O amor segundo Münch

Por Romero Venancio  (Universidade Federal de Sergipe)

Temos acima uma tela definitiva do pintor norueguês Edvard Münch. Essa pintura, intitulada de “A vampira”, constitui uma série de quadros que perfazem a maturidade emocional do artista. Evidencia-se nela claros traços de arte expressionista. Os tons lúgubres e as sombras avermelhadas despertam uma forte sensação de nostalgia. Para a época em que Münch viveu, essa concatenação de figuras representa uma cisão com o modelo artístico em voga. Fugindo ao naturalismo e à geometria utilizada para representar figuras com exatidão, na pintura do norueguês a nebulosa de sentimentos se sobrepõe a uma possível descrição do que esses mesmos sentimentos representam.

Não é interessante para Münch cunhar o que é a felicidade ou o que é o amor, pois a hipótese reduziria os seus traços ao mero filosofismo. Pelo contrário, Münch é literário, poético, e dá movimento as suas observações pondo o amor, se é disso que fala nessa obra, no estatuto de entrega.

A vampira mantém a sua boca na nuca do rapaz. O seu nariz, evidentemente, ocupa posição semelhante. Daí o título, a intenção pela qual Münch descreve uma observação a respeito de como duas pessoas se unem num laço afetivo. A mulher, que com os seus cabelos rubros e braços torneados envolve o rapaz, o suga, cessa-lhe as forças e o deixa exangue, desprovido de suas energias e retido, num descanso profundo, na superfície criada por seu colo. Aquele que ama não procura os lábios de sua parceira, porém deixa com que eles o encontrem, e através da entrega, do abrigo oferecido pelos braços femininos, oferece-lhe, como forma de pagamento, a nuca, de modo que a vampira possa lhe sugar o amor e se preencher dele.

A recíproca, no quadro de Münch, tem como ponto de partida o cansaço: o ser exaurido oferece ao outro a sensibilidade cristalizada dentro de si. É, outrossim, uma alegoria à sua própria vida, marcada pela doença e pelas perdas. A nuca ofertada é, na verdade, o grito sufocado – o desejo de libertação do seu próprio destino. A submissão pretende o amor, logo o esquecimento; os braços e os cabelos representam a distância em relação ao que já fora vivido. Entregar-se, no quadro, é uma fuga. Amar, estar desarmado.

Anúncios