Salve Antenor Gargalhada (ou “A relação íntima entre samba e sociedade”)

Por Bernardo Pilotto*

“Também no início do ano (1933), uma outra crise atingia pelo menos três escolas de samba: os 7.000 moradores do Morro do Salgueiro estavam ameaçados de despejo pela ação de um italiano chamado Emilio Turano, dono de outros morros cariocas, que alegava ter comprado o Salgueiro por 20 contos de réis. A resistência dos salgueirenses foi liderada pelo sambista Antenor Gargalhada, que fez da escola de samba Azul e Branco, naquela oportunidade, a primeira associação de moradores de que se tem notícia no Rio de Janeiro”.

O parágrafo acima, extraído do livro “Escolas de Samba do Rio de Janeiro”, de Sergio Cabral (jornalista, fundador do jornal O Pasquim e, infelizmente, pai do atual governador do Rio de Janeiro), confirma uma tese esquecida há algum tempo: o samba e as escolas de samba (houve uma época que não havia diferença entre eles) foram, especialmente na primeira metade do Século XX, um local de resistência e afirmação da cultura negra e popular.

O surgimento do samba e do local onde haveriam aulas sobre este estilo (as “escolas de samba”), no começo dos anos 1900, está ligado a possibilidade de afirmação da cultura negra e popular, surgida principalmente após a abolição da escravidão. O Rio de Janeiro, em especial a região localizada entre a Pedra do Sal e o bairro do Estácio (chamada de “Pequena África” pelo pintor e sambista Heitor dos Prazeres), local de efervescência cultural, devido a mistura entre baianos, ex-escravos oriundos das plantações de café do Vale do Paraíba e dos moradores do local, foi o ambiente que possibilitou a organização dos primeiros carnavais com presença popular. Até então o carnaval oficial era uma festa de elite, organizada pelas Grandes Sociedade e Ranchos.

Como consequência deste enfrentamento ao padrão estabelecido que era realizado pelo samba, em especial pelos sambistas oriundos dos morros, esta manifestação cultural era reprimida pela polícia e pela Prefeitura do então Distrito Federal: Paulo da Portela foi obrigado, pelo chefe da polícia, a mudar o nome da escola que presidia, Vai Como Pode, para poder renovar o registro da agremiação. Sem sindicatos ou outro tipo de organização, eram os movimentos culturais que serviam de espaço para a organização popular.

Percebendo o potencial de resistência que a organização das escolas de samba proporcionava (vide o caso do Morro do Salgueiro), o poder público sempre buscou a cooptação das agremiações, com vistas a “amansá-las”. Também este movimento que aqui chamamos de resistência possuía diversas contradições, como um excessivo nacionalismo, com uma exaltação da história oficial. Por reivindicação das escolas e também por um olhar de que aquele movimento poderia gerar lucro e divisas para a Prefeitura, o poder público passou a investir financeiramente nas escolas, fornecendo apoio anual (a única Prefeitura que não enxerga isso no Brasil é a de Curitiba, que há anos vem tentando acabar com o carnaval na cidade).

Mas o “enquadramento” dos sambistas não era fácil. Depois do fim da ditadura do Estado Novo, em 1946, com a volta da normalidade democrática e de eleições, os sambistas e a União Geral das Escolas de Samba (que organizava os desfiles das escolas de samba até então) passaram a se aproximar do PCB (Partido Comunista Brasileiro), que teve um bom desempenho na eleição presidencial de 1946 e havia eleito a maior bancada da Câmara de Vereadores do Distrito Federal em janeiro de 1947 (foram 18 vereadores eleitos, num total de 50). Ainda em novembro de 1946, a UGES organizou um desfile, com a presença de 22 escolas (entre elas as principais escolas da época, como Portela e Estação Primeira), em homenagem ao líder comunista e senador da República Luis Carlos Prestes.

A ligação daquele que, já naquele momento, era a maior festa popular da capital do Brasil com o PCB deixou os poderosos e a burguesia temerosos. Foi a partir daí que, numa política intervencionista, a Prefeitura do Distrito Federal incentivou a criação de uma nova associação de escolas de samba que pudesse disputar espaço com a UGES, a Federação Brasileira das Escolas de Samba. Tal federação foi criada com uma diretoria formada por representantes do governo e das comunidades e com filiou grupos que até hoje não se sabe se eram mesmo escolas de samba dignas desse nome.

A partir daí, desenvolveu-se uma disputa pelo controle do carnaval carioca nos anos seguintes, com desfiles paralelos e uma polarização típica da Guerra Fria, também entre as escolas. Com a proibição da existência do PCB e o passar dos anos, as escolas de samba voltaram a se unificar em meados da década de 1950.

No mesmo período ocorreu outra batalha sobre os rumos do samba: a destruição da Praça Onze, reduto obrigatório dos sambistas até então. Por conta das obras do prefeito Pereira Passos foi construída a avenida Presidente Vargas, que resultou na destruição da Praça Onze e na demolição de 525 prédios, entre igrejas, bancos e mercados. Com a construção da nova avenida, os sambistas e as escolas ficavam sem seu reduto, que resultou durante anos num carnaval mambembe.

Sem a Praça Onze e com a intervenção governamental na organização das escolas, o desfile rumou uma trajetória comercial que o afastou dos sambistas e de seu movimento original. Para concorrer num desfile cada vez mais especializado, era preciso cada vez mais ajuda financeira estatal e cada vez mais escolas maiores, o que forçou a unificação das diversas escolas nos morros, desaparecendo várias daquelas agremiações que haviam tido um caráter político-social anos antes.

Contraditoriamente, o sucesso do desfile das escolas de samba, o gosto popular pelo desfile e a ampliação cada vez maior do público incentivou esta trajetória comercial. Foi, por exemplo, a partir das primeiras gravações dos sambas-enredo em disco, no começo dos anos 1970, que ter um samba-enredo escolhido pela escola (e, portanto, gravado em disco) significava uma boa receita financeira, devido aos direitos autorais e a porcentagem da venda dos discos. A possibilidade de receita incentivou que alguns “compositores” se preparassem o ano todo para disputar apenas o samba-enredo, priorizando isso, e se afastando do cotidiano da quadra das escolas. Símbolo disso foi a escolha do samba-enredo da Portela em 1974, quando os compositores da escola foram preteridos. Porém, quem diria que a gravação dos sambas, uma necessidade para a memória do carnaval, fosse, ao longo prazo, tão prejudicial a qualidade dos sambas?

Esta trajetória, rumo a um carnaval cada vez mais mercantilizado, em que é preciso ter dinheiro para ter acesso, não foi em linha reta e sem contradições e resistências. Em vários momentos, houveram crítica a este processo. Como regra, estes momentos de crítica estiveram associados a períodos de crescimento da organização dos trabalhadores no Brasil. Não é a toa que o primeiro samba-enredo que denuncia a pobreza da região Nordeste (“Seca no Nordeste”) é de 1961, período de grande efervescência política. Também é nos 1980, com o fim da ditadura Civil-Militar, que as escolas de samba voltam a ter enredos com críticas sociais e políticas. Até o processo de mercantilização do carnaval foi criticado, pelo enredo “Bumbum Paticumbum Prugurundum”, do Império Serrano.

Também, nos últimos anos, devido a falta de espaço para um “livre dançar carnavalesco” nas grandes escolas de samba, ressurgiu um poderoso carnaval de rua no Rio de Janeiro, com centenas de blocos desfilando gratuitamente. Como não poderia deixar de ser, depois de alguns anos a Prefeitura do Rio de Janeiro buscou enquadrar tais blocos e impor uma série de requisitos para que tais agremiações tenham “permissão” para desfilar.

Num período onde cada vez mais temos acesso apenas há uma cultura mercantil, foram alguns cantores de grande sucesso que buscaram resgatar um samba autêntico, como Beth Carvalho e Zeca Pagodinho. Mesmo que alguns possam acusar estes de também estarem dentro de uma lógica comercial, foram estes os responsáveis por trazer a tona alguns sambas do passado. Também surgiram novos compositores, como Moacyr Luz e Cláudio Jorge, que refazem uma trajetória importante para a manutenção da cultura popular brasileira.

A luta pela desmercantilização da cultura não é algo isolado do restante da sociedade. Não será com saudosismo e com a simples negação do carnaval de hoje que será possível construir uma festa verdadeiramente popular, sem catracas que impeçam o acesso. Não  é possível, hoje, criar uma ilha de “autênticos” em meio a um mar cada vez maior de mercantilização cultural.

Para que o samba e as escolas voltem a ser um espaço de afirmação popular, com lideranças autênticas como Antenor Gargalhada sendo a regra, é preciso transformar a sociedade em que vivemos. Não será possível um carnaval de verdade na sociedade do lucro e da desigualdade.

*Bernardo Pilotto é sociólogo e sambista. É membro do Diretório Municipal do PSOL-Curitiba. 

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