Luta de classes hoje

Por Vitor Dieter 

Somos constantemente interpelados sobre a possibilidade de pensar ou não a luta de classes dentro da nossa sociedade. Se fosse possível utilizar hoje esta categoria, então qual é o futuro dela? Em certa medida este questionamento apóia-se na discussão entre as conquistas dos trabalhadores, de um lado, e o papel da alienação sindical, de outro lado.

Porém ao discutir a conquista dos trabalhadores “hoje” não é possível fazê-lo de forma abstrata, é preciso encontrar qual a concretude destas conquistas. De fato, o século XXI contou com uma série de benefícios e uma maior organização de alguns Estados em relação à massa trabalhadora – o tal do Estado de bem estar social ou Welfare State dos anos 50 e 60.

As razões desse Estado “Previdenciário” têm sido muito debatidas pela tradição marxista. Uns explicam essa questão pelo conflito entre Capitalismo dos Países Centrais e Socialismo Soviético, arguindo que a necessidade de estabelecer a paz interna foi feita mediante concessões aos trabalhadores. Outros destacam o excesso de lucro retirado pelas empresas nessa época. É comum se referir a um produto que antes não tão industrializado: o setor alimentício. Este setor cresceu exponencialmente na época tanto na produção quanto no consumo criando a tal da “junk food”, os “enlatados” etc. Todo esse setor de produção causou um boom antes não explorado, já que, antes  comida era diretamente produzida pelos trabalhadores a partir dos insumos adquiridos nas mercearias locais.

Mas não foi somente este setor, também o setor de tecidos apresentou um boom. A crescente industrialização das confecções tomou conta de alguns outros trabalhos que antes eram realizados manualmente (reprodução simples que se torna reprodução complexa do Capital). Esses dois setores exemplificam o que ocorreu nesse período em que, setores de consumo da classe trabalhadora, abruptamente tornam-se comerciais gerando retornos para o Capital. (Não é à toa que muitos teóricos não-marxistas se referem ao período atual como a era do consumo; ora tudo que consumimos hoje passa pelo Capital e isso se aplica, inclusive, aos trabalhadores; fato inédito na história da humanidade).

Se em determinada época estes mercados eram novos e inexplorados gerando grande lucro, hoje eles tendem a estar saturados ao igual a outros setores. A questão toda elucidada é mais para apontar que os “ganhos”, nos países centrais, da classe trabalhadora durante algumas décadas do século XXI acontecem principalmente porque as condições políticas e econômicas estavam dadas para isto.

Ocorre que estas condições não estão mais presentes e a tendências para reestabelecer a margem de lucro tem sido cortar os “benefícios” estatais, privatizando. Desta forma o capitalismo tenta reverter provisoriamente a taxa decadencial do lucro – o que hoje chamamos de “neoliberalismo”.

O Brasil não representa plenamente este cenário descrito acima. É preciso lembrar que muito do cenário descrito se refere exclusivamente aos países do “capitalismo central”, isto é aqueles de ponta da produção industrial e financeira (EUA, Japão e Europa Ocidental). Nos países dependentes a relação foi distinta, analisaremos aqui apenas o caso do Brasil.

Ora, mesmo que tardio, o Brasil estava passando por um processo semelhante ao da Europa durante a década de sessenta – distribuição de renda, programas sociais, reforma agrária etc. –, processo este que foi rapidamente interrompido pelo golpe militar de 64. A ditadura implantou um modelo centrado na concentração de renda para o desenvolvimento industrial do país sem mexer nas estruturas arcaicas-aristocráticas do país (por exemplo o latifúndio).

Com a redemocratização (década de 80) um processo muito interessante foi verificado no Brasil. Na grande maioria dos países, a tendência foi a privatização com a forte vitória do neoliberalismo e a ideologia do “fim da história”. Ou seja, uma vitória arrasadora da burguesia financeira em relação aos demais setores do Capital (como o industrial) e também aos trabalhadores em geral. Só que, aqui, com o forte movimento sindical, em toda a década de 80 houve uma resistência da classe trabalhadora fabril (industrial) e dos camponeses às medidas aplicadas lá fora. Então enquanto o mundo inteiro ia num sentido, o Brasil ia no sentido oposto – como se verifica ao constatar que o Brasil foi um dos poucos países que resistiu à privatização das Universidades Públicas. Só que a derrota política desses movimentos durante toda a década de noventa fez com que o movimento sindical se adequasse às novas medidas de forma contraditória.

Ao haver um “arrefecimento” das lutas nos anos noventa, a classe sindical preocupou-se mais com garantir os benefícios conquistados na década anterior, principalmente para os sindicalizados e perdendo a luta em todos os demais campos. Foi assim que, por exemplo, cresceram as terceirizações no Brasil – diminuição das garantias trabalhistas – mas ao mesmo tempo subiu o salário mínimo – principalmente para a mão-de-obra formalizada.

Durante o início do século XXI, a conquista do PT representou justamente isso: uma precarização de vários setores, com muitas conquistas de outros – deve-se lembrar também que o Brasil, graças a vários fatores econômicos internos (commodity agrícola e mineiro) conseguiu manter uma estabilidade econômica que permitiu manter vários benefícios para alguns grupos das classes trabalhadoras.

Dado o cenário é preciso responder à questão da luta de classes hoje.

Sobre a luta de classes hoje, pouco temos de certezas. No cenário mundial a crise financeira de 2008 está causando fortes atritos mundo à fora. É notório que os setores de classe média e baixa estão se organizando cada vez mais nos países centrais (por exemplo, os movimentos “Occupy”), de outro lado os acordos econômicos neoliberais assentados na década de oitenta, noventa e anos dois mil sofrem um forte abalada nos últimos anos – como se observa pela posição da Grécia em relação ao Euro. Na Grécia, especialmente, vemos um forte combate entre as políticas de redução do espaço do Estado “Previdenciário” – demissão em massa de servidores públicos e fim de serviços públicos essenciais para a população – de claro interesse da burguesia financeira mundial e de outro lado os conflitos e greves nas ruas, organizados por amplos segmentos da classe trabalhadora.

Temos também os conflitos nos Países Árabes. Antes estes países eram vistos como culturalmente fadados ao binômio entre “fundamentalismo religioso” ou “liberalismo democrático”. Como vem mostrando o movimento de luta nestes países, as classes trabalhadores em geral tem fugido destas duas opções, propondo um Estado laico com políticas de distribuição de renda. O resultado deste conflito não passa na TV. Muito além da Líbia e da Síria, o Egito, Tunísia, Bahrein e Iémen são palcos de intensos conflitos entre massa e polícia. E não se trata apenas de um conflito entre o ditador local e as massas, mas de um ataque destes ditadores junto com forças da Arábia Saudita e com apóia do imperialismo mundial. Os frutos deste novo cenário só serão perceptíveis com o tempo.

No Brasil há pouco a dizer, em geral, pela valorização das commodities o Brasil tem se protegido dos grandes conflitos mundiais, principalmente aqueles decorrentes da austeridade financeira. Mas o que se pode destacar é que o Brasil, mesmo com os projetos de “minha casa, minha vida” e “bolsa-família” continua sendo um país extremamente desigual. Os mega-eventos que se aproximam (Olimpíadas e Copa do Mundo) tendem a acirrar o conflito. O governo Dilma está cada vez mais sob o impasse em como manter o crescimento econômico desejado pelas burguesias nacionais (latifundiárias, industriais, etc.) e os benefícios concedidos às classes sindicais.

Aliás, crescentemente o Capital industrial nacional apresenta demandas que não mais vão de pleno encontro com o Capital latifundiário. No tocante à política financeira eles têm tomado campos separados, os latifundiários reivindicam a diminuição dos juros enquanto os industrialistas defendem o exato oposto.

Observa-se cada vez mais que para o PT perpetuar-se no poder, ele precisa conceder menos à classe trabalhadora e conciliar mais os variados setores da burguesia nacional. Ocorre que na medida em que o tempo passa esta conciliação é cada vez mais difícil, seja entre a classe trabalhadora e o Capital ou dentro do próprio Capital. As transformações econômicas mudam o dinamismo estático da atual situação de estabilidade – existem várias formas de “crescer” a economia, o modelo escolhido não é mero tecnicismo, mas fruto de tenazes embates políticos. Até onde esse frágil laço manter-se-á atado? Isso só o tempo dirá.

Por enquanto, os partidos de esquerda de oposição estão se adaptando aos novos tempos. Enquanto uns apostam no futuro ressurgimento do movimento sindical, outros têm apostado em todos os campos de conflitos entre classe trabalhadora e Capital. A constatação de que o Capital não cria apenas conflitos para os trabalhadores dentro da fábrica tem sido um novo propulsor para as lutas de classe. O Capital exterioriza seus prejuízos para a sociedade. Daí que a classe trabalhadora, dentro do chão da fábrica ou não, tem que se articular enfrentando o Capital em todas suas esferas. A luta ecológica, homossexual, feminista, pela moradia, pela descriminalização das drogas etc. não são apenas lutas subsidiárias, condicionadas ao movimento sindical, mas apresentam dinâmica própria e são centrais para a superação das contradições do Capital para a construção de uma sociedade socialista.

Se hoje se vislumbra uma luz no final do túnel é deste horizonte que devemos partir. O resgate que a esquerda vive nas outras formas de luta re-ensinam a compreender o Capital – dentro e fora do espaço de produção. Mostram também que há outros caminhos além dos escolhidos pelo PT; igualmente mostram que a forma partidária não está esgotada – o partido tem se mostrado essencial na articulação destes movimentos, além de unificar estas lutas num mote comum. Diante de um cenário tão rico, tão complexo e tão inovador, quem diria que há vinte anos se proclamava o “fim da história”?

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