E, Agora PT?

Por Fernando Marcelino

Algumas perguntas clássicas embalam os debates de milhares militantes petistas desde o início dos tempos: o PT é um partido socialista ou socialdemocrata? Um partido revolucionário ou reformista? Um partido à serviço das lutas sociais ou de carreiras eleitorais?

Nas últimas décadas, o Partido certamente vive um processo de abandono da luta pelo socialismo, se limitando a lutar contra o neoliberalismo, por um capitalismo mais democrático, humano e menos cruel. Os setores mais à esquerda do PT, entretanto, acreditam que o PT é hoje um partido social-democrática, mas que eventualmente o PT possa se transformar num partido socialista. Aqueles que não acreditam nesta possibilidade fazem uma oposição do lado de fora do PT. Durante estes (des)caminhos da esquerda brasileira, alguns abandonam a militância, outros se acomodam e outros buscam alternativas. O cenário ainda é incerto diante da fragmentação das forças de esquerda nas diversas lutas no movimento popular, nos sindicatos e no parlamento.

De qualquer forma, existe um sentimento generalizado que o PT deixou de articular lutas combativas de massa que pudessem incentivar a luta popular contra as oligarquias regionais, centros do poder reacionário na mídia e no judiciário, os latifundiários, milicianos, o capital imobiliário, a burocracia corrupta, os culpados históricos pelo atraso brasileiro da Ditadura a FHC, etc.

Mas e o PT na direção do governo federal ajudou a transformar esse processo ou apenas consolidou essa tendência de imobilismo perante os inimigos do povo?

Como o maior promotor da “governabilidade” é o governo dirigido pelo PT, o PT no governo está se tornando um inimigo do PT como organização política. A superação definitiva do neoliberalismo, infelizmente, parece que só pode ocorrer se for articulado por fora do Estado, e não apenas dentro dele. Sem lutas sociais de massa contra os inimigos reais da realização do projeto “democrático e popular pós-neoliberal”, o PT se encontra numa sinuca de bico, se encostando no Estado para cumprir sua política de acúmulo de forças. Para realizar esse “acúmulo de força”, o PT depende cada vez menos de algum socialismo por vir estabelecer alianças. Por isso, a questão fundamental é: a existência do PT é um obstáculo ou uma alavanca para a solução daqueles  problemas estratégicos da passagem do pós-neoliberalismo ao socialismo, bem como, para os problemas táticos cotidianos da luta de classes no Brasil?

O PT hoje é, evidentemente, um partido socialdemocrata, no sentido clássico da palavra. Mas e os socialistas? O que resta dos socialistas se encontram numa situação de um forte questionamento ao partido hegemônico, o PT, com desenvolvimento e surgimento de alternativas reais ou imaginárias (dentro e fora do PT). A linha hegemônica do Campo Majoritário, por outro lado, sempre procurou chegar ao poder para dar contas das tarefas inconclusas da revolução democrático-burguesa e civilizar o capitalismo brasileiro. Novamente: e os socialistas nisso tudo? Ao que tudo parece, a questão de fundo continua em aberto e o desafio só cresce a cada dia para todas as organizações de esquerda. A verdadeira questão hoje é: se não colocarmos em movimento a maior parte dos trabalhadores, que são assalariados urbanos das periferias, não haverá revolução socialista no Brasil.

Que instrumento político pode cumprir esse papel histórico? É possível que, diante deste processo o reagrupamento da esquerda socialista pode ocorrer em torno do PT ou de outra organização político-partidária.

Que fazer? Qualquer instrumento político de esquerda se perguntaria: o que fazer para se tornar uma liderança política para a velha e a nova classe trabalhadora?

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