Sobre Verdadeiras Identidades e das Razões das Razões.

Por Venâncio Guerrero

A foto era bonita. Um casal certeiro. Casal 20? Nome bobo. Brega. Fora de moda. Isto argumentava João Namorado a sua Mãe. Tudo convencional. Três anos de namoro. Quatro de noivado. Melhor, eram amigos de infância, descendentes de italianos. Filhos da Moca. Melhor ainda, uma grande festa de casamento, dividida entre pais da noiva e do noivo. Olhamos a foto e conseguimos perceber a alegria de João Namorado e de Maria Cândida. Se formos olhar todos as fotos: vemos o cachorro Pitufo alegre, entre os convidados, um Collie todo arrumado. A Joaninha toda bonitinha, a daminha mais linda do mundo. Os velhos sogros todos elegantes. Sim. Uma família ótima. Presentes legais. Como podemos negar a felicidade deste Casal 20? Não. Não dá. Difícil. Eles já tinham comprado um apartamento. João Namorado era um advogado com futuro. Quatro anos de formação, estagiando desde sempre. Trabalha em um prédio espelhado, numa grande Operadora de Seguro Renomada. Cuidava do setor de Seguro Fiança. Ela, uma menina bonita, com mesmo tempo de formação e experiência do marido. Relações Públicas do setor de Sustentabilidade de uma Grande Empresa Extrativista. Cuidava especialmente de convencer aos pequenos da Amazônia a trabalhar para eles. Casamento perfeito?

(….)

Não agüento mais. Maria Cândida. Maria Cândida. Você é tão agressiva. Dura. Dura. Todos gostam de você. Todos. Enfim, não te conhecem. Não. Não na realidade. Toda meiga no trabalho. Toda lindinha. Aqui em casa é horrível sempre. Esta tua autoridade em querer sempre mandar e mandar. Eu não te agüento. Vivo em um mundo torturado. Eu sempre acreditei que você fosse doce. Durante a escola, a faculdade, a infância, os jogos, tudo mentira. Agora, conheço a verdadeira Maria Cândida. Autoritária. Histérica. Vivemos em um constante conflito. Ela burla da minha sensibilidade. Outro dia eu lhe trouxe flores, ela ria. Brega. Muito brega. Eu escrevi uma poesia. Chamou-me de viado. Eu gosto de ir aos museus de arte e ela me ironiza. Gosto de cores suaves. Sim. Tenho uma sensibilidade para arte, meu sonho era deixar esta horrível profissão do direito. Não comento para ninguém, mas sou torturado cotidianamente por aplicar leis que servem para ferrar com outras pessoas. Basta. Mas, ela brinca comigo, outro dia chorei por causa de um cliente, que desesperado, pedia para aprovar seu aluguel. Ela disse que Homem não chora, e escarrou na minha cara. Odeio você Maria Cândida. Porém, ainda somos um bonito casal, tenho de aceitá-la. Não. Não tenho. Eu sou o Homem desta Casa, exijo respeito, exijo minha autoridade de Marido.

(…)

Homem idiota. Por que casar com Homens Idiotas? Para ter uma bonita festa. Para ser uma Bonita Mulher? Ele não é feio. Isto não importa. Um pateta. Como um tonto pode ser um Chefe de Casa? Eu mando. Sim. Ele sempre quis ser o Dono da Casa, sempre tentou impor sua suposta autoridade. No começo aceitei passivamente. Nos amamos, supunha. Éramos um casal perfeito. Sim. Eu era uma boa mulher, tomava conta dos afazeres de casa, e ele deitado na Internet, com seus amigos. Sempre na musculação e eu preocupada com assuntos financeiros e domésticos. Ele ainda queria mandar. Estourei. Sim. Sim. Minhas frustrações se avolumam. Meu trabalho é horripilante. Todo dia tenho de matar uma nova concorrente. Sempre. Sempre. Enfim, em casa meu marido não tem pulso. Por isto tive de comandar. Tenho de ser a representante para todas as atividades com amigos e família. Ele sempre comprando e comprando roupas, comprando até para os amigos. Para que comprar um espelho que toma conta do Quarto inteiro? Eu tive de tomar o pulso. Sempre. Maldito, João Namorado, te odeio.

(…)

Livre. Livre. Livre. Quantas vezes tenho de dizer? Sinto aliviada. Até vejo diferente ao homem com quem compartilhei amores e uma cama. Antes, o detestava. Nos quatro anos que estivemos juntos, a felicidade inexistiu. O Namoro parecia tão tranqüilo, mas a vivência em casa se tornou insuportável. Achei João Namorado mais bonito no dia de nossa separação. Antes via um verme deitado no sofá. Agora, senti novamente uma dignidade neste Homem. Estamos felizes. Nossa família. Nossos amigos. Todos detestaram. Ninguém aceitou. Foi tão fácil para nós e difícil para os outros. A cara de minha mãe?! Ela gritava desesperadamente. Minha sogra, sempre tão solicita, agora demonstrou ser uma víbora. Amigos se afastaram. Os amigos de João crêem-me uma bandida. Os meus, pensam o mesmo de João. Porém, todos nos ignoram. Parece que se foi o Brilho do Casal 20, se foram os amigos. Nosso bairro é de família muito conservadora. E o Nosso Casamento era visto como salvação do mundo pecador. Uma família católica fervorosa. Não. Não importa. Hoje, depois de assinados os papéis, saí sozinha e encontrei uma amiga incrível na noite. Salomé. Ela me entendeu super bem. Trocamos telefones e ficamos de nos encontrar mais vezes. Sinto um olhar forte dela. No bar parecia que falava com um toque de sedução. Nunca me senti atraída por mulheres. Ou sim? Não sei. Não sei. Teve àquela vez. Não. Não posso lembrar. Foi há tanto tempo? Brincadeira de amigas. Meninas novas. Um sítio no interior de São Paulo. Éramos adolescentes. As duas amigas nuas. Não. Não. Deixa para lá.

(…)

Sim. Estou livre. Não há melhor lugar para respirar do que minha academia. Será que o Beto virá hoje? Bom, ele é muito legal e adoro conversar com ele. Entendeu muito bem o meu sofrimento e me apoiou deste então. Maria Cândida parecia mais bonita durante nossa separação. Já não a vejo como àquela mulher autoritária. A separação foi bem descontraída, acho que a velha amizade de infância voltou. Estávamos presos sobre os olhares de nossa família e amigos. Todos foram frontalmente contra, sempre tentando arrumar culpados. Já decidi, vou largar esta maldita empresa e esta profissão. Tínhamos uma boa poupança juntos e dividimos igualmente, desta forma conseguirei ficar um tempo sem trabalhar. Beto me apóia. Tem muitos contatos. Sim. Vou fazer o que sempre quis, pintar e pintar. Beto tem contatos na Holanda, talvez eu vá morar lá com o Beto, grande amigo e parceiro. Ele é um cara bem apessoado, e entende todos meus problemas. Grande Amigo. Marcamos o mesmo horário na academia, malhamos juntos, e tomamos àquela Cerveja depois. Ele está demorando, estou ansioso para contar-lhe tudo.

(…)

Difícil. Muito difícil. Estou sendo perseguida. Por quê? Só por que eu amo Salomé. Nos damos bem, e já assumi. Meus amigos se foram. Pensei em conversar com o João. Mas, ele sumiu. Ficamos amigos um tempo, saímos e comecei a gostar da forma como era. Descobri um Homem Gentil que não conhecia quando vivíamos em casa. Via um parasita e um afetado. Agora vi um Homem compreensível e amigo. Precisava de alguém para desabafar. Salomé não quer assumir, mas eu rompi com tudo e disse o que sou! Sim, sou Lésbica. Amo mulheres. O Primeiro contato sexual que tivemos foi genial, beijar um corpo feminino, sentir este sexo, sem àquela truculência masculina. Sim. Amo a feminilidade! Mas não a minha. Sinto-me cada vez mais feia. Abandonei a marca que eu levava, de menina meiga e boazinha. Engraçado, quantos amigos eu perdi? Depois que separei de João, todos seus amigos vieram ter algo comigo, mandei todos para o inferno! Minhas amigas têm nojo de mim. Eu sempre senti tanta atração por mulher, agora eu assumi e sou feliz. Não. Não estou. Ainda sinto um vazio. Não gosto de mim, não gosto da minha parte mulher. Não gosto deste rostinho de luva. Não. Não. Preciso de mais. Larguei meu trabalho. Não quero ter mais nada a ver com minha antiga vida. Romperei com todos. Sim. Nunca mais.

(…)

Beto me pediu em namoro. Eu? Gay? Mandei a merda. Dei dois socos em sua face. Sim. Não aturo a homossexualidade. Não. Por quê? Tipo asqueroso. Um Homem beijando o outro. Não. Não. Que nojento, pensar ter sexo com um peludo. Não. Não. Asqueroso. Totalmente asqueroso. Eu gostava tanto do Beto, conversamos muito. Um Cara tão apessoado, bonito e forte? Virar gay? Poderia ter qualquer mulher que quisesse. Idiota! Agora estou só na Holanda. Perdi o contato com as pessoas no Brasil, não aceitaram minha ruptura drástica. Enfim, não importa. Tenho pensado bastante na Maria. Ficamos bem amigos depois da separação. Voltar com ela? Não. Não poderia. Tenho medo de ofendê-la. Melhor cortar as relações de vez. Trabalho num ateliê de outro afetado. Aturava este tipo, pois é muito importante. Tenho ganhado bem pelos quadros, alguns trabalhos para agências de publicidade também. Eu gostava tanto do Beto, vivíamos sempre juntos. Ele me beijou! Ainda sinto o perfume dele no meu rosto. Maldito.

(…)

Sim. Sim. Agora me completo. Sou outra pessoa literalmente. Rompi com todos. Vim buscar um ombro amigo na Holanda. Vim buscar o João. Nunca o encontrei. Não importa. Agora sou Outro. Sim. Estou cozinhando, algo que gostava desde criança. Vivo intensamente minha paixão por mulheres, também recordações da infância. Enfim, mudei e mudei. Radicalmente. Não importa. Sinto feliz com este novo Eu. Estou contente com minha pessoa, com meu rosto, com minha verdadeira Identidade. Sim. Agora sou um Homem. Mudei de sexo. E Sinto feliz. Casei novamente. Uma Mulher linda, simpática, sensível, chama-se Joaquina Crazy. Buscamos compartilhar tudo. Não vou errar de novo. Não quero ser autoritário como fui com João. Também, busco ser mais compreensível com ela, deixo seus momentos de ócio criativo. Ela é incrível. Temos uma vida livre. Sem imposições. Não sou mais Maria. Sou José Oliva! Adoro este nome. Liberdade para escolher meu próprio Nome. Ótimo. Liberdade para amar.

(…)

Entendi bem o que queria. Beto. Beto! Grande amigo. Tivemos um pequeno relacionamento. Não deu certo. Ainda conversamos. Ele queria um Homem. Eu não era um Homem. Senti que queria ir mais além. Senti minha feminilidade profunda. Minha arte tinha travado. Sim. Operei. Agora sou uma Mulher. Minha Arte chegou a níveis inimagináveis. Sou reconhecida na Holanda. Necessitava estar em contato com minha feminilidade profunda para produzir. Sim. Necessitava muito. Casei com um Homem genial, compreensível, me dá espaço, é delicado e meigo comigo. Diferente dos autoritarismos e das histerias de Maria. Tem o olhar dela, daquele que eu gostava, e a sensatez e ponderação dela também. Algo que falta em mim. Eu, que sou mais louquinha e avoada. Procuro superar meus erros, já não tento impor um território que não existia. Sou mais preocupada com as coisas de casa. Seu nome é José Oliva, ele é forte, não é brutal, tem uma delicadeza que preciso dos Homens. Eu me chamo Joaquina Crazy, é artístico e combina com meu jeito aloucada. Um Recomeço. Agora sim, somos um verdadeiro casal, livre e sincero: José Oliva e Joaquina Crazy.

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