Cultura Privatizada I – a Virada Cultural

Por Blog do Paulo Spina

No Brasil, no Estado de São Paulo e na cidade de São Paulo a cultura é privatizada. As principais políticas culturais em vigor não passam de apoio a projetos através de leis de renúncia fiscal, produção de megaeventos e outras formas de transferência de recursos para organizações privadas, sejam elas Fundações, ONGs, OSs ou OSCIPs.

Nesse post vamos falar um pouco sobre a Virada Cultural, os megaeventos e a ocupação da cidade. Em outra oportunidade, debateremos as outras questões mencionadas…

“A Virada Cultural de SP tem cerca de mil atrações em mais de 100 locais em apenas 24 horas… Motivo de orgulho? Isso dividido por 12 equivale a mais de 80 shows gratuitos em 8 lugares por mês…

São Paulo merece cultura o ano todo!” (Criolo)

Não é mesmo incrível como, em um único dia, o governo da cidade de São Paulo consegue construir uma falsa imagem da vida cultural da cidade e da ocupação do centro? Através de um evento de duração de 24h, que gastará aproximadamente 8 milhões “oficiais” esse ano, a prefeitura faz uma ótima publicidade e esconde debaixo do tapete o fato de que esse orçamento representa grande parte do que é investido anualmente na pasta de cultura.

Não bastassem esses questionamentos, começam a vir à tona as denúncias dos esquemas de corrupção tão óbvios nesse tipo de megaevento. Vale a pena conferir no site do SpressoSP, por exemplo, a apuração recente das denúncias de formação de quadrilha, criação de empresas laranjas ou fantasmas, fraudes em licitações e, por fim, favorecimento de algumas poucas pessoas com milhões em concorrências com cartas marcadas. Assim, fica claro que para compreender a fundo uma política desse peso é preciso voltar os refletores também para os bastidores da organização do evento e da contratação dos serviços.

Ainda que a Virada Cultural tenha um público maior do que o das paradas LGBT, e que seja o maior evento da cidade, movimentando cerca de 4 milhões de pessoas e 90 milhões de reais, é preciso iluminar outros fatos ofuscados por essa vultuosa festa, como o de que grande parte dos trabalhadores de nossa metrópole jamais esteve em um teatro ou em uma biblioteca… Essa já é a oitava edição da Virada mas a cruel realidade da cultura em São Paulo, que não difere da enfrentada pela saúde ou pela educação, continua sendo a do abandono e da disputa por escassos recursos para os projetos contínuos¹. A própria página da Secretaria de Cultura nos informa que dos apenas nove teatros distritais, quatro estão fechados para reformas.

Virada, por sua efemeridade, não representa um projeto efetivo de ocupação do centro e nem garante a sobrevivência dos grupos e pequenos artistas que recebem um cachê pontual para apresentação nesse dia. Do lado do produtor e do trabalhador da cultura, temos que questionar: como é possível pesquisar, desenvolver e manter os trabalhos ao longo do ano? E, na perspectiva do cidadão/espectador, é preciso refletir: ver uma dezena de apresentações em uma noite esgota todo o seu direito a cultura?

Quando colocamos às claras essa visão de cultura dos nossos governantes, é até mais simples de entender por que em 1945 o departamento de Cultura da cidade era vinculado à Secretaria de Cultura e Higiene. A concepção de hoje mudou? É só pensar na recente proibição aos artistas de rua em São Paulo, que são enquadrados pela polícia como “comércio ilegal”… ou lembrar que o mesmo prefeito, Kassab, já tentou proibir até grito de feirante em feira livre!

Parece estar claro que não se trata de criticar a Virada Cultural como “vitrine” da Cultura em São Paulo, a legitimidade de um evento desse porte ou questionar sua programação (que, aliás, tem muita coisa boa e estaremos lá!), mas de perceber que esse único evento coloca na sombra os outros 364 dias do ano e a luta dos projetos culturais na cidade para sobreviverem.

Sim, há vida por 24h, e que seja celebrada! Mas precisamos diferenciar isso da vida cultural, que tanto desejamos durante o resto do ano. Já percebemos que a Virada tem lá sua função e reproduz a fugacidade e o descarte tônicos de nossa organização social. No fim das contas, após esse consumo, depressa demais, nos resta a necessidade de nos organizarmos coletivamente para formular verdadeiras políticas de cultura para a cidade e nos engajarmos nas lutas que virão.

1- Os exíguos recursos das Leis de Fomento são conquistas da luta dos trabalhadores da cultura (de que trataremos em outro post)

Fonte: http://blogdopaulospina.blogspot.com.br/2012/05/cultura-privatizada-i-virada-cultural.html

Sugestão de Programação para a Virada Cultural:

15h00 – Maria Rita, cantando Elis Regina – Pq da Juventude (Metro Carandiru) – esse evento não faz parte da Virada, mas é imperdível.

18h00 – Ray Lema e Orquestra Jazz Sinfônica – Pça Julio Prestes
http://www.youtube.com/watch?v=YXDHyD4HU0E

22h00 – Cupinzeiro – Largo São Francisco
http://www.youtube.com/watch?v=lLUOJEPpvBQ

02h30 – Seun Kuti e Egypt’80 – Pça Julio Prestes
http://www.youtube.com/watch?v=XveuI-Z_Igk&feature=related

05h00 – Bixiga 70 – Pça Julio Prestes
http://www.youtube.com/watch?v=ZAmm0o_MLgs

06h00 – Bloco do Sgt. Pimenta depois que sair do Bixiga 70 – Arouche
http://www.youtube.com/watch?v=ljnLaZZV2_4&feature=related

09h30 – Suicidal Tendencies – Palco da São João
http://www.youtube.com/watch?v=nxcJW6bs5os

12h00 – Titãs (Cabeça Dinossauro – 1986) – Palco da São João
http://www.youtube.com/watch?v=v813TD3h8is&feature=related

14h00 – Sarau da Cooperifa – Largo São Bento

15h00 – Trupe Chá de Boldo – Palco da XV de Novembro
http://www.youtube.com/watch?v=9H8-x6EMILU&feature=related

18h00 – Luis Antonio, Gabriela – Pateo do Colégio
http://www.favodomellone.com.br/resenha/luis-antonio-%E2%80%93-gabriela-um-espetaculo-provocador-e-impactante/

 

Anúncios