Crônica de algumas horas no Metro Vermelho.

Por Venâncio Guerrero.

Um dia necessário. Qual dia não é necessário? Aquele do fim de semana, aquele do descanso. O tempo livre não é necessário. É tempo jogado fora, não é tempo da gente. Maldito Tempo necessário. Isto é o mundo das necessidades, te rouba o tempo, e te impõe necessidades compulsórias. Pois, sim. Hoje é um dia necessário. Como todos os dias cotidianos. Acordar mais cedo, adiantar trabalhar e se possível acumular horas extras para um dia tentar usufruir tempo livre.

5 horas da manhã, primeiro despertador. Não. Não dá. Bosta. Muito cedo. Nem o dia raiou. Não dá. Voltar a dormir. Companheira incentiva. Dormir. Sonhos. Novamente. Novamente. Chato despertador. Sonho bom. Vida verdadeira nos sonhos. Quando serão reais? Bom.

Acordar é preciso. Trabalho. Depois política. Necessário. Mais cedo. Despertar rápido e eletrizante. Vamos. Vamos! Você deve fazer tudo mecanicamente. Não. Não. Sem perder tempo. Vamos. Vamos. Chuveiro ligado. Quente gostoso num dia frio. Ah (…) muito bom. Muito bom. Enfim, não pare. Você deve ser rápido. O tempo corre ligeiro. Vamos! Sair do banho, limpar o chão. Escovar os dentes. Pentear o cabelo. Vestir roupas. Mais tarefas? Ah (…) marmita posta. Bom, chaves, certo, carteira, certo, falta alguma coisa? Beijo na companheira. Tchau! 6 horas e 45 minutos da manhã: sair de casa efetivamente.

Agora é o ônibus. Bom. Este ônibus é muito ruim. Demora para caramba. Fica parando esta bosta para trazer novos passageiros, às custas de não funcionar direito. Bom, vamos até a Avenida Aricanduva. Ali dá certo. Ali é certeiro. A estrada feita para circular e correr. Entrar por trás do ônibus. Pois sim, pela frente é impossível. Totalmente cheio. Algumas manobras permitem uma alocação do corpo, perante os outros corpos. Pois aqui, somente somos corpos a rebolar e remexer. Vamos. Vamos. Devemos correr. Já são às 7:10, necessitamos chegar às 8 horas da manhã. Corre. Corre. Felicidade. Todos amassados e felizes, pois chegarão cedo no trabalho. Não. Não. Paramos. Perto do Metrô há muito congestionamento. Não. Não. Não faça isto com estes corpos.

Enfim, enfim, chegamos! Todos salvos. Pois, sempre é aventuroso neste São Paulo pedregoso. Vamos. Vamos. Não podemos pensar. É necessário correr para Estação. Correr. Correr. Pois, agora já são 7 horas e 30 minutos. Vamos. Vamos. Subir escadas rolantes, quem fica no lado esquerdo não pode parar, deve subir e subir. Chegando. Chegando. Malditos. Diminuem as catracas de acesso para nossa segurança. Tudo bem. Tudo bem. Passamos.

Não. Não! Está muito lotado. O metro que está chegando, também, muito cheio. Que fazer? Ninguém consegue entrar. Tudo bem. Tudo bem. O contra-fluxo está vazio. O Metrô que vai ao sentido contrário do desejado por todos, vai vazio. Sim. Então, regressar a uma estação anterior. Sim. Sim. Aqui estamos. Não. Não. Ainda lotado. Mais uma. Não. Não. Também lotado. Duas. Três. Até os extremos das estações! Itaquera.

Pedem para você sair do metrô. Ainda é necessário ir em pé. Também lotada. Tudo bem. Tudo bem. Agora, embarcamos. Já não será possível atingir a meta de 8 horas. Vamos. Vamos. O Metro vai muito devagar. Senhores usuários, por favor, não atrapalhem o fechamento das portas, pois impede a circulação dos outros trens. Não. Não. Todo mundo amassado e o metro devagar, bem devagar. As pessoas e todos dormem em pé, inclusive o que vos fala. Os olhos sentem-se cansados, muito cansados, uma luta insuportável para estar acordado.

Vamos. Vamos. Estação Carrão. A Estação onde tudo começou, onde foi necessário regressar até a última ponta, para enfim conseguir ir até a ponta contrária, Barra Funda. Metro pára e fica parado. Estamos com um problema na Estação Santa Cecília. Fica muito tempo parado, mais de 30 minutos, já ninguém quer fazer cálculo. Que novidade? Gritam os passageiros. Todos imobilizados. Todos. Todos.

 Então, passado muito tempo, o metro volta a girar, ainda com muita lentidão, muita. Chegamos, enfim, à Barra Funda. Ainda, com alguns contratempos, fila para carregar o bilhete, máquina idiota. Bom, enfim, enfim, chegamos. Horário de saída do lugar de moradia: 6 horas e 45 minutos, horário efetivo de chegada ao trabalho: 9 horas e 45 minutos. 3 horas de viagem em um trajeto que se podia fazer em 45 minutos. Sem horas extras, agora com horas negativas. Enfim, já dizia o glorioso Chico de Oliveira, malditos donos do capital e da capital de São Paulo, eles não querem gastar dinheiro necessário para infra-estrutura, portanto, jogam o custo de tempo nas costas do trabalhador. Enfim, findo dia, tudo deu errado, olhar de mulher amargada, raiva, muita raiva. Que falar dos que ficam entre patrões e empregados? Isto é outra história.

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