A Militância encontro entre o Lírico e o Épico.

Por Venancio Guerrero.

Para meus camaradas de militância, que ademais de companheiros de luta, são grandes amigos.

Um cotidiano massacrante. Dias. Dias. Anos. Ciclo. Nasce. Cresce. Economiza e Morre. O Tédio para os medianos. O Hedonismo desumanizante para os filhos burgueses. Para os proles menos ainda. Para aqueles que têm apenas energia e força de seu trabalho, ah! Para estes apenas o fútil. Apenas o cotidiano de ir a algum lugar alugar-se para outros homens e mulheres, quando rola algum trabalhinho. Quando não? É o tédio, mas de uma qualidade diferenciada, não aquela dos medianos, não, não, é um tédio horrível, o tédio do desemprego.

No final sempre, sempre, sempre, para todos: Andar em volta de mercadorias, O Centro Comercial o Sol. As Coisas planetas. Os Homens e Mulheres apenas satélites. O pragmatismo é a religião de todos. “O Agora meu camarada”. “Grana, porra!”

Como ter lírica assim? Sim é possível, pois do tempo tédio, nasce também o tempo da dor. Como não? Acordar no tédio frio e lento, também ensina o fogo da des-rotina. Pois sim, você acha que todos os dias vai acordar e tomar o café na mesma cozinha tosca? Não camarada, tudo pode piorar, pois a polícia vem e te despeja, arranca no frio da madrugada o teu barraco. Mas, eu comprei esta casa, não, não importa. Você está no lugar que devia dos meus Desejos. Pois sim, aqui eu farei coisas, e o ser humano não importa.

Pois, sim, como você homem/mulher que faz filhos, ignorante, negro pobre, índio pobre, mestiço pobre, menos que nada, quer ser mais valioso que uma ponte, que um elevado, que um rodoanel, que um estádio, que um condomínio de luxo bonito? Não. Absurdo. Queremos que você construa estas coisas, mas não usufrua. Pois sim, você deve ir-se daqui.

Aí, o tédio da rotina se desfaz. As máquinas vêm e querem retirar tudo, e o que era ruim, agora piora, enfim. Que fazer? Da rotina, acabamos criando outro tempo, ou criamos uma rotina ainda pior, morar mais longe, e viver com mais dificuldades, trabalhando para os que te expulsaram. Ou fazemos a lírica da luta. Sozinho, como?

Enfim, aqui entra a lírica dos sonhos. Porque o tempo da mercadoria, também é o tempo dos sonhos. Pois sim, é verdade que acordamos no tédio, escovar o dente, café da manhã, trabalhou ou escola ou ficar vendo sessão da tarde, sim, verdade, é tédio, pois repetição sem conteúdo. Mas, também sonhamos. Erramos, pois acreditamos que o consumo resolve nossos sonhos. Queremos comprar nossos sonhos, queremos comprar o amor, a emoção, a sensibilidade. Vivemos nos filmes o lirismo que não temos no dia-a-dia.

Enfim, enfim, mas também nos frustramos, e criamos espaços de angústias, espaços coletivos. Nossos amigos, nossos entes amados, nossos conhecidos, nossa família. Tudo ou mais nos propõe e nós propomos sempre mais do que existe. Aqui, voltamos ao desequilíbrio do médio e do estável do tédio, pois sim, as frustações são rixas, rachas, e brigas, não somos autômatos no trabalho, não acreditamos nas mentiras da escola, do jornal e de todos que falam que está legal, mas não está legal. Nossos amigos nos lembram, nossos desejos querem mais. Conversamos, rimos, vamos aos bares e conspiramos contra o Tédio! E, quando vem o Dia do Caos, lembramos destas conspirações. 

Sim. Sim. O lirismo canta contra a realidade da mercadoria e do caos. Enfim, meu camarada, teu cotidiano não é estável. Teus amigos te lembram que podes viver, que podes cantar. Os bares e a tentativa de emoção rompem com o Sol do Mercado. Ah! Aqui vemos que é necessário lutar, pois não podemos aceitar todas as explorações do cotidiano de fogo e caos, e rompemos com o círculo do tédio. Rompemos. Rompemos.

 A União, nossa sensibilidade de solidariedade nasce entre os entes queridos que se frustram com a gente, em relação a falta de perspectiva na compra do sonho. Não conseguimos! Conspiramos esta impossibilidade em dias de tédio. Quando o caos nasce, encontramos nestas conspirações, que são líricas, o canto contra tudo isto.

Companheiros, mas é necessário reverter este lirismo em militância. Em luta. Sim. Sim. Usar das conspirações para fazer luta. Para ligar o individual com o Político. Aqui, é necessário o Épico, que rompe com meu entorno, que vai além, que vai para a História. Aqui vemos, que as rotinas tediosas estão ligadas com o tempo amplo, com o longo tempo. O caos que rompe com o tédio está ligado com o Caos dos que ganham com a desumanização de todos. Malditos homens de ternos que criam deuses que os dominam, este Deus é o Mercado, é a Mercadoria, o Desejo de fazer coisas pelas coisas, de fazer mais e mais e mais. Tenho milhões de estrelas e daí?

Enfim, a militância é o canto do eu e do meu entorno, une minha, tua, nossa conspiração em sonhar contra o consumo dos sonhos. A Militância é a atuação no dia dos caos contra minha realidade, no desemprego da crise generalizada, ou nas horas extras no caos do crescimento, no dia do despejo, no caos ambiental e da enchente. Pois, é uma postura do pequeno, do individuo contra o Caos gestado nos dias de Tédio.

Mas, vai para frente, pois nos liga com as tarefas históricas de romper com a estrutura que cria o pendulo entre caos e tédio. Enfim, é movimento, é espaço, é articulação de massas, de pessoas, de muitas pessoas. Mas, senão tem, enfim, organize porra! Organize no teu bairro, no teu local de trabalho, na tua escola, enfim, faça alguns grupos pequenos e grite contra as injustiças que mechem com teu cotidiano.

 Enfim, enfim, enfim. Assim, podemos ir para frente, ligar o individual com o geral. No dia de caos, todos começam a romper com o tédio, a tomar posturas líricas, ali estará um militante para ajudar na organização desta postura lírica em momentos épicos. Enfim, lá nós estaremos com nossas conspirações nos bares, com conspirações por verdadeiros sonhos. Apontamos mundos para além do tédio, apontamos cotidianos com conteúdos de sensibilidades na flor da pele, com canções cotidianas de lirismos! Enfim, mesmo em dias de tédio criamos lirismos que nos ligam com o Épico, pois somos militantes. 

 

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