Sobre o militante comunista

Por Fernando Marcelino

Para Wagner Tauscheck

Numa era em que o capitalismo-democrático global é apresentado como nosso destino inexorável e que, assim, nos adaptamos a ele ou somos esmagados pelo ritmo da história, que fazer?

Em primeiro lugar, a lição que talvez sejamos forçados a aprender de nossas condições econômicas e políticas atuais é que um capitalismo humano, social, ecológico e verdadeiramente democrático e igualitário é mais irreal, ilusório e utópico do que o Comunismo. Assim, é tempo de voltar ao Comunismo? Entretanto, qual Comunismo? Ou então, um outro Comunismo é possível?

Vale lembrar que o fracasso do stalinismo não invalida o horizonte de emancipação radical que é o Comunismo. Por isso, é preciso reabilitar e ressignificar urgentemente o Comunismo.

O Comunismo depende da articulação ativa dos sujeitos sociais que constroem na sua práxis uma dinâmica associativa em que, como dizia Marx, o livre desenvolvimento de um é a condição para o livre desenvolvimento de todos. O estímulo do militante comunista não depende do Outro para que regulamente ou ordene. Depende do dever em relação a sociedade que estamos construindo. Esse é um trabalho cotidiano, como dizia Che, “no sentido interno de aperfeiçoamento, de aumento de conhecimentos, do aumento da compreensão do mundo que nos rodeia. Inquirir, averiguar e conhecer bem o porquê das coisas, equacionar sempre os grandes problemas da humanidade como problemas próprios”. Por isso que o recado de Rosa Luxemburgo também é mais crucial: “com homens preguiçosos, levianos, egoístas, irrefletidos e indiferentes não se pode realizar o socialismo. A sociedade socialista precisa de homens que estejam, cada um em seu lugar, cheios de paixão e entusiasmo pelo bem-estar coletivo”. Assim, do militante comunista se impõem coragem e perseverança baseada numa clareza interior que não coloca em dúvida a causa pela qual se está lutando. A natureza associativa do militante busca demonstrar que a força coletiva supre as fraquezas individuais num trabalho de organização permanente para colaborar em ações concretas em massa visando objetivos comuns – tanto negativos em relação a ordem existente como positivos no sentido de serem mediações a uma nova sociedade. Nesse processo de luta de classes não existem espectadores inocentes. Nos momentos cruciais de decisão revolucionária a própria inocência – que não quer tomar decisões como se a luta que estou testemunhando realmente não me concernisse – é a mais alta traição. Como salienta Slavoj Zizek, o medo de ser acusado de traição é a minha traição, porque, mesmo que “nada tenha feito contra a revolução”, esse próprio medo, o fato de que ele surja dentro de mim, demonstra que minha posição subjetiva é externa à revolução, que eu vivo a “revolução” como força externa que me ameaça.

Não basta permanecer fiel a hipótese comunista: é necessário localizar a realidade histórica as contradições que transformem o comunismo numa urgência prática. O papel dos comunistas continua o de ser o pedagogo das classes trabalhadoras livre aos ensinamentos de uma linha de massas que lhe possa acrescentar um projeto de futura igualdade social. Isso faz com que a militância não seja apenas um envolvimento mais ou menos limitado em discussões, geralmente reduzido ao ritual extremamente vazio de “consulta”, mas a aquisição progressiva dos poderes alienados de tomada de decisão usurpados pelo capital e pelo Estado que são retomados pelo corpo social e territorial. A militância procura o exercício criativo e autoaperfeiçoador, em benefício de todos, dos poderes de tomada de decisão adquiridos conjuntamente.

Talvez seja por isso que uma vez Che falou que, mesmo correndo o risco de parecer ridículo, o verdadeiro revolucionário é guiado por grandes sentimentos de amor. Seria impossível pensar num militante sem essa qualidade. Entretanto, que amor seria esse? Acredito que essa concepção de amor é muito parecida com a de Jacques Lacan: amor é dar o que não se tem para quem não quer. O militante não se limita a dar, mas recebe, em alguns momentos, muito mais do que aquilo que dá: adquire novas experiências, maturidade política, aprende como vivem nossos camponeses e trabalhadores, novas formas de contato humano, aprende a lidar com o inimigo, organizar o povo, etc. No limite, a militância é um exercício de autodisciplina contínua e sem fim. O fato de que as formalidades e do glamour não se adaptarem a militância não exclui a necessidade de exercitarmos uma disciplina popular estrita e informal que se alimenta da convicção profunda no combate que estamos integrados e que defenda os interesses do povo.

A militância depende de fé e convivência no movimento popular cotidiano como o motor das transformações históricas substanciais. O intuito do militante é de treinar o auto-controle diante da consciência histórica de dever com a sociedade socialista que estamos construindo. Não seria exagero dizer que todo revolucionário autentico tem de assumir a atitude de abstrair completamente a imbecil particularidade de sua própria existência imediata. Essa coragem do militante deve ser construída progressivamente e conscientemente em atos cotidianos que sirvam de exemplos-vivos para afinarmos nossos espíritos revolucionários. A coragem é a virtude que se manifesta pela materialização do impossível. A hora do destino chegou. Como dizia Mao Tsé-Tung, “a ação não deve ser uma reação, mas sim uma criação”. Criemos o corajoso militante do século XXI: nós mesmos.

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