Maluf e o PT.

Por Paulo Spina* e Venancio Guerrero**.

O Maluf abraça o Lula e agora são aliados nas eleições pela prefeitura em São Paulo, se alguém dissesse isto em 1986, ou mesmo em 1996, seria considerado um louco, ou um sectário completo. Porém, agora é um fato publicado em foto, consagrado na política e orgulho de Lula e Maluf. As justificativas não faltam, “O Maluf é um morto politico, e a política tem destas coisas, queremos seu tempo de televisão, ele não vai influenciar no programa”.

Política é uma questão prática e aliança também deve ser coerente com os fins buscados, mesmo que os meios nem sempre sejam em princípio iguais aos fins, eles devem visa-los. Busca-se um caminho no qual devemos percorrer para chegar efetivamente naquilo que propomos, isto é, nosso resultado. Quando sacrificamos peças num jogo de xadrez, o fazemos pensando no resultado final. Para quem foi criado na esquerda brasileira, este resultado é a superação das desigualdades históricas brasileiras. Mas, o que significa a aliança com o Maluf para chegar a este fim? Isto é, o que é Maluf na Cidade de São Paulo?

Maluf reflete um modelo de cidade.

O eixo de desenvolvimento da Cidade de São Paulo é produção e consumo de carros. Assim, edificou-se uma Metrópole integrada com base na indústria automobilística: a construção de estradas, elevados, e do máximo individualismo, sacrificando toda a qualidade de vida e mobilidade. É a geração de um tipo de emprego, num mercado restrito, que monopolizou os fundos públicos, enquanto a saúde, o transporte público e a saúde foram relegados a um discurso difuso e demagógico.

Aqui, gerou-se uma Cidade consumidora do aparato de carros, o eixo central de toda região metropolitana. Bem como, seu gigantismo, enquanto centralizadora de recursos públicos e de pessoas, produziu a Cidade como um Negócio. Isto é, era preciso explorar a Cidade como um capital para gerar excedentes.

Neste sentido foi construído um mercado imobiliário profundamente desumano (existe humanidade no mercado?), pois os promotores imobiliários monopolizam terrenos, especulam e criam uma situação insustentável para o trabalhador, que tem de morar longe, ou buscar o recurso a auto-moradia.

 Bem como, o despejo representa um recurso para valorização da Cidade, é a velha máxima: “comprar barato para vender caro”, “deixamos degenerar esta parte da cidade, depois nos apropriamos, vendemos caro”. Quem se apropria? Os promotores imobiliários. Quem é desapropriado? O povo pobre que trabalha para a cidade. Como é desapropriado? O Estado por meio da violência legalizada: a Política dos despejos.

Isto representa o Maluf: A cidade dos carros, das estradas, dos elevados. A cidade dos promotores imobiliários e a cidade dos despejos. Num mundo em que a ecologia, isto é, em que a questão da qualidade do ar, dos rios, da natureza, têm um impacto na saúde do cidadão, a única política do Maluf para rio Tietê é acabar com ele de uma vez, fazer dele mais outra estrada. Quantos rios não viraram estradas? Aqui, geram-se empregos com a construção de avenidas, demandam-se pessoas do Brasil Pobre, o que gera mercado para os promotores imobiliários explorarem ainda mais seu monopólio. Os carros produzidos no ABC paulista, terão mais espaço para locomover-se, quem sabe no Rio Tiete?

Maluf não é apenas tempo de televisão, ele representa São Paulo enquanto Negócio para uma minoria explorar uma maioria. Plinio de Arruda Sampaio já disse: O Brasil é profundamente desigual, não se combate a desigualdade com bolsa-família, mas atacando sua raiz. Não é aliando-se com o Maluf que vamos superar esta contradição, pois ele representa a produção deste Brasil Desigual.

Maluf reflete um modelo de oligarca.

São Paulo é a cidade dos espelhos, a Nova York brasileira, nosso Wall Street é a Avenida Paulista. Moderno? Sim. Mas, o moderno está ligado ao atraso. Pois, São Paulo é a cidade dos pequenos oligarcas, do pequeno capital que domina o território e os bairros como se fosse seu curral eleitoral. A corrupção de negociar dinheiro em troca de votos, o clientelismo que gera mensalões.

As grandes obras e o emprego para criar elefantes brancos que reproduzem esta cidade dos carros, também geram corrupção. A máxima é: “O patrimônio público é meu”. Aqui, o clientelismo da colônia se junta ao moderno capitalismo brasileiro. É o Ornitorrinco, expressão sagrada por Francisco de Oliveira, uma mistura de mamífero com ave e réptil.

Assim, geram-se máfias que usam do negócio chamado “Cidade de São Paulo”: a máfia dos transportes, que usa da demanda por mobilidade para gerar lucros extraordinários, são as empresas de ônibus que prestam um serviço péssimo (ora muito veloz, ora muito vagaroso), cobrando R$ 3,00.

 A corrupção é isto, a corrupção é Maluf, que gera empregos com desigualdade, reproduz o capitalista mais moderno com o oligarca corrupto, coronel do bairro, o vereador dono de seu curral eleitoral. Isto tudo é o Maluf. “Rouba, mas faz”: O fazer com e pela desigualdade.

 A Aliança do PT reflete acordo tácito com este modelo,

A Aliança com o Maluf representa o acordo tácito do PT com este modelo. O fato de não haver mais ojeriza em relação a este político, que não está morto, e sim vivo, representa uma aproximação com este modelo. Aliar-se com o Maluf, significa a morte do pobre democrático-popular de Erundina de 1986 que tentava combater a máfia dos transportes com o projeto “Tarifa Zero”.

Isto é o concreto da política. A Aliança para consolidar um grupo no poder, o PT. Pois, o caminho que aproxima Lula de Maluf é a aceitação deste modelo de Cidade e de Política. O modelo de desenvolvimento baseado em grandes obras e na moderação com os oligarcas da política e economia: A Copa do Mundo e a aliança com a CBF como modelo de geração de empregos; são os “Cachoeirinha’s”; a corrupção com “Ong’s” do esporte; enfim, o “Plano Minha Casa Minha Vida” que estimula os promotores imobiliários e gera uma inflação de aluguéis e de preços de moradia.

Aqui, o resultado não é mais a disputa de um projeto de sociedade.  O PT moderou com os poderosos e aliou-se com eles. O próprio Maluf visualiza que para manter-se vivo e reproduzir seu feudo, seu território político de oligarca, é necessário abraçar o Lula. Pois no projeto do PT isto é valido, é o crescimento econômico com a reprodução da desigualdade estrutural dos monopólios, e da manutenção da política que une a oligarquia com o cassino financeiro. O PP já fazia parte do Ministério das Cidades. Agora, sacralizou-se esta aliança para a Cidade de São Paulo.

O PSDB também é isto, a Soninha Francine um pouco.

Parece que queremos dizer que o Maluf é a síntese deste modelo de São Paulo. Não. Ele é um símbolo. Mas, São Paulo é assim por causa dos tucanos, do Serra, do Alckmin, do FHC. Um partido que surgiu como o moderno do capitalismo contra os coronéis. Porém, desde que governou, fundiu esta burocracia desumana dos promotores imobiliários e da indústria das estradas e dos carros com a oligarquia mais atrasada. Eles reproduziram este modelo em escala ampliada, às privatizações e às concessões fraudulentas como a Alstom representam esta inovação. A revitalização da Luz serve para quem?

Kassab é um herdeiro político deste modelo, e o administrou desumanamente. Agora com uma nova tática mafiosa, a política do “PSIU”, que num discurso conservador de “não ter barulho”, faz chantagem com diversos bares, fechando o que há de cultura na cidade, àqueles que pagam a propina ficam.

Enfim, a Soninha Francine entendeu isto também e cavou seu espaço. Representante do setor da classe média supostamente iluminada, mas extremamente individualista, conseguiu seu carguinho com o PSDB e busca tirar votos dos radicais. Pois, ela tenta traduzir a política privatista e desigual do transporte público para o paulistano que ama São Paulo, “nós temos o melhor metro do mundo”, “estão boicotando o transporte em 2010”. Ela não viu problema nenhum depois de um acidente da Linha Vermelha. Agora, diz que o problema de São Paulo é o barulho, reforçando a política do Kassab, não se enganem: a Soninha está essencialmente ligada ao modelo de cidade representado por Maluf.

Infelizmente, o PT também. Porém, pensamos que isto reflete uma linha essencial da moderação “Não precisamos ser radicais, calma, vamos criar uma estabilidade e depois resolver os problemas”. Mas, isto representa no concreto da política, que temos de moderar com os poderosos, com os corruptos, com os oligarcas, com a máfia de transporte, com o Maluf.

Por isto, os radicais foram expulsos, ou negados. Nós do P-SOL nunca defendemos este tipo de moderação. O único setor com que devemos moderar é com o trabalhador em São Paulo, não com o Maluf, com ele devemos ser radical, não há como ter uma cidade voltada para os carros e chupar dinheiro dos fundos públicos. É necessário combater a especulação imobiliária com o Estado controlando o acesso aos terrenos urbanos, diminuindo preço de aluguel e de casas (desapropriar imóveis vazios), aqui entramos em confronto com muitos oligarcas. Por isto somos radicais e nunca estaremos com o Maluf, pois cremos que é a única forma prática de resolver os problemas de São Paulo.

*Paulo Spina é professor de Educação Física, militante da Saúde e da Educação, pré-candidato a vereador pelo P-SOL

** Venancio Guerrero é economista e militante do P-SOL.

 

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