Waldick Soriano: notas sobre bolero, memória e velhice

Por Romero Venancio

Para Rosa Barin, porque ela sabe…

Podemos afirmar com segurança que há uma injustiça teórica na história da música popular brasileira. Trata-se de um quase esquecimento acadêmico de um gênero muito querido por uma geração passada e que marcou a vida de uma carrada de pessoas que nasceram por volta dos anos 30 e 40, a saber, o bolero. Musicalmente simples, mas rico nas “popularidades amorosas” e crônicas do dia-a-dia, o bolero esteve nas serestas, nos cabarés, nos bailes noturnos e nos encontros e desencontros amorosos vividos por milhões de pessoas por este Brasil afora.

Um dia tratado como “cafona” e hoje como “brega”, o bolero sobreviveu para fazer história. Os que ainda cantam este gênero preferem se intitular de “românticos”. A matéria do bolero é o sentimento amoroso nas suas diversas configurações. Neste sentido, o documentário dirigido por Patricia Pillar, Waldick: sempre no meu coração vem preencher esta lacuna de esquecimento do bolero tendo a figura extra-ordinária de Waldick Soriano como caso exemplar do gênero.

O filme é aparentemente uma espécie de biografia/homenagem do/ao cantor baiano. Lá encontramos as origens de Waldick, paixões, trajetória artística e momentos difíceis. Até aqui, nada de mais. Todo documentário clássico tem uma estrutura destas. Porém, o documentário de patricia Pillar tem muito mais que as convenções de um documentário comum. Sendo importante lembrar: se o trabalho da atriz na direção fosse apenas fazer um documentário biográfico sobre um cantor popular, já seria um trabalho digno de figurar na boa tradição do cinema documental brasileiro.

Mas o  filme sobre Waldick Soriano é uma jóia rara na cinematografia contemporânea. Reconhecemos no filme a trajetória do cantor baiano, desde sua saída da Caetité. Uma figura que encarou a vida de lavrador, garimpeiro, engraxate até chegar à cidade São Paulo e viver o “estrelato” como cantor romântico de voz inconfundível.

Waldick não foi apenas cantor, era um bom compositor e era aquilo que ele mesmo se chamava no filme: poeta. Estão no filme uma série de depoimentos de ex-mulheres, fãs, familiares e amigos de infância. Por estes elementos ainda estamos no mais tradicional em termos de documentário biográfico. Então, o que fascina e se destaca no filme de Patrícia Pillar?

Primeiro, a coragem de tratar de uma figura que estava completamente fora do circuito midiático e no mais profundo esquecimento. Com isto, a diretora faz uma “revisão historiográfica” importante para o entendimento da música popular brasileira. Segundo, a câmera  de Pillar tem uma sensibilidade rara para não violentar a biografia do personagem e se promover às custas da imagem alheia. Longe disto, a diretora não aparece no filme e deixa o personagem “se dirigir” e se destacar.

Há uma simplicidade no movimento de câmera que vai deslizando aos poucos e com um respeito admirável pela figura filmada e sua vida, inclusive em momentos delicados, como, por exemplo, no momento em que ele reencontra um filho que esteve separado por muito tempo. Ela mantém a câmera no personagem, deixa o seu desabafo, o seu palavrão e a sua mágoa saírem sem corte de montagem e para no momento certo, sem cair em melodrama barato e vulgar, como fazem os programas de auditório hoje.

Terceiro, a maneira de tratar temas existenciais vividos na velhice. O Waldick do filme já esta no ocaso da sua vida, basicamente sozinho e esquecido de seu público. Tem apenas a companhia do velho e inseparável wisky. Em grande parte do filme, o personagem esta com o seu copo de wisky e em algumas cenas completamente bêbado e de fala trôpega.

A solidão de uma velhice comum aparece com toda a sua força na cena: em que uma de sua última companhia feminina está cantando uma musica do próprio e lhe faz algumas perguntas, mas não obtém nenhuma resposta e a câmera vai a Waldick e percebemos um rosto sofrido e silencioso como se percebesse o fim e diante dele só restasse a não-palavra.

Um documento marcante sobre uma celebridade no seu fim, sobre a memória, sobre a velhice, sobre as dores de amores. O filme nos mostra que em termos de sofrimento somos todos do mesmo barro.

Romero Venâncio (Departamento de Filosofia – Universidade Federal de Sergipe)

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