Superar o Taticismo. Protagonizar a política

Por Vinícius Oliveira e Agatha Cristie

Mas para que uma crise possa desembocar em uma vitória, falta às três condições enumeradas um quarto elemento que as combina: um projeto e uma vontade política, capazes de decidir no instante crítico entre vários possíveis. O partido políticos não tem, em Lenin, a função quase que exclusivamente pedagógica que lhe atribui Kaustsky. Não é nem um simples reflexo do movimento social, nem um modesto portador de idéias, mas uma peça central do dispositivo estratégico. Quem diz estratégia, diz decisão, projeto, correlação de forças. A educação faz parte disso. Mas quem diz estratégia, diz também batalhas, provas em que o tempo não escoa de maneira uniforme, onde ele conta em dobro, em triplo. Se a revolução é social e política, seu destino definitivo é decidido militarmente, na ação insurrecional de Outubro, que agarra a ocasião pelos cabelos, na precariedade do instante. A experiência é eloqüente. A escolha do momento é absolutamente crucial, como atestam as exortações de Lenin ao Comitê Central reticente, durante os meses de setembro e outubro. É o momento! É preciso decidir-se! Agora. Não amanhã, nem depois de amanhã. Hoje. Porquê, precisamente, o tempo não é indiferenciado. Deve-se agarrar o momento oportuno. No que Lenin faz política e elabora sua temporalidade própria. A de um tempo partido.” (Daniel Bensaid-Lênin e o tempo partido).

 

Não existe nada mais anti-democrático que o tempo. O tempo não espera, não aguarda. Tão importante quanto a política é o momento que você incide nela. Toda organização para existir tem que ter uma vida democrática, que faça debates reais, que possibilite sínteses. Porém, antes de tudo é necessário incidir na realidade, para poder fazer vivo este debate, isto é, o debate pelo debate não poder implicar o fundamento real de uma organização existir . A realidade é colocada por uma junção de diversos fatores, mas principalmente em correlação de forças e o tempo histórico. Quando a organização discute eternamente e não incide mais coesa na realidade, ela acaba se tornando supérflua do ponto de vista da luta de classes. Ela perde sua práxis política real e planejada, torna-se taticismo político o tempo todo. E acima de tudo, nega as teses da práxis, de que não temos a síntese programática. Não trata-se apenas de fecharmos em nós, mas de reconhecer que encontraremos contribuições para a síntese na luta real e concreta de massas.

Quando um coletivo ou grupo local, ou militância se exime de fazer uma formação política e refletir sobre a sua atuação por “falta de tempo”  é uma OPÇÃO POLÍTICA. Quando o organismo nacional decide passar reuniões de 3 horas decidindo o que fazer com a crise A ou B, e passa 1 hora pra discutir uma greve, uma manifestação, é uma OPÇÃO POLÍTICA. Ou seja, o que fazemos com nosso tempo é uma OPÇÃO POLÍTICA. Nesse sentido, em espaços nacionais, quando não conseguimos debater todos os textos por “falta de tempo” e, uma política é decidida, sem contribuirmos para tal, é uma OPÇÃO POLÍTICA.

Taticismo é quando a organização ou o militante responde à conjuntura por causa de alguma ação ocasional. Exemplo: É como se o trabalhador que é explorado pelo patrão todo dia, visse uma trabalhadora ser demitida e humilhada e agredisse o patrão, por resistencia e tudo mais, e também fosse demitido. Ele reagiu ao momento de maneira que seu coração lhe convinha, isso é legítimo, mas se ele tivesse refletido e juntasse as testemunhas, procurasse o sindicato, poderia sair uma greve da categoria contra essa situação de forma geral, contra demissões injustas e contra o assédio moral, ou seja, ia levar o caso pontual para o ponto da política.

Várias vezes na esquerda encontramos-nos atolado num Taticismo sem tamanho. Tudo muda, porque o previsível que ia alterar, altera um pouco mais ou menos. Reavalia-se eternamente o planejado porque tentamos agir de uma maneira pifia, sem força, sem confiança, por alguns poucos instantes. Sempre encontramos culpados: “a conjuntura” não permitiu, a classe não compreendeu, os estudantes estão super conservadores, as outras forças políticas são bizarras e etc. E sem perceber, caímos em uma auto-proclamação sem tamanho.

Auto-proclamação mais taticismo é um perigo sem tamanho. Leva a distorções, focada no internismo. Temos que ser melhores pra responder tal momento, então procuramos e elegemos alguns nossos como “direção”, para negar os que não estão no nosso coletivo. Não trata- se de um esforço real de compreensão inclusive do que os outros camaradas estão colocando. Falsificamos uma direção, porque ela não tem prerrogativa, e nem quer responder questões que são urgentes.

A Auto-critica é apenas inicio de fala pra justificar meu discurso. Ela não é possibilidade de modificação da práxis. Organização é pra debater a própria organização? Atuação real e concreta feita de forma meramente Intuitiva? Afinal a culpa é do outro, da outra organização ou então do tempo(coitado do tempo!).

Análise de conjuntura serve apenas para título de autoridade, porque ninguém usa a palavra conjuntura. Ledo engado, pois as pessoas analisam sua realidade o tempo todo, quando reclamam do aumento do pão, do juros do cartão, da falta de moradia, da burocracia. Etc. Devemos superar este tipo de prepotência, ao mesmo tempo, que o simples enunciar dos problemas. A Análise de conjuntura em uma mesma organização deve ser a mesma, porque deve tentar prever a realidade. Não trata-se de ser mãe Diná, mas sim de teorizar e elencar elementos para pensarmos nossa práxis. Análises de conjuntura que não apontam tarefas de curto, médio e longo prazo não nos servem. É diletantista, sofismo barato e academicismo no mais xulo dos termos.

Democracia real só existe dentro de sujeitos reais, que tenham o mesmo objetivo estratégico. Ou alguém acha que vai existir democracia entre classes distintas? Ou entre sujeitos que tenham estrategias diferenciadas? Pessoas que tenham confiança política entre si, e reconheçam que temos que ir modificando a condução política, afinando dialeticamente estrategia e tática, condução e educação da política, aproximação e afastamento de camaradas valorosos próximos. Que possamos chegar a SÍNTESES momentâneas.

Debates que criam desconfiança política e moral não podem coexistir dentro de uma mesma organização. Uma coisa são críticas na condução da política, outra é tratar com taxações que emperram o debate e a auto-critica, a possibilidade de síntese, ou a formação de colcha de retalhos de análises e atuações, pra não aprofundarmos às divergências. Nem sempre mediar, e formar colcha de retalhos é democracia. Se é fração pública então não somos mais a mesma organização, se eu pego no microfone pra dizer que a organização pensou A e o camarada pega o mesmo microfone pra informar que a mesma organização pensou B, então não somos a mesma organização e nem temos disposição pra sermos.

Valores militantes tem que ser entendidos no campo da política. Se por companheirismo, camaradagem, solidariedade, eu acompanhar um camarada em uma reunião de outra organização de esquerda, eles não vão aceitar, porque isso na política tem nome: “Entrismo”. Mesmo que eu ficasse calado, seria “espionagem”. Se eu vazasse a relatoria seria total “falta de ética”.

Temos que desconstruir esse debate do campo romântico para campo do materialismo histórico e da dialética. Em uma conjuntura de ascenso dos lutadores não vamos abrir democracia para a burguesia, não vamos ter solidariedade ou respeito pela sua propriedade e todos aqueles que optarem por defendê-la. Se fizermos esse discursos dentro desse campo moral deslocado da conjuntura, corremos o risco de cairmos em discursos de direita, como a da revista “Veja” que classifica “Che” como um assassino de sangue frio.

Se não assumirmos coletivamente e realmente o valor da contradição cairemos num isolamento romântico e em crises existenciais niilistas desprovidas de sentido), como: “ninguém prestará”, “nenhuma militante prestará”, “nenhuma organização prestará”, “nenhuma mobilização prestará”, “nenhuma revolução será a minha”. Porque o meu “Eu” não está disposto a conviver com a maior razão da nossa existência enquanto militante. A contradição! O capital é contraditório, mas nos impõe a necessidade de sermos coesos .

E nós somos contraditórios por essência, e seremos até vivermos, e superar as relações sociais dessa sociedade. Ou você é companheiro pra emprestar dinheiro pro seu camarada ir pra festa, ou viajar pra uma atividade da militância, mas não doa 2 reais pro mendigo na rua? Esse debate é perigoso, se não assumir a contradição e o caráter pedagógico e conjuntural dos valores militantes. E uma das primeiras questões é assumir o valor da CONTRADIÇÃO, em todos os aspectos. O contrário disso, no campo da política, leva a auto-proclamação, ao idealismo não marxista, ao sectarismo.

A conjuntura pede uma organização que queira protagonizar a política, a realidade! O tempo não é linear! Ele anda mais rápido em momentos de crise estrutural, começa a contar duplicado, triplicado. 2009 é diferente de 2010. 2012 é diferente de 2011. Não trata-se de evolução, linearidade. Não agir ali, pode ser fundamental no futuro. Cristalizar debates, formulações podem levar à uma auto-proclamação, ao distanciamento.

E, para protagonizar esta política, é necessário, hoje: formação política, disciplina mais forte, maior comprometimento de tempo. Assim, devemos evitar uma militância passiva e alienada, que não aceita comprometer-se com a totalidade das tarefas. Entendermos o debate de conjuntura internacional e dos novos movimentos, compreender o patamar da crise estrutural do capital que vivenciamos, da mais fina análise de conjuntura brasileira e local para que possamos avançar nesse terreno lamoso. Que compreenda melhor a classe trabalhadora, que é classe, mas tem cor, gênero e opção sexual, para que possamos aprimorar nossas formas politico-organizativas. E acima de tudo, que queira ter um programa vivo, aberto, democrático pra dentro e para movimento, que não cristalize debates, ou idealize os mesmos. Um programa que mobilize, que leve em conta o avançar do processo de consciência, que  leve a nós e os sujeitos revolucionários à protagonizar a política.

A burocracia sonha ter o acontecimento sob seu controle. Espera sem surpresa a vinda do que foi anunciado, e não concebe que o que foi anunciado possa não chegar. O revolucionário espreita o acontecimento potencial na crise. No momento da decisão, o julgamento manifesta o presente de uma presença. Esta acontencimentalidade irrevogável inaugura situações radicalmente novas onde “nossa herança não é precedida de nenhum testamento”, porque o próprio acontecimento esclarece suas condições de aparição. É por isso que a revolução constitui, segundo Hanna Arendt, o “verdadeiro acontecimento, cujo alcance não depende da vitória ou da derrota”. (Daniel Bensaid- Lenin e o tempo partido )

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