Toda mãe também é puta

por Kalu retirado do Blog Mamíferas.

Somos educadas para ser santa. A maioria de nós, pelo menos. Feche as pernas, não suba na árvore, comporte-se como menina, não fale palavrão, seu corpo deve servir a um homem. Prenda suas cabras que eu solto meus bodes, diz o ditado popular. São os sapatos apertados que tentam corrigir nossos passos, guiar nossa sexualidade, como bem diz a Clarice Pinkola, no livro Ciranda das Mulheres Sábias. O menino que pega todas na escola é o garanhão. A menina: a vadia, galinha, vaca, piranha, piriguete. Coloca-se um rótulo, como bem disse  Xico Sá: as mulheres para se ter prazer, as mulheres para se casar.

Eu tive uma educação bem moralista: estudei em colégio de freira e sempre escutei muitas das frases acima. Tinha medo da minha sexualidade. Comecei minha vida sexual aos 18 anos. Foi no teatro que consegui entrar em contato com esta energia que trancava dentro de mim, com medo. Minha busca era por ser santa, como se isso fosse o mais adequado a se fazer. As sombras, a puta, a sexualidade eu trancafiava dentro de mim. Até que uma peça de teatro eu me liberei e gritei para uma platéia cheia, incluindo meus pais: Eu sou uma puta! Sim, eu tambem sou.

Quando esta mulher vira mãe a coisa ganha um manto ainda mais perigoso. Ser mãe é deixar de ser mulher. Na cabeça dos homens, das mulheres e de toda a sociedade. Claro que cada um lida com os momentos da vida de uma maneira particular. Mas existe um pensamento coletivo que por mais que tentemos sair dele, são as vozes que ecoam dentro de nós.

Uma gestante é quase sempre registrada como uma estátua de Nossa Senhora, quando na verdade, muitas vezes a gestação é um encontro com a luz e as sombras da sexualidade. Se para parir, como disse Michel Odent, precisamos das mesmas condições necessárias para o ato sexual, uma vez que ambos os eventos são regidos pela presença da ocitocina, uma mulher grávida deveria se sentir como uma verdadeira deusa do prazer (Kamadeva).

Algumas mulheres vivem a gestação cheias de desconfortos, falta de libido. Mas muitas, como eu, experimentam a sensação oposta: uma libido acima do comum. Por isso eu digo: mãe também é puta. Toda a ocitocina, todo o prazer vivenciado durante a gestação certamente fará muito bem para mãe/filho.

Posso dizer que quem pariu foi minha faceta putana. Quela que se entrega, se permite, rebola, conhece o corpo, sabe o que ele precisa e decide o que quer. Talvez muitas mulheres optem pela cesárea, naõ com medo da dor, mas com pânico de conhecerem esta instancia mais selvagem e fêmea de si mesmas.

Gosto de registrar mulheres em trabalho de parto. Elas se despem de suas roupas, de seus medos. elas experimentam um verdadeiro contato com a energia sexual. Vejo, como doula fotografa, meninas morrendo e nascendo mulheres, fêmeas, que gemem, rebolam, determinam o que querem. Vejo as santas dando lugares às putas (ou fêmeas, se preferirem).

De posse do poder da sexualidade, a gente consegue enfrentar os medos, consegue se despir das amarras, dos sapatos apertados, se abrir de corpo, alma e espírito para trazer uma vida para o planeta. E na passagem da criança, romper com a praga que está na bíblia: parirás com dor transforma-se em gozará ao trazer um novo ser.

Afinal este ser foi feito desta energia sexual, que quanto mais liberta e intensa, melhor memória deixou. Nascer em um orgasmo é bendito, benfeito e bem-vindo.

Com o filho pequeno no colo, demandando toda a nossa energia, às vezes falta fogo para retomar a vida sexual. À medida que a criança ganha mais autonomia, a libido volta a estar presente. Essa é a hora de pegar as experiências vividas e resgatar os fragmentos da sexualidade de uma forma madura e consciente.

Mães usam lingerie, mães assistem filmes de sacanagem, gostam de variar a posição sexual, gozam, usam decote. Mães são santas sim e putas, como toda a mulher de verdade o é. Quem veste a mascara de uma ou outra, perdeu-se de si mesma. Onde existe luz, existe sombra.

Fonte: http://www.mamiferas.com/blog/2012/05/toda-mae-tambem-e-puta.html

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