O outro lado de um grupo no poder

Partido do Prefeito de Curitiba, Luciano Ducci, tenta retirar blog da jornalista Thea Tavares do ar. Medida se soma a outros exemplos de como um grupo político exerce hegemonia na capital paranaense

Pedro Carrano,

de Curitiba (PR), para o jornal Brasil de Fato

A experiente jornalista Thea Tavares, assessora de imprensa da deputada estadual Luciana Rafaghin, com matérias publicadas no Brasil de Fato teve duas postagens do seu Blog Lado B ameaçadas de sair do ar a partir de ação judicial do partido do prefeito Luciano Ducci (PSB). Houve também tentativa para retirar do ar a página do facebook e do twitter nas quais Thea reproduzia o link e o conteúdo do blog.

O argumento do partido do prefeito foi de que as notícias divulgadas pelo blog podiam prejudicar a candidatura de Ducci durante as eleições. O episódio, no entanto, aconteceu antes mesmo das convenções partidárias. Thea avalia que, na prática, o próprio partido acabou admitindo a candidatura de Ducci ao acionar a ação. Isso acontece em meio à pouca aceitação de Ducci nas pesquisas eleitorais.

Com imagens da própria agência de comunicação da prefeitura, o conteúdo das postagens resgatava um fato que Ducci e seu grupo político vêm tentando ocultar: a ligação dele com Luiz Cláudio Derosso (PSDB, recém desfiliado), quem permaneceu quinze anos como presidente da Câmara de Vereadores, afastado após a acusação de investigação do Tribunal de Contas que apurava a contratação pela Câmara de duas agências de publicidade, a Oficina da Notícia e a Visão Publicidade, por mais de R$ 30 milhões, em 2006. Entre as irregularidades apontadas estão o fato de que a Oficina da Notícia tem como proprietária a jornalista Cláudia Queiroz, atual esposa de Derosso, e que na época da licitação, em fevereiro de 2006, ocupava cargo comissionado na Câmara. Ela só deixou o cargo em abril de 2006, quando a agência venceu a concorrência. Por lei, servidores públicos não podem participar de licitações para contratação em órgãos onde trabalham. 

Os recursos administrados pela Câmara são superiores aos de muitas cidades e poder Legislativo municipal fica com 4,5% de todo o orçamento da cidade. Somente em 2012, por exemplo, a Casa irá gerir cerca de R$ 250 milhões, de acordo com informações da vereadora Professora Josete (PT).

Uma crítica apontada por Thea Tavares é de que a prefeitura de Curitiba já está fazendo campanha eleitoral pela cidade, contando, com isso, com a capilaridade em uma série de jornais de bairro. “As propagandas deveriam ser educativas e não promocionais”, critica a jornalista Thea Tavares.

É o caso de jornais de bairro como Folha do Boqueirão, um dos principais bairros da periferia de Curitiba, cuja assessoria da vereadora Professora Josete viu notas emitidas pela Câmara de Vereadores para este jornal, com a orientação de elogiar as ações da prefeitura. No que foi apurado até o momento sobre Derosso, Josete informa que R$ 30 milhões foram repassados pela Visão Publicidade para jornais de bairro.

Sinais estranhos

O ataque contra a liberdade de expressão poderia ser tido como algo pontual. Mas na verdade se soma à recente tentativa de privatizar a principal referência de cultura da cidade – a pedreira Paulo Leminski – ao lado da crise permanente em áreas como Saúde e Moradia. Com isso, o grupo político à frente da prefeitura de Curitiba por mais de três décadas deixa escapar graves rachaduras: toma atitudes precipitadas, no momento em que se vê em terceiro lugar nas pesquisas de intenção de voto.

Para colocar mais tempero nos problemas, soma-se a publicação da revista Época, divulgando trechos de conversas do bicheiro Carlos Cachoeira mencionando o governador Beto Richa, dentre as 82 pessoas citadas em conversas telefônicas. O que dá a entender que, com a posse de Richa, em 2010, haveria mais espaço esse tipo de contravenção, uma vez que o ex-governador Requião proibiu os bingos no estado. O governador Beto Richa, o secretário de Segurança Reinaldo de Almeida Cesar e o Deputado Federal Fernando Francischini estão na relação, que foi feita durante o depoimento a portas fechadas pelo delegado Matheus Mela Rodrigues, quem coordenou a Operação Monte Carlo.

Uma crise que não previam”

O problema é que Luiz Cláudio Derosso era o nome certo para vice-prefeito na coligação com Luciano Ducci (PSB), formando a aposta do PSDB para Curitiba depois do racha dos tucanos com Gustavo Fruet, quem partiu para “carreira solo”, ingressou no PDT, recém-coligado com o PT para as eleições de 2012.

Era uma crise que não previam”, analisa a vereadora Professora Josete (PT), quem avalia que é difícil Derosso voltar a ser presidente da Câmara de Vereadores e, com as denúncias, já não seria mais candidato nessas eleições. Mas a desfiliação do partido pode ser uma estratégia para um retorno mais adiante, na condição de deputado. “A geladeira pode ser um acordo para retornar ao cenário político, como aconteceu com Cássio Tanigushi (DEM, acusado de desviar dinheiro de um convênio firmado quando era prefeito), uma forma de estancar as denúncias”, faz o balanço.

A vereadora Professora Josete (PT) reclama da dificuldade para obter informações nas investigações sobre o destino dos recursos da Câmara sob o mandato de Derosso. Suplente do Conselho de Ética da Câmara, ela narra a dificuldade de sua assessoria ter acesso aos documentos. “Posso dizer que nem eu e nem a minha assessoria conseguimos ficar a sós por um instante sequer com a papelada que indica o verdadeiro destino dos cerca de R$ 35 milhões gastos, teoricamente, em publicidade, na Gestão de Derosso. É importante relembrar que não nos deixavam fotografar e muito menos tirar cópias dos documentos”, descreve em artigo a vereadora.

Sinais de que a condução da Prefeitura não possui um eixo, calcada apenas na publicidade? “É uma administração fraca, desestruturada, mesmo com a máquina não consegue levantar-se nas pesquisas”, avalia a jornalista Thea Tavares. “Beto promoveu Ducci e agora bateu o desespero. É uma cidade disfarçada na censura. Os novos empreendimentos se dão graças a recursos do BNDES. Esse grupo parou no tempo e perdeu a capacidade de inovar, é uma fórmula de esgotamento de Curitiba”, finaliza.

Casa de Cortiço

Serviços essenciais como Saúde e Moradia estão em situação precária.

Pedro Carrano, de Curitiba (PR),

No mesmo contexto das denúncias políticas da jornalista Thea Tavares, seu blog Lado B denunciou o despejo forçado cumprido pela Prefeitura contra uma moradora numa área de ocupação, no dia 21 de maio. O caso é sintomático de como a administração municipal tem se portado. Sua origem está numa perseguição política.

A idosa Enoeni Elói de Andrade, de 70 anos, moradora da região da Vila Formosa, zona sul de Curitiba, em 1996 não havia permitido que o então prefeito, Rafael Greca de Macedo (prefeito de 1993 a 1997,pelo grupo que se mantém no poder na capital paranaense), entrasse em sua casa em época eleitoral para falar da ocupação. Essa negativa de Enoeni teria sido o motivo da ação de despejo contra a moradora, embora o antigo prefeito o desminta.

Desde então havia uma ordem de despejo sobre a família de Enoeni, mas os prefeitos anteriores não cumpriram pela precariedade da situação da idosa que, apenas com a renda proveniente da pensão pela morte do marido, cria um neto menor de idade. Enoeni viu a casa onde morava há trinta anos ser destruída pelas máquinas da prefeitura municipal. A maioria das cerca de 200 famílias da localidade aguardam a transferência para região que integra as obras do PAC Habitação.

É uma pequena história entre vários outros casos de atropelos e despejos irregulares. Problemas em diversas frentes marcam a administração de Luciano Ducci. São questões que já estão acumuladas desde outros mandatos. Saúde, educação, etc dão mostra de irritar o povo comum e, ao mesmo tempo, não encontram saída em um projeto consistente para o tema.

No caso da saúde, Ducci é médico e chegou ao posto de Secretário Estadual de Saúde do mandato de Beto Richa. Esse currículo ficou gritante quando 12% dos trabalhadores da saúde municipal, perto de 1200 trabalhadores, entre enfermeiros, técnicos em laboratório, etc, não tiveram garantida a jornada de trabalho de 30 horas, ao contrário do restante da categoria. Foram os chamados “excluídos” da saúde, que faziam, no final de 2011, manifestações semanais em frente à casa do prefeito. “A greve chegou a 74 dias. Ducci preferia ir à Justiça do que chamar uma mesa, optou também por pagar exames nas redes credenciadas”, critica Eduardo Recker, da direção do Sindicato dos Servidores Públicos Municipais de Curitiba (Sismuc).

A condição na saúde é considerada precária. “Saúde hoje é um espaço para campanha, o agente de saúde leva campanha à noite nas casas que atendia durante o dia”, afirma a vereadora Professora Josete.

Do ponto de vista do funcionalismo público, a gestão Ducci é marcada pela continuidade da política anterior de Beto Richa, marcada pela tentativa de privatizações e terceirizações dos serviços essenciais. Há pouco tempo, o Sismuc recebeu um ataque da Prefeitura, ao lado do sindicato de professores municipais (Sismmac), quando foi proposta a diminuição do número de liberados do sindicato, de dez para três pessoas. Informações do sindicato apontam que “Derosso pediu informação de cada diretor do sindicato, quem era e qual a sua pasta”, comenta Eduardo Recker, da direção do Sismuc.

O sindicato aponta que há uma contradição entre o rendimento do orçamento municipal de Curitiba ser o quarto do país, enquanto o funcionalismo recebe uma das remunerações mais baixas, perdendo para cidades da região metropolitana. Longas filas e a incerteza do atendimento são comuns nos Postos de Saúde municipais, e despontam nos veículos da mídia corporativa apenas quando um funcionário acaba sendo agredido por um usuário do sistema de saúde. “Prefeitura não contrata médico de carreira e não preenche as vagas. Com os baixos salários, os médicos de carreira pedem exoneração do cargo (…) Não há condição nenhuma para os trabalhadores, faltam servidores, o número de trabalhadores é insuficiente e as condições de trabalho são insalubres”, denuncia Recker. “A prefeitura alega que não tinha dinheiro, mas poderia gastar mais 11,5% das folha de pagamento sem comprometer a Lei de Responsabilidade Fiscal, na prestação de contas que está distante de atingir o teto”, afirma.

Até onde caminha essa insatisfação não se sabe. Por enquanto, o lema do grupo político no poder em Curitiba usado até pouco tempo e agora encoberto – “Juntos” – vem sendo substituído pelo do movimento sindical: “Putos!”.

Raio-x de uma capital e suas prioridades

Orçamentos:

Secretaria de Comunicação Social. R$ 25 milhões

Secretaria de Esporte, Lazer e Juventude. R$ 38 milhões; Enquanto esse gasto é pouco maior que o gasto em publicidade, Curitiba se notabiliza pelo assassinato da juventude. “Em 2008, morreram mais jovens entre 18 a 24 (428) do que em São Paulo (423)

Secretaria de Trabalho e Emprego. 6 milhões, 649 mil

R$ 1400. Salário de um Guarda Municipal de Curitiba (recém-conquistado aumento) –

R$ 2600,00. Salário de um Guarda Municipal de Belém (PA)

R$ 220 milhões (aumento de 217,64) em relação a 2011. Gasto previsto com pavimentação de vias, sendo que 35% não estava previsto nas leis orçamentárias

R$ 1,2 milhão entre 2004 e 2009, valor recebido por uma empresa da Câmara, relativo a serviços de terceirização, ligados à família de Derosso

FONTE:

SISMUC;

Boletim Informativo Professora Josete vereadora;


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