É necessário superar o progressismo se quisermos acabar com os Golpistas.

Por Venâncio Guerrero e Lucas Perucci

Quem matou?

Um assassinato. Não era um assassinato, sim um acidente. Ser ou não ser um assassinato? Bom, tanto faz. Se a pessoa está morta, que importa o fato que gerou? Importa para fazer justiça aos mandantes do assassinato. Mas, e se estes mandantes forem homens do Poder? Aqui, está o fulcro da questão de Z de Costa-Gravas, clássico do cinema, que utiliza a letra grega Z para significar “Ainda está vivo”. É um filme que reflete a morte de uma liderança esquerda, que de fato acabou levando à ditadura militar na Grécia.

O filme se desenrola na maior parte do tempo com um promotor, investigando o assassinato de um médico e deputado de esquerda, George Pirou, executado por um bando criminoso, porém, todos os indícios montados eram de que ele havia sido vítima de um acidente. Este era a versão “oficial do caso”. Ao mesmo tempo, que a disputa da esquerda era a versão contrária: “um assassinato”.

Depois, de sua morte, a polarização política vai se tornando mais intensa e pesada. Porém, a esquerda que fica com legado do doutor, um pacifista de primeira linha, não aceita radicalizar e levar a cabo uma luta armada.

Enfim, para encurtar a história. O promotor descobre que de fato era um assassinato, e os militares estavam por trás do bando criminoso, como perderam a simbologia, os assassinos acabam por dar o golpe na Grécia. Matam o promotor ordeiro, e liquidam a esquerda que morreu sem radicalizar.

A importância da luta simbólica: É um golpe.

Enfim, este foi um filme baseado em determinada época histórica e de qualquer forma era ficção. Porém, passados mais de 30 anos, nos encontramos em uma situação similar. Em vez da morte de um deputado, temos a destituição de um presidente, o paraguaio Fernando Lugo. Portanto, a verdadeira questão: foi ou não um Golpe? A disputa por este nome, e sua simbologia, atualmente são de grande relevo para a movimentação do xadrez da política internacional.

A versão “oficial”: Juízo legítimo dado por um parlamento também legítimo, as formalidades todas postas na mesa. Enfim, o processo se complica se analisamos o conteúdo, e não ficamos nas formas.

Não há e nem houve uma manifestação mínima do povo pedindo a cabeça de Lugo. Distintos, dos 6 meses que duraram a destituição de Collor no Brasil. Por outro lado, tratou de um critério simplesmente teatral, com 48 horas, sem direito a ampla defesa e revogação, nada. A sentença já havia sido dada há 3 anos, dizem alguns. Enfim, a questão é o conteúdo antidemocrático, pois quem o decidiu, o fez a partir de interesses de um setor ligado às forças mais atrasadas da América Latina.

O Partido Colorado, nossa banda criminosa da vez, partido que ditou às regras do Paraguai por 65 anos e o partido Liberal foram às forças que ditaram o golpe e não uma decisão soberana do povo. Todos estes setores ligados ao narcotráfico, ou aos coronéis da soja defendiam uma minoria rica do país. Enquanto, a maioria da população sem acesso a terra, ao trabalho ficaram assistindo o teatro de seu parlamento. Enfim, foi um golpe. E, talvez devemos investigar mais para saber quem são os verdadeiros “mandantes desta banda criminosa”.

Outra importante questão

Enquanto, nossa investigação ainda é parcial (1), vamos para outro debate. Enfim, temos um Golpe que deve ser caracterizado como um Golpe. Dito assim: “Isto é um golpe de um bando criminoso na América Latina”. Quando chegamos neste ponto, voltamos às nossas feridas de Golpes. Ao trauma latino-americano, de Allende no Chile, João Goulart no Brasil à Jacob Arbenz na Guatemala, entre muitos outros exemplos na nossa conturbada região.

Como já houve o precedente de Honduras e a tentativa na Venezuela, Bolívia e Equador, começamos a nos preocupar com a expansão consistente destes Golpes Burocráticos. Enfim, que temos a temer? Dificilmente, se o PAN ou PRI mexicano levassem um golpe, seu povo estaria preocupado, nem nós, ou mesmo, seria quase impossível que assim o passasse, pelo menos pelas vias oligárquica e formal. Pois, estes governos não ameaçam às hordas conservadoras, nem aos Estados Unidos. Lembrando que se o povo os retirasse, não seria um golpe, seria a mais fina legitimidade democrática, pois a maioria de fato e realmente participativa decidiu que não os queria mais.

Enfim, existe muitos governos ditos progressistas que levantam o medo dos golpes. A questão, a saber: estes governos ameaçam? e se sim, que devemos fazer para evitar estes golpes? Esta é uma das preocupações de Fernando Marcelino, num texto publicado pelo Antes da Tempestade (2). Aqui, queremos entrar em uma polêmica fraterna, com alguns elementos deste texto.

Balanço do Progressismo: A crença na democracia liberal.

Em termos de linhas principais deste texto, já ficou evidente nossa concordância, do perigo dos golpes na América Latina. Porém, cremos que é necessário ponderar algumas questões. Primeiro, nem todos os governos citados pelo companheiro, são necessariamente tão ameaçadores, e os fatos citados não devem ser aquilatados como um factóide golpista.

Vamos para o nó da questão: O Brasil de Dilma. Fernando Marcelino cita a corrupção como forma da direita golpista paralisar a máquina do Governo. De fato, foi a Direita que plantou a corrupção no governo do PT. Porém, menos como uma forma de desestabilizar o governo, e mais como algo para estabilizar o regime democrático no país.

Enfim, a direita plantou-se no coração do PT. Em duas mãos, tanto na corrupção interna, que é mais para consolidar a máquina que para enriquecimento ilícito, quanto na de outros partidos. Pois, viu-se uma corrupção de partidos aliados, e tradicionalmente ligados à oligarquia brasileira, porém base do Governo e do modelo de gestão do atual capitalismo brasileiro.

Isto é, o Cachoeirinha faz parte do dinheiro-extra necessário para o capital fazer as obras, acumular e gerar os empregos que o governo do PT quer. Os partidos para votarem com o governo, cobram sua parte. Bem como, a corrupção do PC do B no ministério dos transportes ou do PMDB existe como forma dos fundos públicos escoarem sua geração de multiplicador de renda. Aqui, a burocracia cobra seu quinhão, para crescer o bolo democrático do crescimento econômico. Enfim, isto não é golpismo.

Está bem longe disto. Isto é estabilidade na mais fina flor do capitalismo brasileiro, desenvolvimento dos elementos políticos e econômicos que crescem nossas forças produtivas às custas da alimentação de burocratas e capitalistas. Forças estas, crescendo numa razão cada vez mais desproporcional com as necessidades reais humanas, vejam nossos carros entupindo os centros, é tecnologia que produz destruição. Enfim, limpando este meio de campo, aqui podemos dizer: não há Golpe.

Quando e onde devemos temer?

Aqui, no Brasil ainda não há o que temer, mas a questão ainda persiste, os golpes vieram e ameaçaram outros países. Mas, esta ameaça vem da estabilidade brasileira e não de uma suposta instabilidade. Pois, o regime baseado no eixo desenvolvimentista, fortaleceu a direita conservadora ligada ao agronegócio.

Aqui entramos em um ponto delicado, se a Monsato tem a ver com o golpe, o modelo de exportação de soja também tem. Quem mais ganhou e reforçou este modelo? O Governo do PT. Aqui, foram subsídios e subsídios, uma intervenção política ativa a favor do agronegócio e uma falta de comprometimento com a reforma agrária. Quem é o setor mais conservador no Paraguai, depois do Narcotráfico? Os Brasiguaios que ocupam terras do Paraguai para exportar soja, enquanto o povo não tem que comer.

Enfim, nossa estabilidade ajuda a desestabilizar os outros povos. Pois, não são os projetos transamazônicos, financiados por empreiteiras brasileiras que estão gerando conflitos e instabilidade do Governo Evo Morales na Bolívia e Rafael Correa no Equador? E, que falar da Petrobrás, e a política draconiana do gás? Será que o Governo argentino não deveria reestatizar a Petrobrás lá também?

O Governo Brasileiro não poderia implementar um projeto de desenvolvimento acadêmico, para desenvolver tecnologias realmente novas, para problemas candentes, e gerar Outra Indústria? Não pode. Por que não é nosso papel, pois gerimos o capital internacional como sócio irmão do imperialismo internacional, estamos gerindo o tal do IIRSA que visualiza a construção de estradas e rodovias, com a exportação/expropriação de recursos naturais para os Estados Unidos, quem estiver na frente, deverá ser aniquilado.

Aqui, os golpistas ganham com os conflitos. Pois, economicamente se fortalecem. Tem mais dinheiro para financiar suas máquinas de manipular pessoas, e também para garantir a paz armada de seus chefes militares. Com uma política que modere com eles, sempre, de fato, vamos estar alimentando nossos bandidos.

Como combater nossos fantasmas?

A necessidade de ruptura com o modelo latino-americano, passa por uma radicalização para fora da institucionalidade que alimenta estes mesmos bandidos. Aqui, os chilenos têm muita experiência. Para romper com os golpistas em toda América Latina é necessário cortar sua raiz econômica, desapropriar seus monopólios, principalmente a terra e os meios de comunicação, bem como, desapropriar o burocratismo.

É óbvio que agora a palavra de ordem é Unidade contra o Golpe, mas é necessário refletir a operacionalização da morte dos golpistas, que deve passar pelo fortalecimento de instituições de poder nos aforas do institucionalismo burguês: a construção do poder popular enquanto espaços efetivos de poder, porém, conflitantes com o Estado Burocrático das Repúblicas Oligárquicas Latino-Americanas. Aqui, passa por construirmos espaços de poder nos locais de trabalho, de moradia e de estudos, bem como, novas forças armadas. Mas, para isto a esquerda deve apontar para um conflito real com o capital, na sua raiz. Não podemos morrer como o médico do Z, nem escolher os fantasmas inexistentes.

(1) https://antesdatempestade.wordpress.com/2012/06/24/monsanto-golpea-en-paraguay-los-muertos-de-curuguaty-y-el-juicio-politico-a-lugo-2-2/ y https://antesdatempestade.wordpress.com/2012/06/26/paraguay-la-transnacional-rio-tinto-alcan-y-el-golpe-de-estado/

(2) https://antesdatempestade.wordpress.com/2012/06/25/depois-do-golpe-no-paraguai-por-uma-verdadeira-revolucao-cultural-na-america-do-sul/

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