BRUNA SURFISTINHA OU A DERROTA DE UMA GERAÇÃO

“Para que as vidas em fuga consigam seguir seus caminhos” (Tennesee Willians)

Por Romero Venancio (UFS)

As películas hegemônicas do cinema nativo estão ruins, é cada uma pior do que a outra. Quando se pensava que não poderia vir pior do  que “Se eu fosse você. Parte 25” veio “Nosso Lar” e depois “Chico Xavier” (ou o contrário. Aqui a ordem dos fatores não alteram o produto). Extensão do modelo televisivo -, entenda-se novelístico: Enquadramentos pobres; narrativas tomadas por clichês; uma religiosidade tola e superficial para consumo rápido e; historinhas que mais parecem o velho culto da irrelevância. Este é o cinema brasileiro.

Temos exceções, com alguns poucos bons filmes. Nos últimos anos, tivemos um grupo de filmes bastante irregulares, que tematizam a situação de jovens e adolescentes brasileiros. Pro dia nascer feliz de João Jardim; e m Os famosos e os duendes da morte de Esmir Filho; As melhores coisas do mundo de Lais Bodanzky; Antes que o mundo acabe de Ana Luiza Azevedo e o melhor deles, Se nada mais der certo de José Eduardo Belmonte.

Nesta linha situaria Bruna Surfistinha de Marcus Baldini. Pode-se afirmar que todos os filmes citados problematizam a sua maneira, uma dada situação de jovens e adolescentes brasileiros, na maioria de classe média, perdidos num País que ainda não se encontrou também.

Os filmes retratam um pouco o tédio familiar; escola que não ensina nada e nada se aprende; a cultura tola de adolescentes viciados em irrelevâncias; ausência de sentido cotidiano para a vida e a distância abissal daquela geração que um dia engajou-se na luta por questões grandes e generosas, como socialismo, por exemplo.

Porém, o filme Bruna Surfistinha vai mais longe ao tematizar, ainda que superficialmente, o sofrido e contraditório universo da prostituição de rico e de pobre. Ninguém rouba da prostituta sua representatividade na cadeia produtiva (um pouquinho de Marx!). Ela ganha para satisfazer o apetite sexual dos outros e está quite comercialmente com a “sociedade” que explora literalmente seus serviços.

O filme, produzido a partir do best seller O doce veneno do escorpião, de Raquel Pacheco aparece como que desejando deixar para trás capitão Nascimento (acredito que se saiba de que filme estou falando) e Chico Xavier. Entre estes três personagens: Nascimento, Chico, o Xavier e Bruna, de longe fico com o mais honesto deles: Bruna Surfistinha.

Bruna é o que sempre foi, uma Raquel. Este seu nome verdadeiro e que na origem hebraica remete à amorosidade e ao sofrimento (sentimento que mais se encaixa na vida da personagem).

Protagonizada por uma Deborah Secco ansiosa e seca (sentido literal e físico) e boa para o papel: a garota de programa encarna todo o penar, até quando se diverte com as amigas. O filme ignora explicações (bem ao modo do cinema brasileiro dito ou auto-intitulado pós-moderno). Mas parece que, desde menina, Surfistinha não se deu bem com a família que a adotou. Deduz-se nas cenas à mesa de jantar que o pai fora indiferente e a mãe amorosa, mas submissa, e o irmão calhorda e de palavreado pequeno burguês universitário (ou otário, o que faz pouca diferença).

Na escola, a professora nem chega a ter o mínimo interesse pela estudante Raquel e por fim, ainda é humilhada sexualmente por um colega completamente idiota e rico (as duas palavras são quase a mesma coisa). O mais interessante: a saída não-psicológica da adolescente é ir ao prostíbulo trabalhar, assim prossegue um sofrimento de uma nota só.

Deve ser triste fazer sexo anal no primeiro programa da vida, daqui segue o sexo com todo o tipo de homem. Uma coisa nos chama a atenção: ainda que aceitemos seu sofrimento sem razão, ela não é uma heroína de cinema americano, que mude a partir do que sofre.

Acredito ser isto o melhor do filme, que a afasta de “Uma linda mulher” como Julia Roberts (de triste memória). Tampouco tem apetite pela prostituição que o escritor Henry Miller exaltou. Nem se parece com a frieza da personagem de La belle de Jou de Buñuel. Bruna ao contrário de todas essas famosas da ficção, jamais deseja mudar sua visibilidade social, cultivar o mistério ou o prazer. Ela quer grana desde o começo e se “fode” nos vários sentidos por isto.

Um momento parece luminoso para se entender um Brasil contemporâneo da onda Neoliberal: o diálogo estabelecido entre a jovem e seu antigo cliente no momento em que ela lhe apresenta o negócio próprio: “Você não achava que eu não chegaria lá, não é?” “Lá onde?” É quando a garota aponta para o computador. “Lá”, deduz o espectador, vem ser o blog no qual, com verve, ela conquista clientes para os programas de sexo.

O filme tem bons atores, como Drica Moraes que rouba a cena em vários momentos no papel clichê de cafetina. Agora, sem dúvida, o melhor do filme é a trilha sonora produzida por Tejo Damasceno e Gui Amabis, com direito ao impagável fake plastic trees, do radiohead.

Perto do cinema feito para imitar novela da Globo, Bruna Surfistinha é um bom filme. E mais: é a prova cabal da derrota de uma geração de jovens que só encontram saída individual, na lógica do “salve-se quem poder” bem ao gosto do triunfante capitalismo contemporâneo.

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