A Ética Cristã e o Socialismo

Por Yuri Campagnaro

A ciência é considerada libertação, rompe com pseudo explicações mitológicas para, sob o rigor de um método, desvelar e secularizar o Real. É assim que também pensam os marxistas-leninistas. Traduzindo para sua linguagem, o marxismo é considerado emancipação, rompe com pseudo explicações ideológicas para, sob o rigor do materialismo dialético, desvelar e revolucionar o Real.

Hegel critica o esclarecimento kantiano por este, ao querer se desvencilhar da religião, acaba sendo servo de uma fé. Na disputa entre razão e fé, a razão, tornando-se entendimento, exclui de seu campo o eterno e o absoluto, nata tem a dizer sobre eles. Assim, acaba deixando para o eterno e o absoluto o nada (é a morte da filosofia), preenchido por um novo tipo de fé – o transcendental, Deus. A fé também se modifica nessa luta e sua contradição cai no outro pólo, o da experiência. O absoluto não busca validade concreta, legitima-se a si mesmo e se hipostasia em dogma.

Adorno e Horkheimer também atacam o esclarecimento por sua auto-traição. De um lado, a razão, ao tentar se desvecilhar da mitologia, acaba sendo ela mesma um mito – o esclarecimento se torna repetição de um dogma e também redunda numa crença fixada em lei. De outro lado, a própria mitologia já é esclarecimento, já é explicação e autonomização dos fenômenos da natureza.

A razão se torna fé cega e a fé se torna doutrina rija.

Assim também ocorreu com a razão e a fé socialistas. O marxismo-leninismo transformou em lei a fé, em doutrina estática o ímpeto revolucionário. Mas também a crítica trotskista (ou “trotskistista”) se torna repetição cíclica fundada num mito da direção traidora (fé cega). Esse movimento foi interferido por um elemento externo. Como de praxe, a tempestade econômica e política bafora espalhando a fumaça das ideias. A queda da União Soviética dividiu todas as organizações de esquerda que eram de alguma forma ligadas à Moscou. O tradicional marxismo-leninismo sofreu um golpe.

A utopia liberal dos anos 90 levou a uma barbárie social (com precedentes): a barbárie da angústia empática. O fim da experiência e tradição humana, como falava Benjamin. A existência que se basta em si mesmo. O horror econômico do neoliberalismo, a intensificação da exploração do trabalho na reestruturação toyotista. A esquerda socialista, acuada, continuou afundada na mesma contradição, porém passiva. Antes, quando ainda existia história, era esclarecimento vermelho institucionalizado, dominando um terço do mundo. Agora, esse esclarecimento derrotado virou ressentimento.

A fé revolucionária fixou-se em lei. Tudo tem uma resposta pré estabelecida pela história da revolução de outubro e de sua traição: mercado é igual a capitalismo; o certo é estatizar; as alianças só podem ser feitas com os socialistas revolucionários; toda direção é traidora; a revolução será dirigida pela vanguarda melhor instruída; o estalinista deve ser banido; e assim por diante. Não se pensa o pensar, o dogma está acima da crítica e a atuação revolucionária consiste apenas em cumprir um check list, efetuar essa lei, já descoberta como a resposta. A razão se torna mera crença.

Mas a lei só atua na experiência, deixa o absoluto intocado. Como a resposta a cumprir a lei que Lênin esculpiu na pedra, a ética, a religião, a moral pessoal, se torna autônoma, esfera privada, e se há intervenção contra isso, cai-se em totalitarismo. A fé se torna cega e não é levada a sério.

Como acabar com esse paganismo e enfrentar como uma possibilidade real a luta contra o capital?

A resposta pode ser dada pelo cristianismo enquanto ética universal, aliado ao materialismo histórico. O motor teológico do marxismo, como propunha Benjamin. A união entre a fé e a lei só ocorrerá com a irrupção da fé revolucionária contra sua própria lei, como fez Cristo com a lei mosaica.

Contra o marxismo leninismo, a atual crítica socialista e principalmente sua práxis política, caiu num  dogmatismo ainda pior. O mesmo ocorreu com o cristianismo, paganizado em mercadoria e repetição cega, em leis que hispostasiam o amor, a esperança e o perdão enquanto conceitos explicativos, em mitos tão verdadeiros quanto qualquer divindade helênica – alegorias destacadas dos homens e da natureza. Toda revolução é traída: ou por uma nova revolução (à la Robespierre, Trotski, Maozedong) ou pela fixação da fé em lei. É por isso que  a esquerda ressentida acredita que toda realização é traição: todo socialismo realmente existente traiu a revolução, toda vez que o partido pode ganhar as eleições, incorre em traição. Por um lado, esse raciocínio é verdadeiro, existir é trair. Entretanto, lutar contra isso é lutar contra o vento, é negação, recalque, é andar para trás. A esquerda deve lutar a partir da realidade e não contra ela.

A ética cristã deixa de dicotomizar a realidade entre cumprimento e não cumprimento de normas pré estabelecidas que estão acima da crítica. Mas a existência da lei não é o erro (ou o pecado). Também é verdade que é impossível a lei não trair a fé. Mas é possível a lei estar a serviço da fé e a fé se utilizar da lei. A ética cristã socialista transforma a realidade, sob o ímpeto revolucionário, sob os valores socialistas, sob a realidade histórica da resistência ao capital e à barbárie. Parte da realidade para fazer novas leis, leis com a força dessa realidade, movida pela fé no impossível, pelo perdão ao imperdoável, pelo amor ao que não pode ser amado. A revolução universal deve ser lutada universalmente, não só na razão (por motivos teóricos), mas também no espírito, no corpo e no coração.

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