De que crise capitalista estamos falando?

Ana Carvalhaes

Nos debates sobre a atual situação econômica e política global, no seio da esquerda socialista brasileira, andamos usando de forma indiscriminada a palavra crise. Lançando mão da mesma palavrinha para fenômenos de natureza e graus diferentes, acabamos todos gerando mais confusão do que esclarecimento sobre os rumos do mundo e do Brasil.  As discussões tendem a ser diálogos de surdos. Numa imaginária mesa de debate sobre “a crise”… quer dizer, sobre os acontecimentos econômicos no sistema hipotecário e bancário norte-americano e europeu entre 2007 e 2009 e suas repercussões sobre a economia global e do país – e houve muitos – é bem provável que três ou quatro debatedores falem horas sobre “a crise” e cada um fale sobre uma crise diferente da crise do outro.

Haverá o debatedor que, tal como o marxista húngaro Itzvan Mèzàros, tenha como foco afirmar que o capitalismo, ou o sistema do capital em seu metabolismo, é uma crise. Haverá os que ficarão na formulação de que a humanidade e o planeta estão em crise por culpa do capitalismo, com o que aparentemente ninguém discorda… (Antes mesmo dos atentados da Al Qaeda ao World Trade Center e de toda a ofensiva militar, política e ideológica dos EUA dos anos 2000, Eric Hobsbawn já encerrava seu magistral A Era dos Extremos, de 1996, diagnosticando que o sistema internacional ao fim do “breve século XX” encontrava-se em crise, para ele demográfico-ecológica e político-institucional[1]). Outros poucos (como o grande Immanuel Wallerstein) relativizarão historicamente a importância dos fatos recentes nas economias dos países centrais porque, afinal, o capitalismo e o sistema mundial estão em crise gravíssima, senão terminal (sic) desde os anos 70[2]. Outros, quiçá com ênfase na economia, concentrarão seus esforços de interpretação no algo de novo que viria acontecendo (ou não acontecendo como antes) no funcionamento do sistema de 2007-2008 para cá. Entres estes, haverá quem dê por encerrados esses acontecimentos – afinal “foi” uma crise capitalista cíclica com lócus nos EUA – e aqueles que verão o fenômeno global ainda em aberto. Haverá os que assegurem que o Brasil não passou pela tal crise, ou foi muito pouco impactado. Em contraposição, outros garantirão, como o economista Plínio de Arruda Sampaio Jr.[3], que o Brasil nunca esteve fora dela. Ah! E haverá ainda o que pedirá a palavra no fundo do auditório para lembrar aos demais que a crise da humanidade é, na verdade, a crise da direção revolucionária.

Não é possível que todos estejam falando da mesma coisa. Quem tem razão? Todos em parte. E ninguém, na verdade. O debate, nestes termos, sem uma peneira conceitual inicial, não serve de nada para aqueles que, mais do que interpretar, querem transformar a realidade. É um debate estéril para facilitar conclusões sobre a correlação de forças entre as classes e para a formulação de propostas de ação para realidades concretas e definidas no tempo presente. Por isso é tão certeiro e importante o alerta do marxista argentino Claudio Katz. “Usa-se o termo crise com tantas acepções que às vezes fica impossível discernir se se referem à conjuntura, a uma etapa o ao porvir do capitalismo”, diz Katz[4]. “Tampouco se sabe se avalia uma situação global, regional ou nacional”, continua.

Por essas e por outras, antes de promover ou participar do próximo debate com a palavra “crise” no cartaz e na filipeta de convocação, é bom que cada um de nós esclareça do que está falando, o que quer debater e para quê. Todos nós vimos errando nisso nos últimos quatro anos, provocando e nos vitimizando com essa confusão fenomenal…

Limpando a área

Façamos uma modesta tentativa de varrer a área. Entre estes socialistas do salão imaginário, não está em discussão se o capitalismo é ou não um sistema nocivo para a humanidade e o planeta. Esta parece ser a principal, senão a única, convergência no ambiente. Nesse sentido, e como defensores do aperfeiçoamento do conhecimento humano expresso na Ciência pura, ninguém haverá de questionar a validade e o interesse da obra de Mèszàros, concordando com seus postulados ou não. Tampouco haverão de discordar das constatações de Hobsbawn, embora possamos dar maior ou menor importância no programa para o tema ambiental. Mas, se estivermos interessados em extrair, dos caminhos e descaminhos do sistema, caracterizações sobre a situação da economia mundial de hoje, sobre a reação política das potências hegemônicas (o imperialismo), sobre a relação entre os estados e grupos sociais, sobre a força e debilidades dos poderosos diante dos trabalhadores e povos oprimidos do mundo, o que interessa prioritariamente é verificar se houve ou não houve recentemente – e depois se continua havendo ou não –  situações, fatos ou processos que tenham mudado globalmente algo nesse sistema, e em que nível.

Portanto, não estamos falando genericamente do “provir do sistema”, como diz o Katz. Não estamos falando da crise ininterrupta do sistema do capital, na expressão de Mèzàros.  Nem da crise permanente provocada pelo capitalismo para a sobrevivência material e cultural da espécie, de que já falavam Marx e Engels.  Lançando mão da terminologia do historiador francês Fernand Braudel[5], parece haver consenso quanto à crise da longa duração, aquela multissecular, inerente ao próprio funcionamento do capitalismo. Essa não é novidade. Não começou em 2007-2008 e não acaba tão cedo.  Ficar, a esta altura do campeonato, fazendo ênfase propagandística nessa verdade geral, universal e praticamente atemporal (ou de temporalidade maior do que a vida da maioria dos participantes), diante dos acontecimentos reais, só serve para tirar a atenção daquilo que tem reflexos  na realidade presente.

Tentando avançar: não estamos tampouco ressuscitando o debate sobre a crise do sistema internacional iniciada ou agudizada nos anos 70 do século XX. A este respeito, para fins de conhecimento histórico, cabe lembrar em particular aos mais jovens, que houve – sim, meninos, há consenso – uma crise respeitável, política, militar, econômica, monetária e financeira, do sistema capitalista e dos arranjos interestatais globais na década de 70. Daquela crise, originou-se uma vasta literatura sobre Economia Política Internacional, em meio da qual se destacam alguns marxistas, como o economista e revolucionário Ernst Mandel, estruturalistas latino-americanos, e visões muito instigantes sobre o sistema internacional como um todo, como as de Wallerstein, Robert Cox, Giovanni Arrighi, Maria da Conceição Tavares, José Luís Fiori e turma da Economia Política da UFRJ. Daquela tremenda crise sistêmica, nasceu também o então novo arranjo com o qual o QG econômico do capitalismo, liderado pelo Estado norte-americano e pelo sistema financeiro, reagiu a ela, arranjo ao qual se batizou de neoliberalismo, ou “era das desregulamentações” (financeiras, comerciais…) ou época da “mundialização financeira”. Conhecer aquela crise e aquele debate, ainda em aberto, é um exercício de formação imprescindível.

Mas, voltando aos nossos dias, o que todos parecemos querer entender é a crise recente, que se reflete nos rumos do sistema internacional, dos governos e políticas dos países industrializados, no governo do nosso país, no nosso emprego ou desemprego, no nosso salário, na nossa cultura e na cultura latu senso dos nossos companheiros de trabalho ou estudo. Esse terreno cinza sobre o qual podemos incidir. Então, estamos falando de algo mais pontual, pelo menos mais historicamente específico, do terreno que Braudel chamou de curta duração: houve algo de (por falta de outra expressão, vou me valer de um termo do funcionalismo, que me perdoem) “disfuncional” no sistema entre 2007 e 2009 pelo menos, acordo? Alguma coisa “fora da ordem” neoliberal.  Parece haver convergência também sobre isso. E não era para menos.

Afinal, o sistema hipotecário da maior economia e locomotiva do planeta ruiu, o sistema bancário estadunidense esteve pela hora da morte com a falência do Lehman Brothers (permitida pelas autoridades financeiras), da seguradora AIG, e por consequência de empresas industriais como a GM etc. A crise financeira de 2008 contagiou os bancos europeus e asiáticos, portadores dos tais papéis “tóxicos”. Para impedir um contágio ainda mais direto sobre a “economia real” (leiam-se a produção e emprego), ou seja, para evitar a repetição do script de 1929, os estados imperialistas injetaram nos bancos trilhões de dólares. Mesmo assim, o crédito interbancário, que financia as operações entre instituições financeiras e lastreia o crédito às empresas industriais e de serviço que dão empregos, murchou. Os EUA e a Europa entraram em recessão. Mesmo favorecido pela dinâmica nova do Leste asiático, capitaneada pela China, o Japão não resistiu à trágica combinação desses eventos com terremoto e tsunami. As dívidas dos estados nacionais da zona do euro (e de seus bancos expostos) explodiram, pondo em xeque a própria sobrevivência da moeda única. Quando escrevo este texto, em 2012, o crescimento da economia dos EUA patina, a China tem seu vultoso crescimento desacelerado e a Europa, em nova baixa recessiva, se debate com a incerteza quanto ao futuro do euro e portanto da União Europeia mesma.

Não cabe dúvida que houve ou há uma crise econômica sistêmica global (mesmo que tenha momentos, picos e curvas com “sede” neste ou naquele país), com um pico entre 2007 e 2009. Há praticamente consenso entre os analistas econômicos da esquerda da heterodoxia (traduzindo, entre os marxistas e filomarxistas) de que o capitalismo viveu como mínimo, ou está vivendo, mais uma daquelas crises cíclicas que Marx considerou como parte do DNA do sistema. Há praticamente consenso entre os marxistas sérios (os que estudam seriamente a economia, a política, e as diferentes visões sobre a mesma, não se limitando aos evangelhos de seus guetos) e também acordo de alguns  keynesianos de esquerda de que a raiz desse pico se encontra na base, na estrutura econômica. Que foi uma crise financeira, sim, mas que resultou de mais uma crise de superprodução ou de sobredemanda, combinada com a política econômica estadunidense de incentivar um ciclo crescimento via endividamento das famílias para com o sistema financeiro. A respeito deste aspecto, para compreender a relação entre a explosão financeira e a estrutura produtiva, vale conhecer, ainda que para discordar, o texto What is good for Goldman Sachs is good for America, the origins of the current crisis (O que é bom para o Goldman Sachs é bom para os Estados Unidos, as origens da crise atual), do historiador econômico marxista norte-americano Robert Brenner[6].

O que é que está em crise?

Mas a crise é ou foi mais do que uma “mera” crise cíclica? É possível ser mais uma crise cíclica e ao mesmo tempo ser mais do que isso? É neste ponto que um debate pra valer, sério e útil para a militância socialista, deveria começar. E a partir daqui é preciso varrer conceitos inúteis e preconceitos, não para debaixo do tapete mas diretamente para o lixo. O primeiro é o nacionalismo (ou regionalismo) metodológico: nosso foco de análise não é o Brasil nem a América Latina em particular, nem somente os Estados Unidos, ou só o Leste asiático, ou somente a China. Nosso foco é a economia e a política globais.

Outro problema metodológico é a dificuldade em se livrar do maniqueísmo (é preto ou branco, crise ou não crise, estrutural ou conjuntural) para enxergar a realidade em sua complexidade, combinações e contradições. E o terceiro é a confusão, proposital ou inconsciente, entre caracterizar, constatar, diagnosticar – do que se extraem as compreensões sobre a realidade e as palavras de ordem para a política concreta –, com a agitação política mesma. O desafio é não fazer análise nem constatação para agitação ou mera propaganda socialista. Frases de efeito do gênero “A crise é estrutural e de longa duração” ou “O Brasil nunca esteve fora da crise” são ótimos títulos para edição jornalística e refletem parte da verdade, mas, tiradas de seu contexto, têm serventia zero para dialogar com trabalhadores e trabalhadoras brasileiros, que ainda não estão sentindo a crise nos seus bolsos como os da periferia europeia.

Sim, a atual pode ser uma crise cíclica (ou seja, do ciclo econômico de crescimento global dos anos 90 pra cá), mais uma delas, e ao mesmo tempo ser mais do que isso. O citado Brenner, por exemplo, é apóstolo da tese de que, desde os anos 70, o capitalismo norte-americano vive um declínio de produtividade e lucratividade, o que ele chama de the long downturn (a longa decadência, em versão livre), com impacto sobre todo o modo de funcionar do sistema global. Mas essa tese polêmica não o impede de – ao contrário, o incentiva a – diagnosticar uma crise particular nos anos de 2007 a 2009. Mas, para compreender essa possibilidade de “várias crises em uma” ou de “uma crise com várias dimensões”, é preciso lançar mão de outro conceito, ou de outro nível de crise. Entre a generalidade histórica de longa duração do sistema, o “porvir do capitalismo”, e a realidade conjuntural concreta, existe um plano intermediário, ao qual os estruturalistas denominaram “regime de acumulação”. Um regime de acumulação (de capital) pode ser definido como um conjunto de mecanismos e instituições (internacionais e dos estados hegemônicos) que caracterizam, numa época histórica determinada, o funcionamento monetário, produtivo, comercial e por que não dizer político-institucional do sistema.

Assim como entre o estado e o governo de um país existe o regime político, o conjunto de instituições pelas quais funciona o predomínio de uma classe e de setores específicos dessa classe sobre o conjunto da sociedade nacional, existe no mundo, entre o sistema capitalista como generalidade e a conjuntura capitalista momentânea, o regime de acumulação, a forma peculiar historicamente dada pela qual o capital é regulado (no sentido de regras do jogo, não de controle) e se reproduz. O regime de acumulação vigente no mundo nos últimos trinta e poucos anos, desde que o capitalismo como sistema e o imperialismo norte-americano como potência hegemônica reagiram e superaram sua crise dos anos 70, é o que podemos chamar de neoliberalismo, ou de globalização, ou, na expressão mais precisa de François Chesnais, de mundialização financeira. Não é conveniente nem possível (e gostaria de acreditar que nem necessário) nos alongarmos aqui na descrição pormenorizada do regime neoliberal. Vale ler pelo menos duas obras seminais a respeito: A mundialização financeira, de Chesnais[7],  e o artigo “Pós-escrito de 1997: a retomada da hegemonia norte-americana”, de Maria da Conceição Tavares[8].

Mas vale lembrar que esse regime supôs: (a) uma inédita desregulamentação dos mercados financeiros nacionais em prol da livre movimentação dos capitais especulativos; (b) uma centralização ainda mais brutal dos rumos da economia mundial nas mãos dos governos, bancos centrais e instituições financeiras dos países industrializados – em particular do FED, banco central do país emissor da moeda global, a partir de 1971 sem outro lastro que não o próprio poder econômico e político dos EUA; (c) maior tendência à concentração de capitais por meio de fusões e aquisições, em particular nos setores de ponta da informática e das telecomunicações; (d) um deslocamento geográfico e reorganização inusitados da indústria e dos serviços, num movimento em direção a regiões e países com salários mais baixos; (e) esfacelamento das linhas de produção fordista e mesmo tyotista, em prol das linhas terceirizadas em países da periferia. Tudo facilitado pelo desmantelamento consciente dos sindicatos e federações do velho estado de bem-estar social do regime anterior, após derrotas históricas dos trabalhadores dos países centrais (a partir do esmagamento das greves dos controladores de voo dos EUA, por Reagan, e dos mineiros do carvão, por Thatcher). Tudo isso razoavelmente agudizado nos anos 90, ao se combinar com uma brutal crise de alternativas ideológicas, depois da “queda do Muro”, ou seja, da derrota da União Soviética e do “socialismo real” de 1989 a 1992.

Muito bem, no plano estritamente econômico, a crise de 2007-2009 abriu não somente uma crise cíclica imensa – a “Grande Crise”, na expressão do Vito Letizia [9]– , como também algo unanimemente apontado como similar e com potencial para ser mais destrutivo que o crash de 1929. Sim, tal como a de 29-33, a turbulência recente foi e é mais uma das crises cíclicas, mas (como gosta de dizer a garotada) uma megacrise cíclica, porque pôs e continua pondo em xeque o regime de acumulação dos últimos trinta anos. Ou seja, é mais do que cíclica (como foi a da bolha das pontocom, de 2000), porque é uma crise do regime de acumulação neoliberal. Tanto é assim que não bastaram os trilhões aplicados pelos estados dos principais países capitalistas para salvar seus sistemas financeiros. As consequências da crise de 2008 dos EUA continuam se fazendo sentir, seja no hesitante e minguado crescimento dos próprios EUA, na polarização político-ideológica quase paralisante no bipartidarismo estadunidense, seja na crise europeia, na débâcle grega e na ameaça de efeito dominó sobre Espanha, Itália e Portugal, nos levantes antiditatoriais do Norte da África e do Oriente Médio (afinal o preço dos alimentos foi um componente importante como móvel das rebeliões da Tunísia e do Egito), na desaceleração chinesa, na incerteza quanto aos rumos das economias latino-americanas exportadoras de commodities.

Portanto, é correto dizer que aquela crise financeira pontual dos Estados Unidos de 2007-2008 se fechou momentaneamente por lá graças aos pacotes de salvamento dos bancos. Mas é imprescindível reconhecer que as sacudidas de 2007-2009 e as de 2010, 2011 e 2012 em outras partes do mundo puseram em estado de confusão, sim, os tais mecanismos e instituições pelos quais vem funcionando o sistema nas últimas três décadas. E esta crise global, com raízes estruturais (embora se expresse conjunturalmente), não se fechou. Está em pleno processo. O que não chega a ser exatamente uma novidade histórica. Afinal, a famosa crise de 1929, outra megacrise cíclica, e também uma crise do regime de acumulação do capitalismo de seu tempo (capitaneado pela Inglaterra, seu Império onde o sol nunca se punha, sua Marinha Real e sua libra esterlina lastreada em ouro) na verdade durou conjunturalmente até meados dos anos 30, mas se manteve latente durante a II Guerra Mundial para se fechar, enquanto crise estrutural, com o fim do conflito, a reconstrução da Europa. Então vieram os chamados “trinta anos gloriosos” (1945-1971 ou 1975), baseados estes no regime de Bretton Woods, no FMI, Nações Unidas, no sistema do dólar-ouro, nos estados de bem-estar social nos países centrais (incluído o Japão depois de 1949), na hegemonia americana daquele momento em diante assumida.

Crise e correlação de forças

Destruiu a crise atual em questão o regime de acumulação neoliberal? Claro que não. E está bem longe disso. Mas, combinada com fatores geopolíticos como o levante árabe, a reafirmação da Rússia como potência regional, o espetacular fortalecimento econômico e político da China, o pântano militar estadunidense no Afeganistão e no Iraque, e a resistência dos povos europeus – entre os quais se destacam os trabalhadores e a juventude da Grécia – a crise vem tornando o regime e suas expressões político-militares menos eficazes. Isto tem sido caldo de cultivo fertilíssimo para reações do “andar de baixo” (copyright Elio Gaspari), como os povos árabes têm se esforçado para comprovar.  Se a crise financeira dos EUA se fechou momentaneamente, o mesmo não é possível afirmar nem da crise cíclica global, hoje com a Europa no olho do furacão, nem da crise do neoliberalismo enquanto regime econômico de acumulação. Os processos estão em aberto. (Assim como continuam em abertíssimo os processo de todas as “outras crises”: a do metabolismo do capital, a do meio ambiente, a da direção revolucionária… para que o fundo do auditório fique satisfeito.)

Dizer que o regime de acumulação do capital está em crise, com dificuldades para funcionar, quer dizer que a correlação de forças entre os trabalhadores e seus algozes no mundo foi automaticamente modificada? Em honra da boa e velha metodologia marxista, definitivamente não. Pelo menos ainda não. E a razão é mais simples do que imagina e sonha nosso hipotético auditório em debate. Não há crise econômica capitalista, seja ela de que nível for, que substitua, para fins de mudança da correlação de forças, uma boa greve geral, uma ampla insurreição popular ou até, para agradar outra ala do auditório, quem sabe uma guerrilha de massas. Ou seja, não há crise dos de cima que substitua a necessária reação generalizada, independente e contundente dos de baixo, em particular dos trabalhadores.

Essa reação já começou. Esteve ou está nas ruas de Túnis, do Cairo, de Homs, de Atenas, de Madrid, de Roma, de Lisboa, Montreal e Santiago do Chile. Esteve, ainda que inicialmente e em forma organizativa muito peculiar, nas praças das cidades estadunidenses tomadas pelos jovens e desempregados do Occupy, que, pelo menos em Nova York, começaram, antes de expulsos com o big stick,  a obter o apoio de setores do movimento sindical organizado. Embora com peso social e geopolítico global menor do que o das derrubadas das ditaduras árabes e da resistência dos trabalhadores europeus, não há que deixar passar batidas duas luzes que se acenderam no continente americano, como sinais  adiantados de um novo tempo: a dos filhos dos trabalhadores chilenos, que mobilizaram todo o país e puseram seu governo na parede ao exigir de um Estado que já foi o modelo neoliberal para a América Latina que garanta algo tão antigo quanto a Revolução Francesa e ao mesmo tempo tão anticapitalista na prática: educação superior pública e gratuita para todos. A outra, embora menorzinha, já fez história pelo simbolismo de gritar e ganhar alguma adesão, em pleno centro do sistema financeiro internacional, pela necessária luta dos 99% do povo contra o 1% da banca. Essa é grandeza do modesto, policlassista e esquisito (para padrões latino-americanos) Occupy Wall Street.

Digamos, portanto, que o ataque do time inimigo está um tanto atrapalhado, que o nosso time tem feito contra-ataques cada vez mais eficazes. Mas reconheçamos que ainda não marcamos nem aquele gol capaz de por o placar a nosso favor, nem tivemos uma vitória capaz de nos colocar à frente na tabela. Para mudar a correlação de forças, vai ser preciso mais do que um Chile, mais que um Egito, mais que uma Grécia. Por essa razão, há que ter muito, muito cuidadoso com outra palavra, outro conceito, tão mal-usado e abusado quanto o de crise: a noção de etapa. Se etapa for simplesmente sinônimo de momento, sem dúvida é correto dizer que a crise financeira de 2007-2009, combinada com seus impactos geopolíticos, já abriu um inédito capítulo na história do regime de acumulação. É bem provável que estejamos vivendo algo muito parecido com o que foram os tensos e conflituosos anos 70: um momento de interregno, em que o velho já funciona mal, mas o novo ainda não nasceu. Mas se etapa significar uma determinada correlação de forças entre o trabalho e o capital, entre a potência hegemônica, seus pares, sua periferia e semiperiferia, não, ainda não estamos numa nova etapa.

E aqui façamos a autocrítica devida: a confusão entre uma coisa e outra, entre crise e mudança na correlação de forças, é de responsabilidade da própria esquerda socialista no Brasil. Vez por outra, tentamos compensar a carência de vitórias, a situação muito desfavorável, nosso isolamento, divisão e impasses, pela aposta ingênua na autodestruição da burguesia. Como a correlação de forças no Brasil é altamente desfavorável, como é grande a dificuldade de elaborar políticas para setores amplos da sociedade diante da relativa (mas não eterna) estabilidade econômica e do prestígio (grande, mas não eterno) do governo, nos vemos empurrados a desistir da disputa política ampla, da elaboração de propostas de ação, de programa para o conjunto dos trabalhadores, para optar pelo mero propagandeio abstrato da superioridade do socialismo sobre o capitalismo. Sem dúvida uma atividade importante, mas que, se exclusiva, nos reduz a meros torcedores do time dos explorados e oprimidos. E o momento não é de arquibancada, não. Estamos precisando entrar em campo, auditório, ainda que sob o risco de perder. Faz parte do jogo.


[1] “O motivo dessa impotência [dos Estados Unidos e das antigas potências da Guerra Fria]  estava não apenas na verdadeira profundidade e complexidade da crise mundial, mas também no aparente fracasso de todos os programas, velhos e novos, par controlar e melhorar os problemas da raça humana” (A Era dos Extremos, São Paulo, Companhia das Letras, p.541)

[2] Para fazer justiça ao teórico norte-americano, a interpretação de Wallerstein sobre a crise terminal do sistema mundo capitalista capitaneado pelos EUA não o impede de reconhecer e opinar especificamente sobre a recente crise econômica com eixo em seus país, como em End of the recession? Who´s kidding whom?

[3] “O Brasil nunca esteve fora da crise internacional”, in Jornal Opção, disponível em www.jornalopcao.com.br/posts/entrevista/o-brasil-nunca-esteve-fora-da-crise-internacional e “Metástase da crise e aprofundamento da reversão neocolonial”, in Crítica e Sociedade, vol. 1, nº 3, edição especial Dossier: a crise atual do capitalismo, dezembro de 2011.

[4] “Las tres dimensiones de la crisis”, de maio de 2010, disponível en. inf http://www.argenpress.info/2010/05/las-tres-dimensiones-de-la-crisis.html. “El ajedrez global de la crisis”, in ”, in Crítica e Sociedade, vol 1, nº 3, edição especial Dossier: a crise atual do capitalismo, dezembro de 2011. “Los atolladeros de la economia latinoamericana”, disponível em http://www.rebelion.org/noticia.php?id=139172

[5] “História e Ciências Sociais: a longa duração”, em Escritos sobre História, Perspectiva, 2ª Ed., São Paulo, 1992.

[7] A mundialização financeira, Xamã, São Paulo, 1996.

[8] Em Tavares, M.C e Fiori, J.L. Poder e Dinheiro , uma economia política da globalização, Petrópolis, Vozes, 1997.

[9] A Grande Crise, mimeo. 2008.

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