Mate o Burocrata que vive em você!

Por Venâncio Guerrero

Papéis. Mais papéis. Sempre ali. Nós os olhamos, ou eles a nós? O que tem escrito neles? Sim, aqui é o pior! Suas informações. O que eles instituem. Nós, nós somos instituídos pelos papéis. Não apenas isto, as informações, os detalhes, as formas, a Forma de fazer, nós não somos nada. Nosso detalhe, o concreto, o conteúdo deve subordinar-se aos ditames dos papéis, dos números, das senhas. O Procedimento é tudo, eu não sou nada. Quem controla o procedimento? Quem controla as informações que nos controla?

Nosso cotidiano está permeado de papéis e procedimentos. Desde que nascemos somos inscritos e escritos. Se você não tem um documento com teu nome, data de nascimento, você não existe para a sociedade. Isto vai piorando. Como Brasileiro necessito de muitos documentos, senhas de bancos, e procedimentos a seguir. No trabalho existe o procedimento escrito. Existem as leis, totalidade de nossa vida social.

É verdade, procedimentos são necessários. Toda ciência avançou no contar de atos.  Prever na escrita de ações futuras. Não. Não queremos dizer este aspecto da Burocracia. A verdade dura é a Forma Autônoma. Sim. Sim. O Projeto vale mais que o resultado. O tempo gasto na Forma é melhor do que Fazer e o Realizar. Conteúdo não é nada. Forma é tudo. A Forma que se impõe no concreto. Não apenas a Forma da centralização das funções, a Burocracia que mata a vida é maior ainda. Não apenas na necessidade de um burocrata se reproduzir enquanto burocrata, e no distanciamento efetivo do discurso em relação à prática. Não. Não. A Burocracia é jogo duro e malandro, está em muitos outros aspectos da vida. Interface de alguns argumentos ponderados, Sim, sim. “Veja bem, como poderão respeitar um texto que usa tange invés de concerne”, “ah (…) onde eu vi isto? Você não sabe? Está no Manual Universal de Procedimentos Corretos”. “Como eu sei isto, como poderia saber desta informação?” “Foi atualizada recentemente e no meu cargo eu sou sempre atualizado preferentemente”. “Sim. Sim. Necessitamos de Padrão”.

Somos todos padronizados. Dos pés à cabeça. Todos feitos de Papéis. Sim. Sim! Maldita Ditadura dos Papéis. O controle de informações é a formalização de tudo. Determinada leitura de Kafka nos ajudaria num combate mais estrutural contra a Burocracia. Primeiramente, a hierarquia deve ser posta em relevo, de fato. A centralização das funções e a necessidade de auto-perpetuação, que se esconde por trás de uma suposta funcionalidade é o âmago da burocracia. Porém, o Genial Kafka pressentia outras torturas da Burocracia. Não é apenas a opressão escancarada. O desespero de estar em volto a um processo interminável. Não somente a prisão que nos prende quando mais tentamos saber seus fundamentos. Também, a percepção da média burocracia. Um espaço mediano na hierarquia do Castelo. Um espaço central para a estruturação da Máquina de Central. Sim, central, central, pois é médio, mediano e modal!

O domínio do cotidiano dos procedimentos. A instituição de detalhes. Muitos detalhes, e regras e mais regras. Sim, Detalhes que abarcam a totalidade. Devemos ser justos e iguais com todos, dizem a media e baixa burocracia. A Alta burocracia não domina os detalhes, mas aqui os pequenos funcionários, criam e reproduzem mandados, processos, normativos, pequenas leis, que não apenas impõe mais formalizações da vida, bem como, os fazem úteis.

Eles acabam por criar domínios e linguagens próprias que criam um poder singularizado, e reproduzem a própria hierarquia. Um Poder Formal e Impessoal, porém, ao mesmo tempo, aberto a todo tipo de Poder Pessoal e Personificado. Não é apenas controlar uma informação necessária. Controlam uma informação, criada por eles mesmos. Uma informação inútil de uma necessidade às vezes fictícia. A informação, da informação, da informação. O essencial é confundir e nunca esclarecer. O singular e a instrumentalização da Informação que somente Eu sei, me dá o direito de criar a Minha própria interpretação. Àquela que beneficia a mim, e a reprodução de meu poder.

A imagem de um funcionário no Castelo de Kafka, que vai buscar o pedido escrito e formalizado de um Agrimensor, que ele mesmo havia criado. No seu guarda-roupa há muitos outros papéis. O Burocrata não encontra a mensagem, e não apenas isto, não encontra o contra-pedido, que negava a necessidade de um Agrimensor. Aqui, K, personagem do romance e, suposto agrimensor, fica refém de uma informação e uma contra-informação criada por um médio burocrata, pior, de uma informação e pedido não mais existente.

Aqui nos encontramos com Victor Serge, revolucionário russo, que foi perseguido pelo stalinismo. A Burocracia Stalinista começa antes de Stalin. É a Tcheka – uma espécie de polícia revolucionária, que criava procedimentos ao seu bel prazer, para a melhor segurança da revolução e o maior controle dos possíveis contra-revolucionários. Lênin ironiza para Serge, uma Resolução da Tcheka, que estabelece um procedimento do “que seria um contra-revolucionário”. Aqui, toda pessoa que tinha origem pequeno-burguesa, era suspeita. Mas, ele, Lênin, também era um Revolucionário de Origem Pequeno-Burguesa, também poderia ser considerado um suspeito. Prenderíamos a Lênin?

Parecem comparações desmedidas: A burocracia num comunismo de guerra, com a burocracia no dia-a-dia do capitalismo. Não. Não. Não importa o tempo, é opressor, e o cotidiano do capitalismo é mais opressor ainda. É sem sonhos promovidos por uma revolução. Sim. Havia a ruptura com o Czarismo nojento, de uma Burocracia maior e mais monstruosa. Agora, a Burocracia reinante é privada e pública.

Ir num cartório é uma tortura sem tamanho. Uma pessoa descobre ao longo de uma luta sem tréguas, que necessita de registros infindáveis, de certificações, de legalizações e oficializações em cima de oficializações. Não existe um manual que explica isto, as informações nunca são dadas em seus detalhes. Abrir conta em banco? Mais uma infindável tortura, no fim, você descobre que tem de pagar e pagar.

É necessário evidenciar este ponto do poder: a pequena e média burocracia reforçam a hierarquia a partir de criações de normas e mais normas, que eles editam.  O controle das informações, a partir de procedimentos padronizados, e da re-criação infindável de normas das normas. Procedimentos e detalhes do que deve ser, evidenciam um padrão que só eles mesmos conhecem. A reprodução de procedimentos e a confusão na clareza, o aumento de novos conceitos e campos lingüísticos, que apenas ao pequeno burocrata lhe cabe a ciência.

A necessidade de controle total, de controle das falhas, de controle dos erros, de controle dos contra-revolucionários, de segurança, de freio. Tudo isto generaliza os próprios erros, gera uma estrutura, que quer autoperpetuar-se como burocracia mediana, inferior, baixíssima. Aqui os Senhores estão longe e as normas se multiplicam. A hierarquia vai se fazendo mais consolidada, e os Donos do Poder ficam mais longe dos súditos.

O essencial é criar nomes, estruturas, melhor que seja com mais reuniões e mais-nomes. Existe a burocracia totalmente contra-producente. Aquela que cria, re-cria procedimento, informações, gerando reuniões e demandas fictícias, que nos dão a impressão de que somos importantes e fazemos algo de útil. Na verdade a regra a imperar: fazer muito para não fazer nada.

A Burocracia também tem seu lado econômico: da produção de dinheiro que oprime. É o trabalho inútil que gera mais-valor. Mais. Mais. Mais-trabalho. Mais hierarquia. Mais necessidades. Mais custos. Mais. Sempre Mais. Aqui queremos gerar tempo de trabalho, para gerar dinheiro. Criar novos procedimentos é demandar novos técnicos, é criar novos senhores, é criar e criar coisas vazias, coisas inúteis. Palavras vazias que geram hierarquia, tudo fica mais caro, tudo fica mais difícil, é mais custo. Tudo fica mais opressivo.

Pois preciso de um papel, criado por uma nova regra. Mas, quem domina a técnica da palavra que deve constar no papel, é um novo técnico explorado por um mercado. Não. Não. Quem domina a técnica, não é o técnico, é a empresa. Nascem novas hierarquias. A regra impõe necessidades. Os novos consumidores ficam presos aos técnicos e aos donos dos técnicos. Porém, estes técnicos são gerentes que torturados, torturam outros. Os baixo técnicos também oprimem r exploram seu parceiro. São os técnicos sociais, são os técnicos das ONGs, o Governo, as empresas e seus novos técnicos, novos departamentos. Tudo o mais. Exploração e Opressão andam sempre juntas. A Opressão do papel.

O pobre trabalhador é obrigado a ter cartões. Deve seguir novas regras e procedimentos, que desconhece. Pobre Homem ou Mulher sem posses, sem a posse da linguagem nova, inútil e necessária e paga. Aqui, tudo fica mais caro. Tudo fica pior. A Burocracia e o Mercado são amigos inseparáveis, pois o segundo precisa de necessidades para criar excedente, lucro com exploração, e o primeiro necessita de Hierarquias, Novos Procedimentos, e Trabalho Inútil.

Sim. Sim. A Burocracia prende. Ela faz trabalho inútil. Reproduz infinitamente coisas que não produzem nada. Demanda pessoas, energia humana, força de gente, força humana, inteligência, conhecimentos acumulados, tudo que foi produzido e acumulado pelos trabalhadores e sistematizados por um pouquinho de pessoas. Tudo. Usar tudo o que é importante para fazer trabalho inútil, para pensar novas regras e travar, travar os Homens e as Mulheres.

O Medo do ruído produz Controle, que produz mais ruído. O Controle é tudo, o controle produz médios burocratas, médios inferiores, médios superiores, médios do médio do médio! Aqui, a hierarquia vai ampliando o Castelo da Opressão. Os Procedimentos reproduzem a si mesmos, e aos seus Donos, que por controlar estas informações, controlam àqueles que dela necessitam.

Capitalismo produz Burocracia Clean, Burocracia com cara Bonita, mais ainda é burocracia. É a Burocracia do: “Boa tarde senhora e senhor, posso não resolver nada do que você pede?”. Burocratas. Malditos burocratas. As leis apenas funcionam como burocracia que oprime. Até os pobres são punidos com as leis que foram criadas para ajudá-los. Sim. Burocrata social-democrata que também oprime. Cínicos. Os Burocratas são todos cínicos.

Repetimos para ficar claro: A Forma é tudo, o Conteúdo não é nada. Sobre esta fórmula, se produz e reproduz o cinismo de negar e oprimir, de afirmar novas informações, não ditas. “Não tem como Senhora, faltou (…)!”. “Mas, não sabia deste documento, é só uma formalidade. Não tem como você me ajudar?” “Não, senhora, assim, não posso atendê-la! Isto é regra, é uma lei”.

Que fazer? Gritam todos aqueles que são oprimidos por papéis. Os K’s contra os Senhores do Castelo. Sim. Sim. É necessário fazer tudo que já foi dito, e um dia feito. É necessário sim: melhores trabalhos, acabar com o egoísmo. Solidariedade, sim. Propriedade para todos, sim. Propriedade da comunidade contra a Propriedade do Dinheiro e do Patrão. Sim, sim. Fim de todas as opressões: Malditos machismos, malditos homofóbicos. Sim. Sim. As informações, o conhecimento da produção na mão, no cérebro, e no coração de todos. Cultura feita e reproduzida, e socializada e verdadeiramente humanizada. Sim. Natureza reencontrada: Não precisamos matar o que nos dá água e respiro. Sim. Sim. Temos muitas coisas que fazer para acabar com os Castelos.

 Mas, também, meus caros, fundamentalmente, é necessário matar os papéis que nos oprimem. Acabar com a Forma que produz hierarquias, e se reproduz enquanto língua morta. Este formalismo que está nas palavras, na linguagem da tecnologia social. Acabar e extinguir as hierarquias de trabalhos inúteis. Sim. Sim. Acabar com a tecnologia social, rompendo com a divisão técnica nas humanidades.

Construir mediações sociais que não passem por formalismos, por procedimentos desnecessários. Sim. È necessário o contato direto, do fim da divisão de linguagens, e do funcionalismo desnecessário da política. Uma comunidade onde todos falem sem formalismos opressores. Um comunidade horizontal, auto-gerida e desenvolvida.

 No momento em cada homem e mulher tiver acesso ao poder verdadeiro dos rumos de seu mundo, controlando o procedimento e o controle como algo real e concreto, parte do conteúdo socializado para/por todos, somente aqui, poderemos matar a Burocracia. Acabar com as padronizações desnecessárias. Fim da exploração que homogeneíza. Fim do Homem Uniforme. A morte das estruturas criadas e inventadas para procriar cargos e hierarquias.  Não há fórmulas, mas devemos persistentemente incluir à Morte da Burocracia entre nossas bandeiras.

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