Socialismo ou depressão?

por Felipe Spack

Vivemos em uma sociedade que consome em abundância tanto drogas quanto antidepressivos. Por um lado, buscamos um prazer fugaz, capaz de trazer alívio imediato depois de um dia de trabalho cansativo. Por outro, buscamos uma saída artificial para o sofrimento quando ele chega, para podermos continuar trabalhando cansativamente.

Nos dois casos, precisamos de um mediador químico para obtermos o prazer. É como se a possibilidade de ser feliz dependesse de uma força externa a nós: gozamos quando tomamos drogas e só paramos de sofrer quando recorremos a elas. O que permanece fora de questão é: por que não podemos ser felizes por nós mesmos?

Primeiro, precisamos descartar o velho mote “realista” de que “a felicidade não existe” ou de que “temos apenas momentos felizes”. É porque, se a busca pela felicidade plena não fizesse parte do ser humano, não haveria drogas nem antidepressivos. Simplesmente suportaríamos, nietzscheanamente, nosso fardo cotidiano, na expectativa de que a existência, se repetida, fosse exatamente igual ao que é hoje, num eterno retorno caracterizado pelo amor incondicional aos fatos. Mas, na realidade, vemos que a busca pela felicidade move o ser humano, tanto no prazer quanto na dor.

A felicidade plena existe. O cristianismo tradicionalmente denominou essa condição de “salvação”. A salvação é o estado em que a alma se torna cristalina, e a fidelidade profunda a Deus permite que o amor à vida dê sentido a todos os seus momentos. Kierkegaard chama este estado de alma cristalina de “realização do eu universal”, estado em que tudo se torna necessário e pleno de sentido.

As Confissões de Santo Agostinho são uma descrição maravilhosa do percurso de um sujeito que dedicou sua vida à busca da salvação. Ali está uma rememoração da busca por si próprio, pelo eu universal que está em cada ser humano, mas que precisa desse processo de meditação e fidelidade aos desejos mais íntimos para aparecer. E esse eu aparece quando o amor à existência torna-se máximo.

Mas o que significa “amor”? O amor não é exatamente algo que tenha sentido; ele é mais a fonte do sentido como tal. Por isso, é difícil igualá-lo a outro substantivo. Melhor, como faz o Apóstolo Paulo, falar de como ele é: “O amor é bom, não quer o mal, não sente inveja ou se envaidece” 1 Cor 13. O amor dá um sentido universal à vida, e traz junto a firme convicção de que todos um dia participaremos desse sentido. E, por sua vez, a esperança de que um dia todos participem dele estimula nosso amor no presente.

Ainda é importante dizer algo sobre o amor: ele é real, material. Amor idealizado não é amor. Pois o amor é a convicção de que o mundo é real, e de que as pessoas que estão morrendo de fome ou violência são também algo mais do que notícias de jornal. Assim, o amor envolve necessariamente uma postura ativa perante o mundo, para que o sofrimento humano cesse.

Portanto, o amor só pode se realizar por meio de uma atitude prática no mundo. Agostinho e Kierkegaard tinham vidas públicas importantes; o primeiro lutou contra o circo romano; o segundo envolveu-se em numerosas polêmicas teológicas, mostrando o quanto o cristianismo de sua época estava na verdade corrompido pelo formalismo e pela mediocridade. Em ambos, vemos essa busca prática pelo sentido das coisas.

Em nossos dias, essa atitude prática envolve descartar, por um lado, o prazer fugaz das drogas e do consumo e, por outro, a explicação fácil de que a depressão surge da falta de alguma substância química no cérebro. Precisamos encarar a realidade do mundo: o sofrimento existe, na forma de fome, guerras, violência, estresse, etc., e só pode ser modificado através de uma atitude prática perante a realidade, que envolva um projeto universal para a humanidade, baseado na solidariedade e no amor. As relações sociais estão insustentavelmente distorcidas, e somente uma transformação radical de tudo o que existe pode dar um sentido para a história humana.

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