Truco de 2012

Por Noel Guerra Jr.

Cartas embaralhadas.

Três pra cada.

Pouca luz, pouco vento.

PT verifica, consulta, titubeia,

tem na mão uma CPI do Cachoeira,

não vê outro caminho,

e quase resmungando

pede truco.

Os demais jogadores se olham,

sem que ninguém se Veja,

e o público acompanha em silêncio.

Vaidoso, Gilmar Mendes não se aguenta, e,

com um julgamento do mensalão na mão,

em tom de naturalidade,

pede logo seis.

Os jogadores se ajeitam na mesa.

Os primeiros pingos de suor,

os primeiros sinais de nervosismo,

os primeiros gases são liberados

sem que ninguém se Veja,

e o público, apesar do cheiro de merda,

acompanhando em silêncio.

Jobim tem os milicos na mão,

sabe que pode melar as verdades da Comissão,

e não tem muito a perder,

desde que ninguém o Veja,

e o público permaneça em silêncio.

Olhou pro horizonte

e pediu nove.

Lula sempre espontâneo

não para pra se secar

não para pra pensar

levanta da cadeira

para que a imprensa o Veja

pede doze

chama de pato

bate na mesa

repete “doze, doze, doze!”

exige respostas

sabe o que os outros tem…

e eles sabem também.

Calmaria total.

É quase outubro de dois mil e doze.

Todos,

inclusive Lula

devolvem suas cartas ao baralho.

Rapidamente as escondem no meio do monte,

no meio do Marconi, do Demóstenes,

do Agnelo, do Dirceu,

da Delta,

do Policarpo Otavinho Marinho,

do Banestado, da Alstom, dos Sanguessugas, dos Fundos de Pensão,

do Celso Daniel, do Caseiro, do Daniel Dantas.

Se olham,

se despedem timidamente,

deixam o local,

e sem que ninguém Veja,

levam as outras cartas sob o calção,

pois sabem que Lula ainda tem

o público em silêncio na mão.

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