Estatização da Repsol? Que passa, irmãos argentinos?

Por Venâncio Guerrero

A Presidenta da Argentina, Cristina Kichner, decidiu expropriar 51% das ações da petrolífera YPF, pertencentes à Espanhola Repsol. Um acontecimento que iniciou um conflito diplomático entre os dois países, e gerou uma questão internacional razoável. A mídia internacional já declarou a Punição aos argentinos: investidores ficarão com medo, irão embora, e o país ficará isolado. Mas, qual são as conseqüências de fato para a economia da Argentina? O que levou a presidenta a tomar esta atitude? Como podemos avaliar esta medida?

A Economia da Argentina não sofrera diretamente as conseqüências da crise imobiliária. Pois, tanto os argentinos como os brasileiros não estavam no jogo financeiro de hipotecas, como estavam os Europeus, integrado ao mercado de subprime. Eles como os brasileiros, não eram tão modernos como os de centro. Por isto, sofreram depois, devido a sua integração com o capitalismo produtivo mundial. Desde a integração no comércio mundial, até no mercado de capitais. Isto é, desde a integração proposta pelo neoliberalismo de privatização de empresas públicas, pois a YPF nem sempre foi privada, e antes não era também socialista. Aqui, a integração específica era a de um capital espanhol com a economia argentina.

Portanto, a crise européia deixava a empresa da Repsol frágil, que sofria com as conseqüências internas de seu país, tendo de recuperar posições negativas com aumento da remessas de lucros para os capitalistas espanhóis (não para os trabalhadores espanhóis, que estavam e estão perdendo ainda mais com a crise). Assim, diminuía a produção de petróleo na Argentina, o que reforçava a necessidade de importar petróleo dos argentinos. Como o preço do barril medido pelas bolsas crescia, também como conseqüência da especulação financeira, a crise Argentina estava decretada, o que forçou ao governo fixar um preço de U$ 66,00 o barril, ao invés do U$100,00 internacional, tendo a empresa espanhola diminuído ainda mais a produção de petróleo.

O Governo argentino poderia aceitar tudo isto, liberar o preço de petróleo, o que ultrapassaria os U$100,00 obviamente, tendo uma conseqüência para o próprio preço internacional, piorando a situação de sua economia de forma tenebrosa. A própria crise forçou a uma atitude radical por parte dos argentinos. Como foi o calote da dívida posterior à crise de 2001.

As conseqüências efetivas para a economia da Argentina vão ser positivas no curto prazo. Por mais que a mídia brade a respeito dos investidores internacionais, elas esquecem de dizer: que estes investidores são os mesmos que quebraram meio mundo, especulando nas bolsas, além deles não serem tão mais fortes. Por outro lado, o governo poderá aumentar a oferta efetiva de petróleo, reduzindo preços de insumos e aquecendo a economia.

Também, é importante frisar, que do ponto de vista político, esta medida é louvável, pois é um conflito real contra os capitais imperialistas. Isto é positivo, pois cria um outro patamar na luta internacional dos países periféricos contra os capitalistas dos países de centro. Luta legítima e benéfica para o povo argentino, pois retira o ônus de ter de enviar um excedente para a Espanha, que imputa uma sobrecarga na economia dos argentinos, e na exploração de seu povo. Bem como, na reconfiguração mundial, tirando força econômica da política de subordinar países perífericos, o que sempre se baseou numa intervenção econômica, que gerava lucros para capitais de centro.

 Para a economia espanhola, isto os leva a uma crise sem precedentes, e o calote é o horizonte mais factível no final do túnel. Aqui os espanhóis terão de tomar medidas radicais semelhantes aos argentinos, porém é difícil visualizar estatização feita por Rajoy. Os indignados espanhóis deverão levar a cabo estas transformações.

O que não quer dizer que o povo argentino deva esperar de braços cruzados os editos do governo de seu país. Pois, Cristina Kichner desapropriou uma parte da empresa, não sua totalidade, que ainda será de capital misto, mantendo até mesmo uma participação bem reduzida dos espanhóis, de 6%. Além do mais, a família de argentinos, Eskenazis, que administram o Grupo Petersen, manterão seus 25% das ações, além de outros sócios minoritários.

Portanto, pelo menos até aqui, o ato político do Governo redundaria numa empresa  fundamentalmente capitalista, numa economia baseada no mercado – que não está nem próximo de uma sociedade revolucionária, portanto, longe do socialismo, só se pensamos que o socialismo nasce como ato positivo do capitalismo.

Porém, se os argentinos quiserem superar a crise, vão ter de avançar para além de querer ser um player global. Pois assim, ainda estariam reféns da economia mundial e de seus jogos, especulação financeira e contradições econômicas, frágeis perante o ataque dos “investidores”, contra seu país. Também, a outras dúvidas no que vem pela frente, será que o Governo Kichner terá a mesma coragem, em tomar conta do petróleo explorado pelo imperialismo brasileiro da Petrobrás?

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