Perspectivas do pós-PT.


Por Lucas Perucci

Ao observar a política brasileira nos últimos anos, é lugar comum afirmar que o país obteve uma série de transformações econômicas. Houveram melhoras significativas em renda e consumo, há uma confiança no planejamento e na regulação macroeconômica e uma margem do governo em aplicar medidas anti-cíclicas que controlaram a crise de 2008 e estimularam o crescimento.

Mas o que significa para um partido estabilizar e aprimorar o desenvolvimento do capitalismo no Brasil? Se tal estabilidade fosse pautada por um partido ou grupo de partidos que possuísse um acúmulo histórico que visasse um explícito consenso de classes, essa pergunta seria fácil de ser respondida: alternar-se no poder de modo estável, como nos EUA entre republicanos e democratas.

Certamente, esta não é a origem e trajetória do PT. Forjada no seio da ditadura e responsável por reestruturar movimentos sociais e sindicatos, com uma inovação programática ao integrar a intensa pressão e organização política extra-parlamentar aliada a conquista de posições eleitorais.  Podemos afirmar que o PT não é um partido moldado e orientando pela burguesia nacional e internacional, que existe uma óbvia resistência da burguesia em aceitar suas bases de apoio, notadamente CUT e MST, e da militância ligada às pautas de gênero, raciais e de direitos civis.

Para o PT conservar parte de suas características fundacionais e se fixar nos poderes já delimitados, alguns de seus pressupostos devem se alterar. Algo necessário é realizar a transição pacífica para uma democracia burguesa bem estabelecida e consolidar uma suave alternância de poder. Mas isso significa destruir uma concepção de partido e objetivo que os socialistas se orientam. Os socialistas apresentam uma política com determinado fim, com objetivos de curto e de longo prazo, ou seja, orientam sua atividade política para um caminhar direcionado, para a alteração da organização social da vida em outro patamar de existência, para algo além do capitalismo.

O problema se apresenta nesta duplicidade ao PT: seu partido ainda conserva bases e elementos de outra  sociabilidade geral e ao mesmo tempo se aferrenha no poder. Esta é uma política com prazo determinado, pois toda a criatividade e o discurso nacional unificador que deu vitalidade ao partido dá seus sinais de esgotamento, na medida em que exige uma descaracterização cada vez maior de seus símbolos, de sua base social e de seu programa. É muito, muito difícil explicar Hadad com Maluf… Essa própria manutenção no poder exige esse tipo de pragmatismo político pouco digerível.

O PT finalmente se consolidará como um novo PT quando conseguir se adaptar no momento, que de forma natural e sem resistências for entregue totalmente ao pragmatismo político. Sem grandes necessidades de justificativas de seus pressupostos. O modo de realizar tal movimento é muito claro e perceptível: engessamento de sua direção, verticalização na condução de seus aparelhos no movimento e liquidação de suas instâncias de base. Para além, há uma necessidade de despolitizar a política, conduzindo os votos e as perspectivas de vida para condições aceitáveis dentro da ordem. A política de aquisição de bens de consumo não-duráveis satisfaz esse tipo de anseio.

Efetivamente, no último período no Brasil, houve uma inserção via consumo na classe trabalhadora. Pochmann em recente entrevista (1) argumenta que este tipo de elevação de renda e geração de empregos se apresenta aos trabalhadores como um esforço individual, ou seja, sem realizar conexões sobre a forma de gestão da economia, sua composição política, os choques de poder e os projetos em disputa que propiciaram tais possibilidades de ascensão momentâena. O que a genialidade de Pochman não quer, não consegue ou não pode explicitar que essa é a exata medida da política petista, propagar a despolitização. O PT deve se apresentar como uma alternativa viável dentro da ordem capitalista. Seu lócus político deve emanar das estruturas do Estado consolidadas, seu léxico o da estabilidade, crescimento e ordem, sua visão reforçar as particularidades, o indivíduo, o esforço e a conquista da casa, carro, emprego e financiamentos próprios. A origem e manutenção das agudas desigualdades tornam-se disparidades do pagamento de impostos, e a política mais progressista, a reforma tributária.       

Assim, a militância petista e sua esfera de influência, irá se amoldar definitivamente com os exatos e mesmos pressupostos. Em um médio prazo, haverá uma tendência do declínio dos movimentos em que hegemonizam e o surgimento de novos combativos e mais criativos, principalmente devido às contradições abertas pelo neodesenvolvimentismo e da especulação imobiliária que se apresentam com agressividade (Pinheirinho, Jirau, Ocupações em favelas no Rio para a Copa). O PT já deixou de ser um pólo aglutinador e criativo dos trabalhadores e precisa repetir de modo insistente os aspectos quantitativos de seu governo que se sobressaem frente ao período FHC. É o seu limite como necessidade imperativa para se manter no poder. Chegará um momento de dizer publicamente que no nosso governo existe menos corrupção que no de FHC. Um quadro comparativo, vitorioso, de quantos deputados do PT foram alvo de denúncias e cassados e quantos do PSDB e do DEM.

Se o quadro da ausência de alternativas reais e massivas à esquerda do PT se mantiver, o pós-PT é algo tenebroso. Significa a consolidação de uma massa de trabalhadores despolitizados, com fortes conotações conservadoras, sem referência em movimentos sociais e coletivos que possuem uma simbologia com esperança de futuro, e consequentemente, sem organização e formação de novos quadros políticos com habilidades teóricas e organizativas. Significa a explosão da contradição de classes em diversas lutas pontuais, sem um projeto unificador. E o novo-PT que garantirá a pacífica alternância de poder com o PSDB, tratará de canalizar sua oposição para o espaço institucional, local par excellence da manutenção da ordem democrática, estável, burguesa e capitalista.

É necessário incidir ainda mais na base do governo, deslocar a militância honesta e sincera que é hegemonizada por um projeto desenvolvimentista e apresentar, sem imposições, fórmulas óbvias e auto-proclamação, as enormes dificuldades de um acúmulo ainda mais árduo e longo frente às tarefas abertas desde a democratização brasileira: a construção de uma revolução socialista frente a um Estado com uma estruturada democracia burguesa. Algo ainda inédito na história da humanidade. A gigantesca tarefa de organizar novos partidos, articulados e inseridos, nas pautas de gênero, raciais, dos direitos de expressão da sexualidade, no movimento sindical, no movimento estudantil e nos movimentos populares, com a reconstrução e disseminação de conceitos de revolução, Estado e democracia socialista que supere e não repita farsescamente a experiência soviética.

(1) http://www.cartacapital.com.br/economia/marcio-pochmann-ascensao-da-classe-trabalhadora-da-sinais-de-esgotamento/              

Lucas Perucci é militante do PSOL.

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