Cientistas do mundo, uni-vos!

Por Rodrigo Choinski

Em entrevista de hoje para a folha.com, a presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), a biomédica Helena Nader, reclama de que o governo ignora os cientistas em debates importantes. Segundo a pesquisadora, em propostas como a mudança no Código Florestal, os cientistas não são ouvidos porque eles não têm “uma ‘bancada de cientistas’ no Congresso, como têm os ruralistas”. Em relação às reclamações, em tom de choradeira, pelos cortes de verbas destinados à área de pesquisa e falta de voz em projetos importantes, que contam com a hegemonia de grupos de interesses, sejam econômicos, sejam religiosos, podemos fazer a seguinte pergunta: “mas por que os cientistas não têm uma bancada?”.

Sempre tive professores politicamente apáticos, ao chegar à universidade, para minha surpresa, eles eram ainda mais. Entrando na onda da aversão à política – muito bem denunciada por Brecht em “O analfabeto político” – os professores simplesmente não tinham posição ou não as demonstravam. Doutores, mestres, especialistas, pessoas com larga experiência na academia ou com profundos conhecimentos em suas áreas específicas, eram incapazes de se expressar sobre questões urgentes da sociedade onde vivem, para além das formalidades monográficas. No primeiro ano, quando inocentemente indaguei a um professor qual era a sua posição política, ouvi do mesmo homem que falava alto e convencido na sala de aula, um tímido “sou um tanto anarquista”. Os anarquistas que havia conhecido até então, eram punks que comiam bordas de pizza tiradas do lixo na Rua 24 horas, em Curitiba. Não fazia sentido.

Anos depois, os estudos deste mesmo homem serviriam como uma das bases para um dos mais inovadores programas de governo que eu já vi, que, apesar de muito incompleto, trouxe uma abordagem ainda não vista à mesmice política da capital paranaense. Não preciso dizer que foi marginalizada no processo eleitoral, óbvio. Mas observem, o próprio pesquisador não se preocupava em articular suas descobertas como propostas práticas (políticas), foi necessária a ação de um grupo de jovens inexperientes para fazer isto. Este é apenas um caso particular, mas que ilustra muito bem a situação.

A preocupação política dos cientistas se resume a obter verbas para suas pesquisas. E aí mora o problema. Enquanto temos uma comunidade acadêmica numericamente em ascensão – esqueçamos por um momento os graves problemas, principalmente em relação ao ensino superior privado – temos uma participação marginal da ciência na sociedade. Os pesquisadores em geral, quando na posição de administradores acadêmicos, estabelecem uma relação ”paz e amor” com os políticos para não travarem suas pesquisas. Esta relação acaba por descurar qualquer posicionamento político mais firme.

Os cientistas deveriam ter noção da sua importância para a sociedade e começar a tomar posição política, sim. Buscar canais efetivos para EXIGIR o que é necessário. Pois MENDIGAR verbas para pessoas que se guiam por dogmas e ou interesses econômicos dos mais mesquinhos, jamais será um caminho que levará a uma solução positiva. Cientistas, tomem partido, pois analfabetismo (político) não combina com conhecimento.

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