento mais atingida por essa avalanche liberal: Marx e o marxismo. As universidades na área de ciências humanas é a prova cabal desse isolamento das idéias marxistas e da forma como ser de esquerda no meio acadêmico é tratado. Acaba de sair pela editora Nova Fronteira o mais recente livro do crítico irlandês Terry Eagleton intitulado ironicamente: “Marx estava certo” (Why Marx was right). Um livro destinado a fazer história no campo da esquerda e de representar uma espécie de manifesto em defesa da inteligência e contra a estupidez. O tom é provocativo e irônico, como de costume em tudo o que escreve Eagleton. A “brincadeira” é: e se o capitalismo e seus ideólogos estiverem “errados” e Marx e os marxistas estiverem “certos” sobre a própria natureza do Capitalismo? O autor parte de dez condenações tidas como as mais freqüentes feitas ao marxismo e vai respondendo uma a uma, sem dogmatismos ou sofismas.

  O livro é bem delimitado. Está dividido em dez partes como se fossem dez aulas e sem nenhum subtítulo. A grande sacada de Eagleton foi escolher propositalmente dez condenações tidas como as mais freqüentes ao autor de O Capital e vai refutando uma a uma. O “cardápio de críticas antimarxistas é vasto e variado, mudando de acordo com determinada época. Eagleton as enumera:

– O marxismo acabou, depois de ter relevância apenas no mundo da fábrica e das classes operárias;

– O marxismo pode ser ótimo na teria, mas sempre que posto em prática resultou em terror, tirania ou assassinato (esta uma das mais comuns e utilizadas por direitistas de toda ordem ou revistas idiotas do Brasil, como a VEJA).

– O marxismo é uma forma de determinismo, com homens e mulheres feitos de instrumentos da história (crítica comum na academia, principalmente para estudantes de primeiro período onde a palavra determinismo é citada aleatoriamente e sem uma citação se quer de alguma obra de Marx que justifique tal conceito)

– O marxismo é uma utopia, ao crer na possibilidade de uma “sociedade perfeita” (seja lá que isto possa ser!). Crítica feita mesmo sem haver nenhuma frase que seja em termos de perfeição de alguma sociedade em qualquer obra de Marx. A palavra perfeição muito pouco aparece na obra de Marx e quando aparece é utilizada em termos de senso comum. O que chamaríamos de uso banal do termo. Força de expressão.

– Marx era um “materialista. A matéria determina o espírito (seja lá o que isso for!). Em Marx não teria espaço as reflexões sobre “produção espiritual”, ou seja, a “cultura”.

– A obsessão de Marx por luta de classes é ultrapassada na “sociedade pós-industrial”

– Marx e os marxistas pregam a ação política violenta e são anti-pacifistas. Nunca percebem os críticos mais panfletários que Marx não só foi só um pacifista, mas, argumentou contrário à guerra demonstrando que nas guerras quem vai se defrontar são os trabalhadores lutando contra os próprios trabalhadores de vários países. O lema marxiano sempre foi: “Operários do mundo, uni-vos”.

– O marxismo acredito em um Estado onipresente e onipotente. Sem levar em conta a crítica histórica de Marx ao Estado burguês. O estado é um aparelho de classe e tende a desaparecer numa outra forma societária que não à burguesa.

– Os movimentos sociais e políticos mais interessantes das últimas quatro décadas surgiram sem a influência do marxismo. É verdade que marxismo nas últimas décadas influenciou pouco (em relação aos movimentos do inicio do século XX) uma série de movimentos sociais, mas esteve presente na maioria deles desde pelo menos, o “Maio de 68”. Contra Marx muitas vezes, mas a presença do marxismo era patente.

  Não é aqui em num espaço curto de uma breve resenha que vamos reconstruir cada objeção de Eagleton aos críticos da obra de Marx. O importante é destacar alguns méritos originais do autor. O tom irônico marcante de Eagleton volta com toda força na sua escrita. Em dado momento do texto tentando demonstrar a importância prática do marxismo, Eagleton arremata: “Não existem governos cartesiano, guerrilheiros platônicos ou sindicatos hegelianos” (p.02). A obra de Marx estaria presente em todos eles e isto não é pouco para uma teoria. Uma das argumentações mais inteligentes e de caráter existencial é a de que a obra de Marx é um “antídoto” contra todas as formas de niilismo que se espalhou pelo ocidente desde as primeira s décadas do século XX e ganhou charme no século XXI. Longe de desmerecer a prosa de uma série de “pensadores niilistas” como Cioram, Eagleton destaca o individualismo e a ingenuidade dos “niilistas” perante a lógica cruel do Capital que a tudo utiliza para transformar em mercadoria, até o próprio niilismo que vira mercadoria fina na boca de burgueses fastiosos de alguma “espiritualidade”. Enganam-se os que pensam em encontrar no livro Marx estava certo alguma receita dogmática de como defender o marxismo de toda sorte de críticas. Jamais teremos isto na escrita de Eagleton. Logo de início ele nos informa: “Isso não significa que Marx jamais tenha dado um passo errado. Não pertenço àquela leva de esquerdistas que piamente proclama que tudo está aberto à crítica e depois, quando instado a produzir três grandes criticas a Marx, se recolhe a um silêncio trucu l ento… Estou aqui para apresentar as ideias de Marx não como perfeitas, mas como plausíveis”(p.01). Para mim, aqui esta a mais importante argumentação do autor: as idéias de Marx não são perfeitas (porque históricas e limitadas no tempo), mas plausíveis, ou seja, racionais e legitimas como criticas ao capitalismo. Na linha de Eagleton: não há nada de absurdo em se denominar “marxista”. Trata-se de uma “posição filosófica” perante o mundo e ao mesmo tempo uma forma de ação radical contra todas as formas de expressão do Capital. Trata-se de um posicionamento de classe num mundo cada vez mais classista, onde cada vez mais os trabalhadores são massacrados numa engrenagem perversa e onde magnatas cada vez mais se tornam magnatas de toda ordem e em caráter global. Mas um alerta final cabe aqui: “Marx não fez da produção material um fetiche. Ao contrário, achava que ela deveria ser abolida na medida d o possível. Seu ideal era o lazer, não o trabalho… Seu materialismo era plenamente compatível com convicções morais e espirituais profundas” (p.198). Esta operação em muito lembra um trabalho escrito nos anos 90 pelo sociólogo humanista Rolando Lazarte, Max Weber: ciência e valores (editora Cortez) com a obra de Weber contra os seus detratores. O sociólogo argentino num texto singular defende um “Weber caleidoscópico” contra a leituras unilaterais desse grande sociólogo alemão e nos apresenta um Weber próximos às reflexões sobre a próprio sentido para vida num mundo desencantado. Trabalhos como o de Eagleton sobre Marx e de Lazarte sobre Weber, ambos fazendo “leituras heterodoxas” em relação á tradição estabelecida nas academias, honram a própria academia e nos fazem ver/ler/sentir grandes pensadores como o são (Marx e Weber) naquilo que nos instigam enquanto sentido para vidas frágeis po rque humanas.

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