A crise como espelho

Aprofudamento da crise europeia deve impactar a América Latina pelo seu modelo ligado à exportações e enfraquecimento das indústrias nacionais

Pedro Carrano,

 de Curitiba (PR)

Reportagem publicada no jornal Brasil de Fato

Assistimos ao aprofundamento da crise financeira na Europa, que até este momento não encontra solução em um modelo econômico alternativo, muito menos se desdobra em algum projeto político coerente. Enquanto isso, os países da América do Sul apresentam índices de crescimento maiores do que os da tríade Japão, Estados Unidos e zona do Euro. Mas a pergunta que fica é: esta aparência de estabilidade na macroeconomia se sustenta até quando nos países ao sul?, tendo presente que os principais investidores estrangeiros na América Latina se encontram em países com índice de crescimento praticamente zero. Entre os principais investidores na América Latina, em 2011, destacam-se Estados Unidos (18%), Espanha (14%), a própria região latino-americana (9%) e Japão (8%), sendo que previsões da Comissão Econômica para a América Latina (Cepal) para 2012 apontam que o Investimento Externo Direto para América Latina e Caribe se manterão em níveis altos, embora o organismo previna que a crise na Europa pode afetar a economia dos países dependentes da região.

América Latina como um todo deve crescer acima do previsto. No relatório Perspectivas Econômicas Globais, do Fundo Monetário Internacional (FMI), o órgão prevê que a economia dos países latinos vai expandir 3,7% em 2012. Ao passo que, no primeiro trimestre de 2012, a situação na zona do Euro é de estagnação econômica, mesmo que não seja definida ainda como de recessão – que se caracteriza por dois trimestres consecutivos de crescimento zero. O Produto Interno Bruto (PIB) da Grécia caiu 6,2% em ritmo anual no primeiro trimestre de 2012, após uma queda de 7,5% no último trimestre de 2011. Nesse mesmo sentido, as economias como a da Itála e Espanha aprofundam-se em dívidas, ao passo que a Alemanha continua se beneficiando do seu controle político sobre o Banco Central Europeu (BCE) e mantém índices – baixos – de exportações e crescimento, beneficiando-se também como credora do endividamento da região.

A situação da Grécia e sua possível saída da zona do Euro despertam a atenção nesse momento. Uma eventual fuga de investimentos e de retirada de dinheiro dos bancos é comparada à saída dos depósitos de base na Argentina antes da quebra do peso atrelado ao dólar na paridade de um para um (no ano de 2001). O economista Guilherme Delgado, consultor da Comissão Brasileira de Justiça e Paz, analisa que os próximos passos da política econômica da Grécia devem trazer repercussões no plano mundial e também no continente latino-americano. Delgado avalia que o agravamento da crise europeia afeta o comércio mundial, na medida em que há uma fuga desesperada de dólares do velho continente neste instante. “Temos que estar atentos ao que vai acontecer na Grécia em termos de plebiscito, não no sentido formal, mas se o país vai continuar ou sair da zona do Euro. Até agora se agiu na premissa de que não haveria qualquer dificuldade de obrigar os gregos a se ajustar ao receituário de compromissos financeiros (…) Não há condições de recuperar a economia grega com esse padrão de restrição atual, corte nos gastos sociais, etc. Como não têm moeda, se a Grécia sair da zona do Euro as consequencias seriam mais graves”, analisa.

O economista Venâncio Guerrero também enxerga, no mesmo sentido, um vínculo entre a crise na Grécia e o intenso fluxo de capitais que buscam a economia brasileira em busca do real forte, e agora, com as mudanças no câmbio nacional, aproveitam para migrar esses capitais a outras regiões. “Por causa da crise da dívida dos países europeus, os investidores estão tirando dólares do Brasil para cobrir prejuízos com os títulos que detém na Europa”, afirma.

No plano imediato, de consequência nos países latino-americanos, que estão com PIBs com índices positivos, a questão reside na divisão internacional do trabalho e na “expansão e especialização no comércio de commodities, padrão que já não parece mais viável nesse ciclo daqui para a frente. Uma crise se propaga em vários anos, e atinge também o puxador do comércio mundial hoje, a China”, afirma Delgado.

A China é justamente o fator decisivo para o aprofundamento da crise, sobretudo com a queda do consumo europeu por seus produtos. No entanto, pelo seu potencial, a China configura-se hoje como principal pólo de acumulação do capitalismo mundial. Em artigo recente, Samuel Pinheiro Guimarães descreve esse cenário: “A economia chinesa vem crescendo a 10% ao ano, em média, nos últimos trinta anos, desafiando os recorrentes prognósticos negativos dos especialistas. Sua economia moderna é integrada por cerca de 300 milhões de indivíduos, com um déficit crescente de alimentos para uma população que melhora e diversifica seu padrão alimentar, sem suficientes terras aráveis e água para a irrigação em grande escala (…) A incorporação gradual de mais de um bilhão de chineses, hoje no campo e em atividades de baixa produtividade, ao setor moderno da economia tornará a China o maior mercado do mundo, superior ao mercado americano e europeu somados”, descreve.

 A situação da América do Sul não é a mesma que as potências centrais, porém, há muitas fraturas no modelo adotado, no geral considerado dependente do capitalismo mundial. No caso da economia brasileira, na avaliação de economistas nos jornais especializados, o baixo crescimento da economia brasileira e a vulnerabilidade atual do sistema industrial são preocupantes em caso de um impacto da crise. Economistas como Paulo Nogueira Batista, em entrevista ao jornal Valor Econômico, aponta como fatores de segurança da economia brasileira a situação fiscal, compulsórios bancários altos, bancos públicos aumentando a oferta de crédito, etc. Na questão financeira, o economista Luis Nassif, em entrevista ao jornal Brasil de Fato, o país apresenta um sistema financeiro sólido. No caso de Nassif, o economista aponta que o perigo reside na falta de investimentos no setor produtivo (veja abaixo).

Nessa conjuntura, os países da América do Sul tornam-se o destino de investimentos, normalmente baseados no controle dos recursos naturais. Em 2011, 57% do investimento estrangeiro direto recebido pela América do Sul (sem o Brasil) se dirigiu ao setor de recursos naturais e apenas 7% para manufaturas.

 Crise de destino

 Dependência das economias latino-americanas fica mais evidente em períodos de crise. Para economista Luis Nassif, países do Cone Sul são mais frágeis a um contágio do que o Brasil

 de Curitiba (PR),

Na visão do economista e analista político, Luis Nassif, o aprofundamento da crise deve impactar os países sul-americanos. Por dois motivos, segundo ele: a crise do Euro deve ter impacto direto nas exportações e na economia chinesa, golpeando, consequentemente, os países hoje dependentes da China, caso do Brasil. Junto a isso, os preços das commodities minerais e agrícolas deve ser afetado com a redução do crescimento econômico chinês.

O outro ponto se refere aos excedentes de exportação dos países em crise, que, de acordo com Nassif, tendem a irrigar o mercado com produtos de baixo preço, buscando mercados potenciais ao sul, uma vez instalada a crise nos mercados centrais. Nassif analisa que essa conjuntura força a China a se voltar mais para o seu mercado interno, não tanto para o externo, que havia caracterizado seu crescimento até então. “A perda de dinamismo da China resulta na mudança do seu modelo de mercado externo para mercado interno, isso ia reduzir demandas por commodities agrícolas e minerais. O crescimento chinês se daria para dentro”, afirma, ressaltando que trata-se de uma fase de transição, ainda bastante sustentada na compra de commodities agrícolas e minerais. Essa dependência é uma realidade entre os países do cone sul: no Uruguai, por exemplo, toda a superfície florestal está em mãos de três empresas, e mais da metade das terras agricultáveis têm a produção orientada para a exportação.

A análise de Nassif aponta que os impactos se dariam de forma diferenciada, por exemplo, entre as economias dos países do Cone Sul e a economia brasileira, que, segundo ele, apresenta mais elementos de defesa contra a contágio da crise – o que não impede a atual queda do PIB, devido à presença maior das importações, resultado da política cambial. “O crescimento brasileiro é baseado no mercado externo, mas também no interno. Porém, o peso maior das importações joga o PIB para baixo, sem crescimento correspondente na produção”, critica.

Na crítica do economista, a economia brasileira cresceu em um primeiro momento sustentada pelo consumo interno. Mas essa fórmula de crescimento do PIB não dura se esse crescimento do mercado interno não vier a fomentar a produção da indústria nacional. Esse consumo interno – explica – é limitado, uma vez que o crédito esbarra na própria renda da pessoa. Nassif pensa que a mudança no patamar de consumo deveria vir acompanhada de investimento nas cadeias produtivas nacionais, de maneira que o consumo interno irrigasse a industrialização. Ele concorda que a economia brasileira passa por uma perda da participação da indústria. “Cresce o mercado de consumo, mas geramos emprego na Europa e na China. A estratégia de mercado interno deveria ser de irrigar a produção interna”, critica.

Não é o que sucede. E o economista aponta o fator câmbio como o principal problema da atual política econômica, o que tenta ser solucionado com medidas específicas para determinados ramos da economia. “Estamos tentando tapar o sol com a peneira. Hoje há setores internos que lutam contra as importações, uma política de industrialização deveria ser a prioridade, mas já está com vinte anos de atraso”, critica.

A questão se traduz na falta de um projeto, como preconiza Luis Nassif, e a base em um modelo que neste momento está em exaustão, como adverte o economista Guilherme Delgado. A preocupação coincide com artigo de Samuel Pinheiro Guimarães, refletindo sobre a expansão do mercado chinês, a crise e o atual estágio do Mercosul, que sofrerá problemas se não estiver centrado em um projeto de integração, “Se não vierem a ser formuladas e implementadas firmes e permanentes políticas industriais de agregação de valor aos produtos primários em forte demanda”, opina. Para Pinheiro, a dependência das exportações de commodities agrícolas coloca esses países como competidores no mercado internacional, o que apenas os fragiliza.


Anúncios