Cena Contemporânea: Emicida Versus Alexandre Pires.

Por Romero Venancio (Departamento de Filosofia – UFS)

Acredito que muita gente deve ter visto notícias de dois acontecimentos periféricos no último final de semana. A primeira foi a “nova” música de Alexandre Pires onde “negros + Neymar do futebol” aparecem vestidos de macaco, em consonância com a própria letra que sugere uma relação de qualidade. A segunda: prisão do rap Emicida no domingo, acusado pela polícia de Belo horizonte de incitar à violência e o desacato às autoridades (esta polícia que entende bem o “respeito ao ser humano pobre no Brasil”! Tem “diploma disto”). Aqui devemos questionar a qualidade e a criatividade da música brasileira, alegorias de nossa História.

A primeira cena nos ensina uma música de péssima qualidade (bem a altura do compositor cabeça de vento e midiático). O ministério público se posicionou e julgou-a como incitação ao racismo. No sábado e domingo, o cantor teve espaço em horário nobre para se defender, afirmando ser negro e contra o racismo. No programa “Fantástico” (título historicamente apropriado!) na rede globo, mais uma vez estava lá o Alexandre Pires e de novo dizendo que a música não faz apologia ao racismo. Em nenhum momento se defende do conteúdo da música e de sua “coreografia” (que já diz muito sobre racismo ou não). Lamentável e coerente à situação da música brasileira.

Triste pelo tipo de vulgaridade apelativa, pobre e preconceituosa que embarca certos “gêneros musicais” nos dias atuais, num País tão rico em ritmos e letras. Coerente porque este é o “estado da música hegemônica brasileira” contemporânea. Tola e pobre em coreografia (basta ver a “coreografia” sutil de Michel Teló!!!) e com rara criatividade (para saber o que significa criatividade na música, vejamos “Alquimistas do Som“, documentário sobre a música experimental no Brasil).

A mídia cumpre seu papel de alimentar esta situação lamentável no caso do rap Emicida. Apenas noticia o fato da prisão e a razão da polícia. Obviamente, omitem sua fala, defesa e a música em questão. Trata-se da inteligente “Dedo na Ferida“, onde o rap dedica aos muitos e muitos pobres deste País, a todos os brasileiros despejados de suas moradias. Música para as crianças humilhadas e agredidas pelos mesmos “educados policiais” que prendem Emicida e fazem vista grossa para os músicos como Alexandre Pires.

A música é um dedo na ferida mesmo, ao indicar: “Porque a justiça deles, só vai em cima de quem usa chinelo”. Precisa mais? Na verdade o que a policia prendeu não foi simplesmente o rap, mas um tipo de música que fala e se coloca ao lado dos de baixo num País profundamente injusto e perverso com os da “Senzala” (metáfora mais que apropriada no dia 13 de maio!!!???).

A “Casa-Grande” deste Brasil não suporta as músicas críticas, bem construídas esteticamente e sem apelação às cabeças de vento como Neymar ou às mulheres peladas de uma mídia simultaneamente, pornográfica e moralista. Como muito bem diagnosticou o Psicanalista Tales Ab`Sáber no seu extraordinário ensaio sobre o Brasil contemporâneo “Lulismo: carisma pop e cultura anticrítica” (editora Hedra, 2011), o nosso debate atual esta completamente rebaixado pelo triunfo absurdo da cultura anticrítica de entronização da irrelevância como norma. 

Como não acredito em dominação total, vejo em figuras como Emicida e na sua coragem e inteligência, a esperança na resistência em termos algo esteticamente contra-hegemônico nessa maré de lama e de mediocridade campeã na cultura brasileira atual.

Por fim, percebemos uma pequena ironia nessa história: ambos são negros, Emicida e Alexandre Pires. É fato notório. Mas o primeiro se identifica com a “Senzala” e o segundo vive e se identifica com a “Casa-Grande” (mídia hegemônica, revistas sensacionalistas, programa bobocas de auditório e por ai vai). Aqui está a ironia e uma pequena alegoria da história no Brasil que chega aos nossos dias sem completar um verdadeiro “13 de Maio de 1888” e ainda na espera um real “20 de Novembro”.

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