MEMÓRIAS DE MULHERES POBRES OU POR OUTRA POSSIBILIDADE DO VIVER. NOTAS SOBRE O FIO DAS MISSANGAS DE MIA COUTO

Por Romero Venancio

A experiência que passa de pessoa a pessoa é a fonte a que recorrem todos os narradores. E, entre as narrativas escritas, as melhores são as que menos se distinguem das histórias orais contadas pelos inúmeros narradores anônimos“. (Walter Benjamin. In: O Narrador).

Frase mais que adequada para caracterizar a “arte do conto” praticada por este escritor moçambicano que tem a graça de Mia Couto. A beleza, o singelo e a linguagem dos de baixo ganham imenso significado na sua escrita. Com ele a narrativa volta a contar história com sentido, diferentemente do que imaginava Walter Benjamin nos anos obscuros pós-primeira guerra mundial e do nazi-fascismo. Dizia o filósofo alemão que, a “narrativa estava morta”, porque os “narradores” voltavam mudos da guerra.

A vivência de uma guerra era tão brutal que os que a ela sobreviviam não tinham experiências a narrar. Tese poderosa mas que perde sentido em Mia Couto. Os personagens simples e do povo do escritor de Moçambique não só narram, inventam, contam, como nascem carregados de experiência e é tal a carga, que as histórias assumem a verdade que toda vida é.

Um país estrangeiro começa onde já não reconhecemos parente“. Esta é a fala da avó Ndzima, personagem de um dos contos de O fio das missangas. Retirada de seu contexto, a frase faz refletir sobre a curiosa sensação de familiaridade que esses textos despertam, como se Moçambique fosse logo ali, um lugar muito próximo, composto de uma parentela cultural e linguística subitamente revelada. Acompanha o volume de contos um glossário de apenas 08 verbetes, menos do que necessário para ler fluentemente uma obra do nosso tão variado regionalismo.

 Mia Couto é já, além de uma voz universal, um parente que não podemos deixar de visitar, sob pena de não compreendermos a fundo a nossa própria gente pobre. O fio das missangas, como sugere o título, corresponde a uma linha narrativa que compõe um colar, um adereço feminino: predominam nos contos o protagonismo da narrativa de mulheres, donas de uma tradição que corre paralelamente à lógica, ao poder instituído pela força e dominação patriarcais.

Um colar que é também rosário do feminino duplamente vitimizado, seja pela cultura nativa, seja pela dominante, cujas decisões e interesses fatalmente controlam o corpo e desejo da mulheres. Entretanto, essas mulheres se enfeitam, a si e ao mundo, no colorido das missangas – imagem da beleza possível, e a que se dá tão pouco a ver.

Assim se somam as contas de bijuteria: moças castradas, emudecidas por protesto, ilusões perdidas, saias sem roda, viúvas abandonadas, velhas aldeãs que se tornam pedintes no semáforo da grande cidade. Protagonista sem nome resume sua tristeza de nascença: “nasci para a cozinha, pano e pranto… Mais que o dia seguinte, eu esperava pela vida seguinte“. São, no geral, seres tristes que encontram no pranto o escape da beleza, descritos por uma linguagem graciosa, que lhes dá a leveza necessária e promove o encontro do choro com o riso: “Minhas nádegas enviuvaram de assento em assento, em acento circunflexo“.

O circulo da missangas exibe também seu avesso risonho. As histórias em geral são marcadas pela presença de personagens masculinos, cuja tirania mal consegue ocultar as fragilidades e os medos de um ethos que é, no fundo, deveras infantil, de seres que, por dificuldades que poderemos adivinhar, tiveram suas infância roubada pela luta da sobrevivência.

Não raro ralham com suas mulheres, cobrando-lhes o siso que a eles mesmos oprime; “Que é isto, mulher? já a formiga tem guitarra?”, pegunta um irritado personagem mas culino . São vozes de um povo que acumula nos olhos e nas palavras a velhice dos antepassados, mas que teve também a infância e o viço juvenil usurpados pelos desastres da colonização. Uma dor que conhecemos bem, tanto quanto a urgência da alegria como celebração gratuita da vida.

O fato é que, das margens em que vive esse feminino, infantil e visionário, nascem contos que, se de um lado facilmente abrigam o lirismo que Mia Couto tem sempre à mão, derivam também muito naturalmente para o realismo mágico, de modo a instaurar uma outra lógica que corre à revelia do mundo a que chamamos real. Aliás, talvez seja mesmo o sentido ético das missangas: o de deslindar outras possibilidades do viver. Não é outra a razão nem outra ciência que fundamentam a singela pergunta, tão verossímil em voz africana: “a realidade não é um sonho fabricado pelos mais ricos?” indaga uma personagem.

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