Radicais na Grécia, Crise do Real e de Ficções.

Por Venâncio Guerrero

A extrema esquerda na Grécia teve um crescimento consistente, o Syriza conseguiu 50 deputados, rompendo o gueto eleitoral, os “1%”s ou “7%”’s de famigerados votos tão comum aos radicais em todo mundo. Agora, os “extremistas gregos” são a segunda maior força política, depois dos conservadores da Nova Democracia, desbancando os Socialistas (de verdade?) do Pasok. Nesta mesma esteira, voltam a ocorrer solavancos na Acumulação Mundial, contrariando os presságios de um Real Forte, nossa moeda também foi contagiada pelo efeito europeu. Qual a relação entre a vitória da Esquerda, a Crise e a desvalorização do Real?

Começamos pelo Real. A crise financeira internacional está desafiando o poder de nossa moeda. Os investidores estão indo embora e o Real desvalorizou. Já discutimos em outro artigo (cf:a crise não passou sua fatura ) a característica de nossa moeda, de viver mais para os Outros que para o Brasil. O Real é um ativo e uma mercadoria que servem ao serem descartados. Antes da crise, o dólar havia chegado a 2,50 de reais. Foi no momento que o Brasil começou a recuperar-se, e principalmente durante o ano de 2010 –  anos com especulações de  Brasil Potente –, que tivemos uma forte valorização do real. Assim, logo após esta suposta recuperação, os dólares vieram, compraram reais baratos, até valorizar nas casas de “U$1,00 dólar compra R$ 1,70 de reais”. Agora, eles vão embora para lucrar com a alta. Assim, o cambio volta à casa dos “U$ 1,00 compra R$ 2,00 de reais”. E o investidor ganha, comprando barato e vendendo caro (1).

Parece que a realidade por trás do conto quer evidenciar-se. Toda esta história de Brasil na Copa do Mundo, Emergência e Desenvolvimento estão demonstrando seu caráter profundamente financeirizado e especulativo. Aqui, a inovação na política é fazer do Governo um forte player no mercado financeiro, criando expectativas, e gerando lucros fictícios com marketing político. Mas, ficção é ficção, e está sendo demonstrado na Bolha do Brasil. O Brasil ainda é profundamente dependente da mundialização do capital.

A desconexão fazia parte da conexão numa relação intricada e dialética. As políticas internas de incentivo ao capital (2) do governo Lula criaram um fôlego na economia interna, que alimentou uma ilusão de desconexão da economia brasileira à mundialização do capital. O que ocorreu foi: a aceleração do mercado interno promoveu um aprofundamento desta conexão, em que os capitais especulativos passaram a depender desta marca Brasil, alimentado-a em grande proporção, e nossa economia também se tornou profundamente viciada destes capitais.

A crise externa vem demonstrando isto, a demanda dos países da Europa, principalmente por conta do baixo crescimento (3) estão puxando para baixo as exportações brasileiras. As multinacionais estão repatriando dólares rapidamente (4). Porém, aqui se conjuga crise externa com crise interna, pois a indústria vem perdendo fôlego com a demanda de brasileiros endividados, mesmo com políticas de incentivos à indústria e ao consumo (5).

E a Grécia? Por causa da crise da dívida dos países europeus, os investidores estão tirando dólares do Brasil para cobrir prejuízos com os títulos que detém na Europa. A Alemanha depende fortemente da Zona do Euro para ser competitiva, isto é, necessita de mercados menores e governos subordinados para manterem-se na ponta, caso isto não ocorra, os míseros 0,5% de crescimento e as exportações dos excedentes alemães estão ameaçados.

Aqui, entra uma variante política. Pois, se analisamos modelos e ficamos nas abstrações da Ciência Econômica dominante, deixamos de entender o encaminhar desta crise. Pois, a Europa poderia, pelo menos, do ponto de vista grego, ter se ajeitado desde a aprovação dos pacotes de ajuda à economia grega, e do cancelamento do referendo (6) pelo Partido Socialista (PASOK). Mas, o povo grego está demonstrando que não pode ajudar o capitalismo sair de sua crise, criando um estado interno de emergência social.

Pois, as eleições passaram a perna na esquerda capitalista, o PASOK (7) perdeu feio. Todos os setores da esquerda que pregam pela ruptura e desconexão com a Zona do Euro ganharam. Isto é, se tornou hegemônico o programa que diz não aos pacotes de austeridade – que se aplicados podem recuperar alguma lucratividade dos capitais europeus, à custa de desemprego e de miséria na Grécia. Portanto, a luta popular grega produziu mais crise nos países Europeus. Juntamos o ato de Cristina Kichner de nacionalizar a Repsol Espanhola –  que especulava com o povo argentino ao diminuir a produção e aumentar o preço – e temos o quadro da crise: alguém deve pagá-la.

A esquerda grega tem a saída da crise: Desconexão verdadeira e Ruptura. A luta de classes está ensinando a possibilidade de passar a fatura sobre os verdadeiros responsáveis. O Povo Grego não quer pagar pelos seus banqueiros, capitalistas e investidores europeus. Assim, lemos a queda no mundo e no Brasil.

Por outro lado, também demonstra que a economia brasileira está totalmente integrada neste jogo, e as contradições internas (8) podem acelerar a crise externa. Pois, mesmo que ao Guido Mantega pareça benéfico à desvalorização do real, ela significa ameaça de acelerar inflação interna (9). As ilusões e as bolhas vão estourando.

Ainda que embrionárias, a crise apresenta saídas e significam rupturas e não continuidades, o que pode gerar mais contradições nos países que permanecem no circuito de valorização do capital. É necessário romper com o círculo hierárquico da Divisão Internacional do Trabalho. Romper para que? Só ao povo em luta cabe esta resposta.

Notas e Referências

(1) Suponhamos que um investidor internacional com o cambio em “R$ 2,50” compre R$ 2.500,00 reais com U$ 1.000,00. Agora poderá, com estes U$ 2.500,00, tendo um cambio e “R$ 2,00” poderá comprar U$ 1.200,00. Se ele fosse mais esperto e comprasse dólar, quando o cambio havia chegado a R$ 1,70, poderia comprar U$ 1.470,00, obtendo com a especulação um lucro de U$ 470,00, corroídos pela inflação do país, mas ainda sim altos. Agora, você acha que investidores especulam com U$ 1.000,00 dólares?

(2) Enumeramos algumas delas: (i) Política sociais e tributários de incentivo de consumo (ii)  subsídios ao agronegócio, à construção civil (Plano Minha Casa Minha Vida, Estádios da Copa) e à indústria. Tudo isto feito sobre a manutenção institucional do consenso de não intervenção direta nas empresas, tais como: (a) Flexibilidade herdada do Governo FHC, de mercados de trabalho, financeiro (aa) Concentração da estrutura de propriedade fundiária – urbana e rural (aaa) Incentivo na consolidação dos oligopólios com a formação de megaempresas brasileiras

(3) Crescimento da Alemanha de 0,5% no primeiro trimestre. Queda dos PIB da Itália em 0,8%, da Espanha em 0,3% e de Portugal de 0,1%.

(4) Matéria interessante do Financial Times e veiculada por Nelson de Sá em http://todamidia.blogfolha.uol.com.br/2012/05/07/investimento-externo-tem-recorde-mas-multinacionais-repatriam-lucros-rapidamente/

(5) Os dados vem demonstrando aumento da inadimplência (Serasaexperian) e diminuição da demanda da indústria por produtos importados, além do crescimento menor de emprego. Confira: ibge.gov.br, ipea.gov.br e http://www.serasaexperian.com.br/release/indicadores/index.htm

(6) Referendo sobre a aprovação ou não de acordos de austeridade feito junto a União Européia, a mando do Governo Francês de Sarkozy e Alemão de Ângela Merkel.

(7) a versão do PT na Grécia, um partido de esquerda que não advoga pela ruptura, uma esquerda capitalista e pró-mercado, em síntese um “Partido Ponderado”.

(8) Inflação imposta pelos monopólios e pelo modelo do agronegócio de exportação de recursos naturais (terra e água) em forma de soja, cana-de-açúcar, gado e etanol, ao invés de produzir internamente. A isto se soma, inflação e superprodução no mercado imobiliário que gera no curto prazo aumento do preço das casas e dos alugueis e no médio prazo desequilíbrio entre oferta e demanda, causando desemprego. Por fim, a superprodução de 2010, com crescimento de estoques e arrefecimento do crescimento em 2011.

(9) Há processo conjugado de aumento das exportações, principalmente de soja e outras commodities – diminuição de oferta de alimentos internamente e encarecimento de todos produtos importados.

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